- 4.1.1. Verdades reais e aparências de verdade
Outro conceito peculiar da teologia de Swedenborg é a distinção que ele faz entre verdades reais e aparências de verdades. As verdadesou veros reais são também chamados de verdades nuas, e os doutrinais por eles formados são adoutrina da verdade genuína.
“Mas isso vai ser ilustrado segundo a Palavra: “Jesus disse: Ai de vós! Escribas e fariseus, porque limpais o exterior do copo e do prato, enquanto os interiores estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego, limpa primeiramente o interior do copo e do prato, a fim de que o exterior se torne limpo” (Mateus 23:25,26). Aqui, o Senhor falou por similitudes e comparações, que são ao mesmo tempo correspondências...”
Como é óbvio, o Senhor não queria se referir a copo e prato materiais, mas
“pelo copo é entendido o vinho, e pelo vinho é significado o vero; pelo prato é entendido o alimento e pelo alimento, o bem; por isso, limpar o interior do copo e do prato significa purificar pela Palavra os interiores da mente que pertencem à vontade e ao pensamento”.61
Algumas vezes, porém, os tipos simbólicos empregados caem em formas representativas tão diversas que a verdade literal nem parece mais ser uma verdade de fato. Por exemplo, quando o Senhor disse: “Se o teu olho te faz pecar, arranca-o e lança fora...”, é evidente que esta não é uma verdade literalmente nua, mas apenas uma aparência da verdade. Por ser uma aparência de verdade, quer dizer que não se pode aplicá-la ou segui-la “ao pé da letra”, pois se trata de uma parábola.
Nessa instrução, a verdade genuína está no sentido espiritual, pois o “olho” aí, não podendo ser, obviamente, o olho natural, só pode ser o que o termo “olho” significa espiritualmente. E o “olho”, no sentido literal, significa o entendimento, pois a alma vê a verdade através do entendimento, da mesma forma que o corpo vê um objeto através do órgão da visão. Então, o “olho” de que devemos nos desvencilhar é o entendimento enganoso, que nos faz tomar decisões ruins em nosso procedimento.
Dá-se de modo semelhante com o que o Senhor diz em outras passagens, por exemplo: “O que entra pela boca não contamina o homem” (Mateus 15:11); ou“Arrependeu-Se Deus de haver criado o homem” (Gênesis 6:6); ou“Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim” (João 6:56); ou que o dragão “levou após si a terça parte das estrelas do céu e lançou-as sobre a terra” (Apocalipse 12:4), embora tenha sido dito antes, no cap. 6:13, que “as estrelas do céu caíram sobre a terra”e assim por diante. Todas essas expressões são apenas aparências de verdade, e foram pronunciadas assim, simbolicamente, para conter a verdade genuína que é a mesma que o sentido interno.Estas são apenas uma amostra de um grande número de passagens das Escrituras em que a verdade nua não está no sentido literal, mas interiormenteali.
De fato, grande parte de toda a Escritura Santa consiste em aparências de vero, tipos simbólicos ou parábolas, como se verifica especialmente pelos livros proféticos; e como essas aparências de verdades, tomadas como verdades genuínas, são estranhas, seu sentido não pode ser compreendido, o que faz com que a Palavra seja comparada a um livro selado com sete selos (Apocalipse 5). Muitas verdadesestão revestidas e obscurecidas pelas aparências ou pelo simbolismo da correspondência. Por exemplo, as parábolas que o Senhor dizia de forma enigmática às multidões, e somente aos discípulos dava a explicação, porque o povo não estava preparado ou disposto a receber a verdade. O sentido parabólico da letra é como uma roupa da verdade real, que se esconde no sentido espiritual.
Contudo, é importante saber que todas as verdades nuas ou verdades genuínas que são indispensáveis para a vida e a salvação, o Senhor fez que fossem expostas no sentido da letra de forma transparente e indubitável, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Assim, os Dez Mandamentos, em Êxodo 20, são verdades reais, como também a ratificação dos Mandamentos que o Senhor fez em Mateus 5:21 a 48, além de centenas de outras expressões em que o ensinamento se mostra à razão de modo indubitável, sem a roupagem da parábola:
“Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles”(Mateus 6:1)
“E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos.” (Mateus 6:7);
“Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:15)
Como a Palavra no sentido da letra é assim formada, por isso, aqueles que sabem e creem que há no íntimo da Palavra uma santidade que vem da presença do Divino, quando leem a Palavra, enxergam as verdades interiores na luz natural,
“pois a luz do céu, na qual está o sentido espiritual da Palavra, influi na luz natural em que está o sentido da letra da palavra, e ilumina o entendimento do homem, entendimento esse que é chamado racional, e faz que ele veja e reconheça os Divinos veros onde se mostram e onde estão escondidos. Estes veros com a luz do céu influem em alguns, por vezes, sem o saberem”.62
Feita essa distinção entre aparências de vero e verdades genuínas, podemos deduzir que a doutrina da igrejadeve ser baseada nas verdades genuínas, caso contrário,será uma heresia oriunda do entendimento literal de aparências de verdade.
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