- 3.5. Redenção epaixão da cruz É sabido que o cristianismo fez um paralelismo entre a morte de Jesus na cruz e o sacrifício do cordeiro da páscoa. O sangue do cordeiro, que se derramava no altar do sacrifício para expiação do pecado, para o judeu, ficou sendo o sangue do Messias, para o cristão. A ideia comum nas duas igrejas era que o derramamento (literalmente)de sangue inocente tinha o poder miraculoso de expiara culpa. Ofereciam-se a Deus aves e animais sem defeito – pombos, cordeiros, cabritos e bois –com a ideia de que o sacrifício do inocente estava substituindo o sacrifício do próprio pecador. Nessa crença estava implícita a ideia de que Deus é um ser sanguinário, cuja ira só se aplaca quando vê sangue, mesmo que seja, injustamente, o de um inocente.Essa era uma ideia pagã dos arameus e cananeus, que sacrificavam seus filhos a Moloch e outros deuses. Essa ideiacontinuou entre os israelitas e judeus, porque eles descendiam dos arameus e cananeus (Ezequiel 16:3) e eram, por conseguinte, idólatras de coração. De fato, Deus nunca requereu sacrifícios daquele povo, “Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que vos tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios” (Jeremias7:22). Deus não se comprazia com a matança de animais inocentes, ou com atos meramente do culto sem um coração quebrantado “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste” (Salmo 40:6).  “Porque te não comprazes em sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos.Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus”(Salmo 51:16, 17). “Porque eu quero misericórdia e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos” (Oséias6:6) Ele não os requereu, mas, como aquele era um povo idólatra, propenso a sacrificar os próprios filhos (2 Reis 6:26-30), o Senhor então permitiu que eles, em lugar de crianças, sacrificassem animais inocentes. Porque o Senhor não quebra nem violenta a natureza humana, por mais iníqua que seja, como diz, “A cana trilhada não quebrará, nem apagará o pavio que fumega; em verdade, produzirá o juízo” (Isaías 42:3). Então, como a nação israelita era por hereditariedade propensa à idolatria e aos sacrifícios de inocentes, o Senhor lhe permitiu sacrificar, mas disse, pelo profeta, que, de fato, nunca tinha requerido tais coisas. Acontece que aquele rito do culto foi interpretado pelo cristianismo de uma forma canhestra, depois de 325, quando a crença em uma trindade de Pessoas Divinas foi introduzida, e, a morte de uma dessas pessoas na cruz passou a ser interpretada como um sacrifício de sangue que aplacaria o furor da outra divindade e obteria sua complacência para com o homem pecador. Havia – e há ainda – a ideia implícita de que o derramamento constante do sangue das vítimas inocentes na Igreja Judaica não chegaria jamais para aplacar a ira de um Deus rigoroso, vingativo, que não se poria em ação para salvar a não ser mediante a visão desacrifícios. Uma injustiça mais do que cruel, porque se derramava a vida de um inocente para benefício de um pecador. Assim, o cristianismo de após Nicéia enfatizava a substituição: Jesus morreu na cruz em lugar do homem. O Inocente mesmo teria se oferecido a um suposto outro, o Pai, e este, unicamente em virtude do sangue que o Filho derramou, teria enfim concordado em salvar a raça humana de morte eterna. Essa doutrina da expiação por meio de sacrifício, compartilhada por todo o cristianismo pós-niceano, foi assim resumida por Spurgeon: “Era necessário que Ele sofresse, no lugar dos pecadores, justo o que os pecadores deveriam ter sofrido. Seria difícil conceber o castigo pelo pecado se prescindisse da face franzida da Deidade. Sempre associamos o crime com a ira, de tal forma que quando Cristo morreu, ?o justo pelos injustos, para nos levar a Deus,” quando nosso bendito Salvador se converteu em nosso Substituto, pelo momento se tornou em vítima da justa ira de Seu Pai, já que lhe foram imputados nossos pecados para que Sua justiça pudesse nos ser imputada a nós. Foi necessário que experimentasse a perda do sorriso de Seu Pai, pois os condenados no inferno devem de ter provado essa amargura; e, portanto, o Pai fechou os olhos de Seu amor, pôs a mão da justiça diante do sorriso de Seu rosto, e deixou que Seu Filho clamasse: ?Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.54 Que noção mais terrível é essa a respeito de Deus! Desejoso de sangue, não teria misericórdia do homem, a não ser que o própriofilho sofresse em seu lugar. Assim, seria o Deus-pai menos amoroso e menos misericordioso do que o outro,o Deus-filho. E, não obstante, a Bíblia diz que Ele é amor. Ninguém reflete que, ao atribuir a Deus um caráter vingativo (por querer destruir o homem pecador), cruel (por não ter compaixão do homem ou tê-la menor do que a do segundo deus, o filho) e sanguinário (por ter sua ira aplacada pelo derramamento de sangue inocente), o que se está fazendo é, de fato, considerando-o um Deus mau e tirano, em vez de um Deus de amor e misericórdia. Isto é o que está implícito no conceito de que a morte de Jesus na cruz foi o sacrifício dos sacrifícios, o maior e definitivo, o do Cordeiro supremo que, uma vez imolado, resgatava definitivamente todos os pecados da raça humana, no passado, presente e futuro. Como vimos por várias passagens da Palavra, Deus, apesar de os permitir, nunca exigiu sacrifícios na dispensação judaica, e muito menos na dispensação cristã, cujo culto devia ser racional e exercido na prática do amor a Ele e para com o próximo. “Há um só Deus e ... não há outro além d’Ele; ... amá-lo de todo o coração, e de todo o entendimento, e de toda a alma, e de todas as forças e amar o próximo como a si mesmo é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios” (Marcos 12:32, 33). A injustiça dessa imagem que se faz de Deus fica ainda mais evidente quando imaginamos que, se fosse assim, Deus teria sempre tido nas mãos o poder de salvar o homem, mas não o fez até que um outro ser, completamente inocente, o convenceu a fazê-lo. Deus, nessa concepção, teria estado vendo milhões oubilhões de almas se precipitarem nos infernos sem que Ele movesse uma palha para impedi-lo, até o dia em que o sangue inocentíssimo e definitivo se derramou na cruz. Quando veio ao mundo, o Senhor lutou contra todos os infernos e triunfou sobre eles. A morte na cruz foi a última batalha, pela qual Ele levou definitivamente cativo o cativeiro (Salmo 68:18), pois ressurgiu glorioso da morte. Ao lutar contra os infernos e expulsá-los das regiões celestiais, o Senhor estava resgatando as almas de todos os homens do poder da morte e restituindo-lhes a liberdade espiritual, e todos tendo sido redimidos, todos podem agora ser salvos, contanto que cada um tome a sua cruz e siga o Senhor, renunciando-se a si mesmo. A paixão da cruz foiuma tentação espiritual, a maior e a mais gravede todas, pela qual o Senhor Jesus subjugou os infernos. Com a vitória d’Ele na cruz, seu Humano foi plenamente glorificado e uniu-se à Alma, Seu Pai. Se a morte d’Ele na cruz fosse substituição e salvação, Ele não teria dito: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me”(Mateus 16:24). Pois, se Ele tivesse morrido por todos e em lugar de todos, na cruz, por que é que cada um teria de levar sua cruz e ‘morrer’, isto é, renunciar a si mesmo a cada dia?A resposta é porque a morte do Senhor na cruz não foi a substituição da morte de nosso eu, em nossa cruz, a cada dia. Outra razão também pela qual o Senhor admitiu ser crucificado e padecer a cruz foi por causa de Sua função de Profeta. Quando se deixou crucificar, Ele estava representando a qualidade espiritual da Igreja Judaica, que então chegava a seu termo.Que o Senhor mesmo tenha sido Profeta, vê-se por estas passagens: “O Senhor disse: Um profeta não é sem honra senão em sua pátria e em casa” (Mateus 13:57)... “Não é conveniente que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lucas 13:33). “O medo se apoderou de todos; eles louvavam a Deus, dizendo que grande profeta havia sido suscitado entre eles”(Lucas 7:16). Os profetas na antiguidade representavam em suas vidas e, muitas vezes, em seus próprios corpos, o estado espiritual da igreja em sua época. Os profetas representavam ou exibiam ao vivo o estado espiritual da igreja em relação à Palavra, “e, por conseguinte, representavam a Igreja tal qual era, por diversas coisas e também pelos atos iníquos, duros e mesmo atrozes que lhes eram prescritos por Deus”55. É por isso que, às vezes, encontramos nos textos proféticos instruções estranhas que os profetas recebiam e da qual podemos tirar pouco proveito se as considerarmos apenas literalmente, porque só podem ser conhecidas a partir da linguagem simbólica das correspondências. Os profetas, sendo uma representaçãoao vivo e do estado da Igreja, tinham, portanto, que cumprir o que lhes era designado a fim de, por meio de seus atos e palavras, o estado da Igreja fosse conhecido quanto ao seu aspecto espiritual. Mas o Senhor, sendo a Palavra mesma, “pela paixão da cruz Ele representou, como profeta, a Igreja Judaica e a maneira pela qual essa Igreja havia profanado a Palavra mesma; a essa razão se junta esta, que Ele devia assim ser reconhecido nos céus como Salvador de um e outro mundos, pois todas as coisas de sua paixão significavam coisas que concernem à profanação da Palavra; e os anjos as compreendem espiritualmente, enquanto os homens as compreendem naturalmente. “Que o Senhor, como Profeta, tenha representado o estado da Igreja Judaica quanto à Palavra, é o que é evidente em cada particularidade de Sua paixão. Por exemplo: Ele foi traído por Judas. Foi preso e condenado pelos principais dos sacerdotes e pelos anciãos. Deram-Lhe bofetadas. Bateram-Lhe na cabeça com uma cana. Puseram-Lhe coroa de espinhos... A Sua traição por Judas significa que ele era traído pela nação judaica, na qual estava a Palavra, pois Judas representava essa nação. Sua prisão e Sua condenação pelos principais dos sacerdotes e pelos anciãos significava que toda a Igreja Judaica agia assim. Dar-Lhe bofetadas, cuspir-Lhe na face, açoitá-Lo... significava que se tinha agido assim em relação à Palavra, quanto a Seus Divinos Veros. A coroa de espinhos que Lhe puseram na cabeça significava que tinham falsificado e adulterado esses veros. A partilha de Suas roupas e a sorte lançada sobre Seu manto significava que haviam dispersado todos os veros da Palavra, mas não seu sentido espiritual, que era significado pelo manto do Senhor. A Sua crucificação significava que se havia destruído e profanado toda a Palavra. O vinagre que lhe apresentaram para beber significava que tudo estava falsificado, por isso Ele não o bebeu...”56 Ao representar a Igreja como Profeta, o Senhor portou no próprio corpo, com todos os sofrimentos, o desprezo que a maldade humana tinha pela Palavra. Ele exibiu em Si mesmo a iniquidade do homem, e por isso é que João, o batista, ao vê-Lo, profetizou: “Eis o Cordeiro de Deus que carrega o pecado do mundo”, ou seja, que leva no próprio corpo as marcas do pecado da Sua Igreja. Mas como essa expressão não fazia muito sentido ao entendimento literal dos cristãos,acharam melhor substituir o verbo “carregar” pelo verbo “tirar”, porque isso fazia sentido com a crença que havia sido elaborada sobre a expiação dos pecados por um sacrifício na cruz. Em razão de todas as falsidades que daí tiveram origem é que Swedenborg faz uma dura crítica aos teólogos do cristianismo: “A crença de que a paixão da cruz foi a redenção mesma é o erro fundamental da Igreja; esse erro, junto ao erro sobre as três pessoas Divinas de toda eternidade, de tal modo perverteu a Igreja toda, que nada resta de espiritual nela”.57