- 4.1.5. Outras considerações sobre a Palavra As obras teológicas de Swedenborg abordamoutros tópicos interessantes sobre a Palavra, entre os quais destacaremos aqui apenas o seguinte:antes da Palavra que está hoje no mundo houve uma Palavra que se perdeu. Ou seja, a Palavra judaico-cristã que hoje temos não foi, de modo algum, a primeira nem a única obra Divina de revelação, a única Palavra dada ao mundo. Houve, na realidade, uma Palavra anterior à nossa, nos tempos anteriores ao dos patriarcas. Essa era a Palavra de Deus na antiguidade, dada para a Igreja então existente e que, para efeito de identificação, é chamada de Igreja Antiga. No próprio texto do Velho Testamento há indicações de que essa Palavra antiga existiu. Ela teria sido escrita na época de uma Igreja ou de uma raça que é referida como “Enoque” no Gênesis. Assim como se dá com os nomes citados nos primeiros onze capítulos de Gênesis, Enoque não era um homem, realmente, mas uma dispensação religiosa identificada por esse nome. As pessoas daquela dispensação eram herdeiras de conhecimentos celestes provenientes de uma Igreja ainda mais antiga, ou seja, a Antiquíssima e toda a sua posteridade. Quando a Igreja Antiquíssima (representada por Adão, Eva e Enos) começou a se degenerar no transcurso do tempo – e a sua degeneração é representada por suas várias descendências até Lameque– as pessoas começaram a perder a noção de uma sabedoria tão elevada. Então o povo chamado Enoque começou a colecionar ou compilar os conhecimentos celestes dos antepassados e reuni-los em forma de doutrina. As obras doutrinárias que eles escreveram por Divina inspiração compunham, pois, uma Palavra antiga. Isto quer dizer que o povo de Israel não foi o primeiro a adorar o Senhor; bem antes dos israelitas, outros povos prestaram tal culto. Mas o culto ao Senhor se degradou sucessivamente até se tornar externo e idolátrico, conforme a decadência das igrejas antiquíssimas e antigas, o que pode ter acontecido no decorrer de milhares de anos, a tal ponto que, quando Israel veio a existir como nação, daquelas igrejas e daqueles cultos só restavam as formas externas e as idolatrias dos povos cananeus. Esta era a razão porque aos filhos de Israel não foi permitido ter contato com os cananeus, para que não fossem corrompidos pelo culto que ali se pervertera desde a remota antiguidade. Há muitas evidências nos textos do Antigo Testamento a respeito dessas igrejas antigas e de uma Palavra Divina anterior à atual. Por exemplo, há certas práticas dos cananeus que são descritas em Êxodo, Deuteronômio e Gênesis que nada mais são que reminiscências do culto verdadeiro da antiguidade. Lemos sobre Balaque, um rei cananeu que mandou chamar na Síria certo profeta, Balaão, e esse Balaão conhecia e adorava JEHOVAH, assim como o povo judeu. Ele era um remanescente da Igreja Antiga na Síria. Lemos que, quando Balaão chegou para amaldiçoar a Israel, as palavras que ele proferiu foram profecias da Palavra antiga. Pois Balaão, sendo profeta e remanescente da Igreja Antiga, conhecia a ciência das correspondências, como ele mesmo disse, referindo-se a si mesmo, “o que sabe a ciência do Altíssimo”. “Então, alçou a sua parábola e disse: Fala Balaão, filho de Beor, e fala o homem de olhos abertos; fala aquele que ouviu os ditos de Deus e o que sabe a ciência do Altíssimo; o que viu a visão do Todo-poderoso, caído em êxtase e de olhos abertos: Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó, e um cetro subirá de Israel, que ferirá os termos dos moabitas e destruirá todos os filhos de Sete.E Edom será uma possessão, e Seir também será uma possessão hereditária para os seus inimigos; pois Israel fará proezas.E dominará um de Jacó e matará os que restam das cidades.E, vendo os amalequitas, alçou a sua parábola e disse: Amaleque é o primeiro das nações; porém o seu fim será para perdição.E, vendo os queneus, alçou a sua parábola e disse: Firme está a tua habitação, e puseste o teu ninho na penha.Todavia, o queneu será consumido, até que Assur te leve por prisioneiro.E, alçando ainda a sua parábola, disse: Ai, quem viverá, quando Deus fizer isto?E as naus das costas de Quitim afligirão a Assur; também afligirão a Héber; e também ele será para perdição” (Núm. 24:15-24). Considere-se que essa profecia de Balaão foi dada quando ainda nem havia profetas em Israel. E especificamente a parte que diz: “Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó” era a profecia do nascimento do Senhor, citando a estrela que o precedeu em Seu nascimento. Essas mesmas palavras eram, talvez, do conhecimento dos sábios que, no oriente, ao verem surgir a estrela, souberam do nascimento do Senhor e vieram a adorá-Lo. Assim, parece que a Síria foi o lugar onde a Igreja Antiga permaneceu por mais tempo, porque, 1500 anos depois de Balaão,de lá vieram os sábios. O culto dos povos cananeus e caldeus, por meio de sacrifícios à divindade, era semelhante ao culto que estava sendo estabelecido por Moisés entre os israelitas, com a diferença de que os cananeus sacrificavam os seus próprios filhos a seus ídolos. Os sacrifícios dos moabitas também eram uma deturpação de tal culto. Mas encontramos referência também a outros dois personagens que são de uma igreja anterior à dos hebreus e portanto, da que chamamos Igreja Antiga e que são citados apenas de passagem na Bíblia. Eles conheciam o Senhor JEHOVAHe tinham certos rituais como dízimos, bênçãos e os simbolismos do pão e do vinho. O primeiro deles foi Melquisedeque, que era rei de Salém (talvez, o antigo nome de Jerusalém) e ao mesmo tempo sacerdote. Abrahão prestou culto ao Senhor sob o sacerdócio representativo de Melquisedeque, chamado “sacerdote do Deus Altíssimo”. Melquisedeque apresentou o pão e o vinho porque eram os simbolismos mais santos do culto, na Santa Ceia, tal como conhecemos na Igreja. Mas os teólogos cristãos quase nada sabem acerca de Melquisedeque, porque ignoram as evidências de uma dispensação anterior à israelita e judaica, e acreditam que tudo começou com o chamado de Abrahão. Além de Melquisedeque, sacerdote e rei, encontramos no livro de Êxodo referências ao sacerdote Jetro, que veio a ser sogro de Moisés. Jetro era sacerdote em Midian. Quando fugiu do Egito, Moisés se refugiou em Midian, conheceu Zípora, uma das filhas do sacerdote e se casou com ela. Morou nada menos que 40 anos, dos 40 até os 80 anos de idade, na casa do sacerdote, trabalhando como pastor de ovelhas do rebanho do sogro. Talvez esse longo período de Moisés na casa do sogro foi previsto e determinado pela Providência Divina para que Moisés fosse preparado para sua missão. Porque ele, já tendo recebido a esmerada ciência que se dava a um príncipe egípcio (visto que ele era neto adotivo do faraó), entrou agora no conhecimento do Deus dos antigos através da leitura dos livros sagrados que Jetro provavelmente possuía. É certo que Jetro, como sacerdote, tinha autoridade sobre Moisés, pois deu-lhe conselhos quando foi vê-lo durante o êxodo, no deserto. Então, teria sido dos livros de Jetro que Moisés transcreveu os relatos simbólicosque são os onze primeiros capítulos do Gênesis e, também,o livro de Jó. Além disso, ao escrever o livro dos Números, Moisés citou dois outros livros: “Guerras de JEHOVAH” (21:14); os Enunciados ou Provérbios(21:27), que não devem ser confundidos com os Provérbios de Salomão. E Josué, ajudante e sucessor de Moisés, deve ter conhecido esses livros e pelo menos mais um, pois ele citou o Livro de Jasher (ou Reto, ou Justos) em Josué 10:13. E se essas obras foram citadas e suas profecias transcritas na Palavra judaico-cristã é porque foram considerados sagrados por aqueles que os conheceram. Iniciando, porém, uma nova dispensação, o Senhor reescreveu Sua Palavra, começando-a por Moisés.