- 2.7. Dos três essenciais do Divino Amor Após a exposição de que a Essência de Deus é o Amor, temos também uma explicação quanto à qualidade desse amor, isto é, qual é a sua essência. E para descrever a essência do amor de Deus, em vez de usar adjetivos, os Escritos de Swedenborg citam três ações ou atividades que o caracterizam, a saber: a) amar os outros fora de si; b) querer ser um com eles; c)fazê-los felizes por si mesmos. O primeiro essencial,amar os outros fora de si, é explicado como sendo o altruísmo em sua forma mais perfeita. É amar os outros independentemente de quaisquer interessese vantagem pessoal que se possa ter nesse amor, sem a intenção de recompensa ou de retorno, para ser amado em troca. Isto é fazer o bem a outrem por causa do bem e não por outro interesse, muito menos por causa de si mesmo. Esse primeiro essencial do amor Divino é, também, o primeiro ponto de distinção entre um amor verdadeiro e um amorfalso em qualquer ser humano. Pode-se confirmar isso quando se considera que a principal característica do amor egoístico é ser condicional, isto é, ama-se enquanto se é amado, ama-se enquanto se obtém alguma vantagem na relação. Ao contrário do amor verdadeiro, oamor falso visa à reciprocidade e, logicamente, ao próprio benefício. Vemos essa primeira característica distinta do amor de Deus no fato de Ele amar o gênero humano, que está fora d’Ele e, como tal,nada tem de si para dar a Deus em troca de Seu amor. Ninguém podejamais recompensar o Divino Amor. Deus não necessita de louvores nem de celebrações. Ele criou o homem, não para ser engradecido pelo homem, mas para amar o homem, ainda que o homem não o ame em troca, porque o amor de Deus tem isso de essencial: ama os outros fora de si. Tudo e todas as coisas do universo estão fora de Deus, porque são finitas e Deus é infinito. O amor de Deus vai e se estende não somente sobre os bons e as coisas boas, mas também sobre os maus e as coisas más, por consequência, não somente sobre os que estão no céu e sobre as coisas que o céu encerra, mas também sobre os que estão no inferno e sobre o que o inferno encerra; assim, não somente sobre Miguel e Gabriel, mas também sobre o diabo e Satanás, pois, por toda eternidade, Deus é o mesmo.Também Ele disse que “Seu Sol Ele faz levantar-se sobre os maus e os bons, e envia a chuva sobre os justos e os injustos” (Mateus 5:45)”. 39 A afirmação de que Deus ama os maus e as coisas más pode nos parecer estranha. Não entendemos como pode Ele amar (e, por conseguinte, preservar) as coisas más. A resposta, porém, aparece com clareza na explicação de que “quem ama os fins, ama também os meios”. Ora, para Deus, os fins ou propósitos da criação consistem em que haja um céu composto pelo gênero humano, onde cada um pode ser feliz na realização não frustrada de seus bons usos. Entretanto, ao homem foi dada a liberdade de escolher, se aceita ou não esse desígnio, pois, se a liberdade do homem não fosse levada em conta e o homem fosse conduzido involuntariamente para o céu, Deus estaria preenchendo o Seu céu com uma multidão imensa de autômatos, de seres passivos e inumanos. Então, para que o homem seja homem, imagem e semelhança de Deus, sua identidade e sua liberdade precisam ser respeitadas. Isto quer dizer, que, ao criá-lo, Deus previu inclusive a possibilidade de Seus propósitos serem rejeitados por parte do homem, pois,do contrário, a liberdade humana seria uma ficção. Sendo assim, pelo uso (ou abuso) de sua liberdade, o homem pode escolher que tipo de amor ele quer ouhá de cultivar: altruístico, no que se torna imagem e semelhança de Deus, ou egoístico, no que se torna efigie do inferno. Se Deus quisesse tornar Sua obra criadora mais fácil, bastaria criar o homem sem essa opção, impedindo-o de escolher o mal desde o princípio.Só que isto seria contra a ordem, pois, neste caso, ao anular a liberdade, ele anularia também a identidade, a humanidade e a possível felicidade dos seres criados. Para atingir o Seu propósito em relação ao homem, Deus não teve alternativa senão “correr o risco”, por assim dizer, admitindo a possibilidade da existência do mal e das coisas más, decorrentes do abuso da liberdade. No entanto, Ele impôs uma importantíssima condição: o mal só seria permitido se do mesmo fosse possível extrair um bem maior, que superasse o mal. Assim, se algum mal acontece é porque Deus dali pode fazer sair um bem que o compense e supere. O mal, aos olhos de Deus, é como o esterco que beneficia a planta em crescimento. Não é agradável nem vem d’Ele, mas é inevitável por causa da liberdade do homem, e será útil, se o homem quiser crer que dali o Senhor fará sair o bem. Em suma, no plano Divino, os males não são mais que meios para o cumprimento do bem. É por isso que o Senhor não destrói os maus e as coisas más, mas, permitindo a existência deles, faz com que sejam úteis para a consecução deSeu propósito. Diante disso, outra questão pode surgir: “Nesse caso, o mal foi uma coisa necessária na criação?” A resposta que encontramos nas Doutrinas Celestes é um taxativo não. O mal não tinha necessariamente de existir para que o propósito Divino se realizasse. No princípio, era possível ao homem usar sua liberdade e escolher o que quisesse, mas sua escolha era entre variedades do bem, da vida celeste, não havendo, por conseguinte, a necessidade do mal como opção. O homem antiquíssimo, ou seja a raça ou dispensação humana que é representada pelo homem simbólico, Adão, pôde sempre escolher, mas não entre o bem e o mal, como veio ocorrer depois da queda. A escolha era entre a elevação ao nível do bem celeste oua permanência no estado corporal em que fora criado. Era uma escolha entre bem racional e a ausência do bem ou bem meramente natural, e não, como viria a ser depois, entre o bem e o mal. Assim, e enfatizando, o mal não era algo necessário nos planos Divinos. É interessante que aprópria existência ou subsistência do mal, do malfeitor e do diabo é a maior prova de que o amor Divino é “fora de si”, isto é, independe de retorno, porque, se esse amor perdesse tal característica, mesmo que fosse por um instante apenas, os maus, as coisas más eos infernos deixariam imediatamente de existir. E não somente estes, mas também os bons, os anjos e os céus, enfim, toda criatura humana, e todas as coisas criadas, por não poderem prover a reciprocidade que o amor Divino então exigiriadelas. E não só isto: até o próprio Amor Divino deixaria de existir, pois tirar-lhe esse essencial seria tirar-lhe sua essência. Deus não age contra sua essência, pois seria como agir contra si mesmo. Se, portanto, o amor de Deus fosse imperfeito, como imperfeito é o amor humano, o próprio homem, sendo em si infiel e ingrato, já teria deixado de existir no instante mesmo em que voltasse as costas a Deus. O segundo essencial do amor de Deus: querer ser um com os outros. Este essencial é a atração que produz a conjunção ou comunhão. Quando se ama alguém, sente-se o prazer da presença ou da proximidade da pessoa amada. Isto é definido de um modo bem interessante nos Escritos: “O amor é uma forte atração”. E a atração é diretamente proporcional à veracidade e à intensidade do amor. A emanação do amor de Deus inspira uma força atrativa econjuntiva em todos os que a recebem. Por isso é que todo amor anseia pela conjunção, em conformidade com o segundo essencial do amor de Deus. Quanto mais, pois,o ser humano recebe o amor de Deus, mais ele sente prazer em estar na convivência da família, na companhia dos amigos, na congregação dos irmãos, num grupo de trabalho com objetivos comuns. Onde, porém, esse segundo essencial do amor se manifesta de forma mais expressiva ou mais visível é no amor conjugal. E, aliás, Swedenborg dedicou um inteiro tratado a este tema, “O Amor Conjugal”, ou seja, entre o masculino e o feminino, o marido e a esposa, como imagem e semelhança do casamento entre o amor e a sabedoria em todas as coisas criadas. E trata, também, do amor para com os filhos, especialmente o amor materno. “O segundo essencial do amor de Deus, que é querer ser um com eles, é reconhecido também pela conjunção de Deus com o céu angélico, com a Igreja nas terras, em cada homem da Igreja, e com todo vero e todo bem que entram no homem e na Igreja e que os constituem. O amor, considerado em si mesmo, não é outra coisa senão um esforço para a conjunção.Pela descrição da essência do Divino Amor pode-se ver qual é a essência do amor diabólico; pode-se ver pelo oposto: o amor diabólico é o amor de si. É chamado amor, mas, considerado em si mesmo, é o ódio, pois não ama pessoa alguma fora dele e quer ser conjunto aos outros não para lhes fazer bem, mas unicamente para fazer bem a si mesmo”. 40 O anseio ou esforço pela conjunção, pois, é o segundo essencial pelo qual o amor se manifesta. Mas o fato de haver, por natureza, esse essencial do amor no homem, ou seja,no fato de o homem querer se conjuntar àqueles a quem ama, não faz, por si só, com que o homem seja uma imagem de Deus. Na realidade, a qualidade desse esforço no sentido da conjunção é determinada pelo primeiro essencial - amar os outros fora de si. Dizendo de outro modo: o segundo essencial é qualificado pelo primeiro. Por exemplo: se o amor for egoístico (seu primeiro essencial), o desejo pela conjunção (o segundo essencial) estará contaminado pelo egoísmo, isto é, busca-se a conjunção para satisfazer-se a si mesmo, para conseguir algum proveito ou recompensa, para se obter alguma vantagem. O egoísta ama, a seu modo, e quer estar junto a outro, só que por um fim egoístico.Por isso é que existe, para diferenciar, o terceiro essencial; este fará a distinção entre o amor verdadeiro e o amor interesseiro; é o “para quê” se deseja a conjunção. O terceiro essencial: torná-los felizes por si. Esta, então, é a finalidade da existência dos essenciais anteriores: o Amor Divino (e, daí, o amor verdadeiro no homem), ama fora de si e quer se conjuntar aos outros para fazê-los felizes. Como foi dito, esta terceira característica é que determina a distinção entre o amor genuíno e o amor falso ou o egoísmo, pois o propósito deste terceiro essencialestá na felicidade de outrem e não na de sua própria pessoa. “O terceiro essencial do amor de Deus, que é torná-los felizes por si, é reconhecido pela vida eterna, que é a ventura, a bem-aventurança e a felicidade sem fim, que Deus dá aos que recebem em si Seu Amor. Com efeito, como Deus é o amor mesmo, poistodo amor exala de si um prazer, e o Divino Amor exala a beatitude mesma, a ventura mesma e a felicidade mesma durante a eternidade, assim, Deus faz felizes por si os anjos e os homens depois da morte, o que se faz pela conjunção com eles”. 41 Fazer o bem por causa da felicidade de outrem, para a satisfação e o prazer de outrem, e não por causa de recompensa,isto é o que realiza o amor e dá-lhe propósito. O terceiro essencial é como um envoltório, um complexo e uma base para os dois anteriores. “Tornar os outros felizes” deve ter interiormente o “querer ser um com eles” e, dentro desse querer, o altruísmo do “amar fora de si”. O ato de fazer alguém feliz só é da caridade quando daíestá excluído o egoísmo, implícito nasatisfação pessoal e na intenção a recompensa ou retorno. É a intenção encerrada nos atos que determinam o valor desses atos. O ato é que dá forma e existência ao amor ou caridade. Há um relacionamento entre estes três essenciais como o que existe entre corpo, alma e espírito: o amor fora de si é como a vida do amor; o querer ser um com os outros é a sua força; e torná-los felizes é o plano, o corpo ou a forma em que os outros dois se manifestam. Estes três essenciais só existem em realidade no amor Divino, eforam a causa da criação do universo e são a causa de sua conservação.42Mas, como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, por isso no amor natural do homem há uma semelhança do amor Divino e de seus três essenciais, pois todas as coisas criadas levam uma marca ou similitude do seu Criador. Mas, no amor do homem, os essenciais correspondentes ao Divino amor são modificados pela natureza pecaminosa do homem. Seu amor só passa realmente a ser imagem do amor de Deus quando o homem adquire a caridade ou amor espiritual pela regeneração. Este é o alvo do homem que está nascendo de novo, ou sendo regenerado: que em sua caridade haja estes três essenciais que estão no amor de Deus, sem faltar um deles sequer, pois a falta de um destes essenciais anula a presença também dos outros dois.