- 2.6. Da Essência de Deus “O que é Deus?” Esta não é uma pergunta muito comum para um crente. Não parece muito respeitoso referirmo-nos à Pessoa de Deus com uma pergunta assim, “o que é”.Sem dúvida, a pergunta mais apropriada seria“Quem é Deus?” Mas, ao refletirmos sobre o “quê”, em relação a Deus, “o que Ele é”, estaremos procurando conhecer a natureza do Seu Ser, ou, conforme o tema deste capítulo, a Sua Essência. Assim, ao iniciarmos com a indagação “o que é Deus?”, estamos automaticamente voltando nossa atenção para aquilo que constitui a essência ou natureza de Deus. E a Bíblia, já no sentido literal, nos dá as respostas: “Deus é a verdade” (Deuteronômio 32:4; Jeremias 10:10); “Deus é luz” (1João 1:5); “Deus é amor” (1João 4:8, 16). Em resumo, Deus é amor e verdade, ou, o Divino Amor e a Divina Sabedoria. Então, a resposta mais simples à pergunta “o que é Deus?”seria: Deus é Amor e Sabedoria. Não qualquer amor ou qualquer sabedoria, mas o Amor Mesmo e a Sabedoria Mesma. Estes dois constituem a Essência Divina e são os dois essenciais aos quais se referem todos os outros qualitativos infinitos de Deus. Mas os Escritos afirmam, também, que o amor é algo substancial e tem uma forma, já que “o amor abstraído da forma é impossível”. E agora? Realmente, parece estranho pensar que o amor tenha uma forma. Mas, de fato, nada há de estranho nisso, porque é a consequência lógica do que já foi dito a respeito de Deus, a saber: a) que Ele é o Ser mesmo, o único Ser real; b) que não existe ser sem substância, e por isso Deus é a Substância mesma e única; c) que não existe substância sem uma forma, e por conseguinte Deus é a Forma mesma e primeira, da qual procede a forma de todas as coisas;d) e essa forma é a forma humana, como é evidente pelo fato de o homem, que foi criado à imagem e semelhança d’Ele, estar na forma humana mais do que todas as demais criaturas;e) por conseguinte, se a essência Divina é o Amor e Ele é a Forma mesma, segue-se que o Amor é, e existe, nessa forma, que é a Forma Humana. Em João 1:1, onde se lê que “no princípio era a Palavra (ou Verbo) e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus”, vemos a relação entre o Amor e a Sabedoria, no sentido espiritual, porque “Deus”, aí, representa o Divino Amor e “Palavra” a Divina Sabedoria. É dito em seguida que: “Ora, desde que Deus é a Substância mesma e a Forma mesma, a Substância única e a Forma única, e assim a Substância primeira e a Forma primeira, das quais a Essência é o Amor e a Sabedoria, e desde que por Ele foram feitas todas as coisas que foram feitas, segue-se que, do Amor pela Sabedoria, foi criado o Universo com todas e cada uma das coisas que ele contém; e que por isso o Divino Amor está conjuntamente com a Divina Sabedoria em todos e cada um dos seres criados”. 38 Em decorrência disso, segue-se que o Amor e a Sabedoria constituem não só a Essência Divina, mas, relativamente, constituem também a essência de todas as outras coisas criadas. Amor e Sabedoria, em suas variadas formas, estão presentes em todas as coisas do universo, em algumas mais, em outras menos manifestamente. Podemos ter uma boa noção da presença de Deus no universo, como Amor e Sabedoria, se compararmos como se dá com o sol, cujo calor e luz estão presentes em todos os objetos da natureza, vivificando-os interior e exteriormente. O calor e a luz estão juntos no sol, mas se projetam aparentemente separados no espaço, para iluminar e aqueceros planetas. Existe, então, uma correspondência entre o calor do sol no mundo natural e o Amor de Deus no mundo espiritual. Da mesma sorte, uma correspondência entre a luz do sol no mundo natural e a Sabedoria de Deus no mundo espiritual. Assim como o sol do mundo influi em todas as coisas com seu calor e sua luz, o Senhor, como o Sol do mundo espiritual, influi com Seu amor e sabedoria em todas as almas, insinuando-lhes a vida com esse calor e essa luz. Por esta relação entre o sol e o Senhor, que é uma correspondência, podemos compreender também que o Amor e a Sabedoria Divinos, embora sejam Uma só Substância, estando unidas e fazendo um em Deus, ao procederem d`Ele, alcançam o mundo espiritual (incluindo aí as mentes humanas) e, pelos interiores, o mundo natural. Como o sol natural, também o Sol Espiritual, pelo Amor e pela Sabedoria, faz germinar nas mentes toda semente boa da verdade e conduz essa verdade à germinação, aos frutos do uso. Conhecimentos aparentemente estéreis são vivificados pela afeição da verdade e revelam-se frutíferos pela ação interior da Vida Divina. Toda vida espiritual vem, dessa forma, do Amor e da Sabedoria Divinos. “O amor, como noivo e marido, engendra todas as formas, mas por meio da Sabedoria como noiva e esposa” (Ibid.) Do ponto de vista do homem, parece que Amor e Sabedoria são duas coisas distintas, que estão separadas e podem existir separadamente, mas esta é uma ilusão. Se eles emanam de Deus aparentemente separados, isto é unicamente por causa da liberdade humana, para que, pela Luz ou Verdade no entendimento, o homem, por si mesmo, conduza-se à recepção do Calor ou Bem em sua vontade. Enquanto a verdade está penetrando unicamente no entendimento, a liberdade do homem não está sendo afetada, visto que o entendimento é mera entrada do seu Ser, como um vestíbulo, enquanto a vontade é o seu ser mesmo. Se Deus insinua no entendimento, é para que o homem, julgando por si mesmo, abra a porta da vontade e O convide a entrar em sua vontade. “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo” (Apocalipse 3:20). A “porta” é o entendimento, mas a “casa” é a vontade. A Palavra de Deus bate à porta, isto é, fala ao entendimento. O homem ouve quando entende a Palavra, e abre a porta quando permite que a Divina Verdade entre em sua vontade em forma de caridade ou amor a Deus e ao próximo. A conjunção resultante é a mesa, onde o Senhor e o homem ceiam. Então, o Senhor não invade a vontade do homem, entrando sem o consentimento deste, mas entra no homem por meio da fé no entendimento, desse modo resguardando o livre arbítrio, pelo qual o homem abre a porta. Assim, sem forçar a recepção, o Amor Divino, revestido pela Sabedoria, se faz primeiro anunciar antes de dar entrada como o Bem na vida humana. É o mesmo que dizer que a fé age no entendimento primeiro, para que o homem abra francamente seu coração para a caridade a que a fé conduz. Mas caridade e fé constituem uma só coisa, pois uma nasce da outra e está latente na outra, como a semente no fruto e o fruto na semente. Este influxo dos dois essenciais de Deus (Amor e Sabedoria) é o que se chama Vida. Em outras palavras, a “vida” é a presença da Essência Divina nos seres criados: no homem, é a presença das verdades no entendimento (seja em forma de conhecimentos, fatos da experiência, memória, razão etc.), e a presença dos bens na vontade (caridade, altruísmo, compaixão etc., embora o estado de recepção pervertido do homem possa transformar esses bens em afeições do mal, egoísmo, ódio etc.). Assim a vida Divina é insinuada intimamente em todo ser humano, na alma, e é sentida como afeição na vontade e compreensão no entendimento. Por causa da mesma liberdade é que o homem pode receber a vida Divina de dois modos: ou como fé e caridade ou como ilusões e ódio. Por isso é que mesmo a vida infernal era, em sua origem, uma emanação da Vida Divina, que foi recebida de forma contrária e perversa. Nesse caso, embora o Amor e a Sabedoria Divinos tenham sido a origem daquela espécie de vida, eles não constituem mais sua essência, por causa da recepção e do uso pervertidos ou invertidos. Por isso também é que o Senhor nos diz: “Necessário vos é nascer de novo”, porque temos que ser reformados quanto ao entendimento e criados de novo quanto à vontade, para que sejamos outra vez receptáculos na ordem do Divino Amor e Sabedoria, os quais estarão em nós como Caridade e Fé, respectivamente.