- 2.10. Da criação do universo O assunto da criação do universo é um tema polêmico quando se refere à religião, pois saber como o universo foi criado torna-se, para muitas pessoas, o ponto de divergência entre religião e ciência. De um modo geral, a maioria dos cristãos imagina que as verdades de sua religião são seriamente ameaçadas pelo conhecimento científico, o qual parece pôr em dúvida ou mesmo negar aquilo que a religião ensina tradicionalmente a respeito da criação. O naturalismo e, em seguida, o ateísmo nascem, para muita gente, exatamente dessa aparente desavença. Por não concordarem com o que a religião ensina sobre a criação, muitos acabam rejeitando tudo o mais que pertence à revelação Divina e passam a se apoiar apenas no que se pode comprovar pelos sentidos e pelaciência humana. O que a religião ensina sobre a criação? Na Bíblia, lemos a história da criação do universo em Gênesis 1: “No princípio criou Deus os céus e a terra...” Por séculos e séculos, o homem comum não teve problema em acreditar com simplicidade no relato da criação de Gênesis, sem sequer passar por sua cabeça que as coisas poderiam ser diferentes. Em conformidade com o nível do conhecimento ou da experiência humana, da época em que a “ciência” ainda atribuía à terra a forma achatada ou a condição de centro do universo, não havia muito que se argumentar contra a criação descrita na Bíblia. E mesmo se alguém ousasse fazer isso, a predominância do pensamento religioso o confrontaria e, durante certo tempo, a Igreja Católica, através da Inquisição, trataria de punir o incrédulo blasfemo. Desde os tempos de Moisés, o que a crença judaico-cristã tem ensinado tradicionalmente sobre a criação não mudou, e a maioria das doutrinas cristãs interpreta literalmente os primeiros capítulos de Gênesis, ou seja, que o universo foi criado em seis dias, seis períodos fixos de 24 horas como as que temos hoje. Em outras palavras, o Criador começou com a criação da luz na manhã de um dia que seria o domingo e, na tarde da sexta-feira, criou o homem, finalizando Seu trabalho. Com alguma variação, é assim, mais ou menos, que as religiões cristãs hoje ensinam sobre a criação. E, por tomarem literalmente os tempos ali mencionados, vários teólogos chegaram ao ponto de fixar a idade exata do nosso planeta em algo em torno de 6.000 anos. Enquanto a humanidade engatinhava na simplicidade de uma fé infantil, o relato literal da Bíblia bastava para lhes responder a questão da criação do universo por Deus. Mas quando essa humanidade evoluiu intelectualmente e chegou à idade da luz, podendo alcançar respostas mais esclarecidas e estando em condições de examinar o que lhe é ensinado, passou a fazer descobertas científicas e expandir seu conhecimento para além de limites nunca antes atingidos. Ora, em face disso, a religião precisava igualmente amadurecer, e por isso é que Deus aprouve trazer ao mundo a revelação dos interiores de Sua Palavra, pela qual Igreja pudesse entrar no verdadeiro sentido da revelação Divina, abandonando as aparências de verdade de sua fase infantil. No que concerne, pois aos relatos literais sobre a criação, chegou um momento em que a Igreja se viu confrontada pelas descobertas (não teorias, mas descobertas) da ciência. Porque alguns teólogos haviam calculado em menos de 6.000 a idade do mundo a partir das idades dos personagens bíblicos. Mas, achados geológicos a partir do século XIX, e datações de carbono 14 a partir do século XX, provavam que a vida na Terra tem existido há milhões de anos. Muitos se sentiram particularmente ofendidos frente a tais descobertas e passaram a ver na ciência uma antagonista da fé. Quando as primeiras obras de Swedenborg foram impressas anonimamente, em 1749, o primeiro livro, chamado Arcanos Celestes, tratou de desvendar exatamente um significado espiritual existente não só nos relatos de Gênesis sobre a criação, mas em toda a Palavra de Deus. O sentido espiritual revelado ali mostra que a Palavra de Deus não foi dada com o propósito de responder questões de ordem temporais, relativamente sem importância diante das questões eternas; também não foi dada para substituir o conhecimento e a ciência humanas, e muito menos foi dada para desafiar a razão. O problema é que, quando aparências de verdades são tomadas em lugar de verdades genuínas, muitas dificuldades surgem, não porque a Palavra as apresenta, mas porque falta ao homem o entendimento de sua mensagem, falta ao homem saber como conciliar e harmonizar o conhecimento natural com o espiritual. Assim, quando pensamos na criação, aquela primeira ideia que nos ocorre, vinda da infância e da fé simples, de Deus pairando no espaço e, a cada 24 horas, fazendo aparecer determinada coisa no espaço, tal ideia precisa ser esclarecida e preenchida com a verdade genuína; ela nos bastou numa época de nossa fé e foi essencial para firmar nossa crença no Senhor Deus Criador. Hoje, porém. temos de saber que aqueles primeiros relatos que apreendemos com afeição inocente se destinam, realmente, a nos informar como se dá com a criação de nosso interior, nosso ser espiritual pelo processo que se chama regeneração. Sabendo disto, quando voltarmos nossa atenção para a criação do universo físico em si, ideias mais maduras devem nos ocorrer, ideias cujas leis podem estar em perfeita harmonia com as descobertas da ciência humana. Se partirmos do princípio afirmativo, poderemos encontrar a resposta de nossas dúvidas. Em outras palavras, se crermos que Deus é o Autor da criação, e que todas as coisas criadas procedem d’Ele, de Seu Amor e Sua Sabedoria, e nada vem do nada, então, partindo dessa fé, poderemos depois examinar as descobertas da ciência, porque nelas acharemos respostas que, inclusive, servirão para corroborar a crença nas verdades espirituais. Na obraVerdadeira Religião Cristã lemos que, para formarmos uma ideia justa a respeito da criação, algumas proposições precisam ser conhecidas. Essas proposições ou premissassãotratados ali na seguinte ordem: a) Há dois mundos: o espiritual, onde estão os anjos e espíritos, e o natural, onde estão os homens. b) Há um Sol espiritual, que é puro amor procedente de JEHOVAHDeus. Seu calor e luz são o Amor e a Sabedoria, que afetam o espírito humano (vontade/entendimento). c) Há o sol natural (bilhões deles), que é puro fogo e morto; seu calor e sua luz são naturais e afetam a matéria natural.d) Há três graus ou regiões da mente humana, três graus de vida, e daí três céus no mundo espiritual. e) Há uma correspondência entre as coisas celestes/espirituais e as naturais. f) Há uma Ordem segundo a qual todas as coisas, num e noutro mundos, foram criadas. Todavia, o capítulo citado de VRC não trata com profundidade da criação, como fez com os assuntos anteriores. Dizendo que não é este propriamente um tema teológico, Swedenborg o deixa de lado, trazendo somente algumas de suas experiências a que chama de Memoráveis, pelas quais poderemos ter uma ideia da criação do universo por Deus, sendo essa ideia apenas um feto, por assim dizer, da realidade que representa. O fato é, em resumo, que a criação do universo físico é uma obra Divina, mas o livro sagrado do Gênesis toma essa criação apenas como um símbolo da criação espiritual do homem, chamada de regeneração ou novo nascimento. Assim, não é apropriado tentar entender tais relatos como se fossem informescientíficos. * * * * * * *