- 4.2.2. A fé salvífica A fé salvífica é a fé no Senhor Deus Salvador Jesus Cristo. Mas esta mesma afirmação também mostra, por exclusão, que existe fé que não é salvífica. Por consequência, não é a existência da fé, por si mesma, que produz a salvação, mas a qualidade dessa fé. Em sua primeira epístola universal, João nos deu uma indicação importante: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (I João 4:2). Em conformidade com isso, os Escritos de Swedenborg especificam que “é preciso crer ou ter fé no Filho de Deus, Redentor e Salvador, concebido de JEHOVAHe nascido da virgem Maria, chamado Jesus Cristo...”. Assim, torna-se bem claro que é preciso crer que o próprio Deus veio ao mundo e nasceu como criança através da concepção de uma virgem; que Ele é Deus e Homem ao mesmo tempo, na pessoa visível do Senhor Jesus Cristo. A Palavra de todo o Novo Testamento insiste muito neste ponto, que é preciso crer no Filho, ou seja, que é preciso crer que o Divino se encarnou e se fez visível no plano natural. Se não houver tal crença, não se pode crer no que Ele operou dessa forma, nem se pode, por conseguinte, receber os benefícios de Sua vinda e nascimento no mundo, e esses benefícios são a regeneração e salvação. “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36). É preciso que se creia no Filho. Pensemos nesta afirmação. Não é dito “no Pai”, mas no Filho, porque, como foi dito anteriormente, quando se crê no Filho, crê-se ao mesmo tempo no Pai. Mas isto precisa ser mais esclarecido: é preciso que se creia corretamente no Filho. Crer no Filho é crer na manifestação visível do Pai; é o Corpo da Alma Divina chamada JEHOVAH; é a Pessoa de Deus que nossos olhos podem ver e nosso entendimento compreender. Não se pode imaginar um Deus fora de Sua manifestação, Jesus Cristo, pois Ele disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Note-se o verbo “vir”, em “vem ao Pai”. Se o Pai não estivesse no Senhor o verbo ali seria “ir ao Pai”, como, aliás, algumas versões modernas estão traduzindo hoje.Indo a Ele, estamos indo ao mesmo tempo ao Pai, pois o Pai está n’Ele, é a Alma d’Ele. Por isso, também, quando Felipe pediu que Ele lhes mostrasse o Pai, Ele respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que Eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, faz as suas obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras” (João 14:9-11).  A “fé de Deus” é, portanto, a que foi resumida tão bem por João em sua carta: “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1João 5:20).  A necessidade dessa ênfase vem do fato de muitas pessoas crerem no Filho de Deus, mas à sua própria maneira, não à maneira da Palavra. Essas pessoas têm fé, sim, mas a fé “delas”, não a fé de Deus, que vem do entendimento são da Palavra. Elas creem, por exemplo, no Filho como uma pessoa separada de uma hipotética pessoa do Pai; creem no Filho como submisso à mãe, Maria; creem no Filho como um Mestre, um grande indivíduo, um espírito de luz que veio nos dar exemplo de humildade, e não para nos salvar. Portanto,não creem que o Pai está no Filho como a Alma no Corpo. E outros há que professam a fé em Deus sem pensarem na pessoa de Jesus Cristo. Outros invocam a Deus e prestam o culto a Ele sob uma vaga forma humana, como uma luz ou uma força. Outros O imaginam como um Ancião, bem diferente da ideia que fazem de Jesus. Mas todas essas são formas vãs de se cultuar e invocar a Deus, porque Deus tem uma Essência, uma Substância e um Forma, e essa Forma é a Forma Humana, e esse Humano é o Senhor Jesus Cristo. Se se tirar a pessoa de Jesus, tira-se a Forma, daí a Substância e por fim a Essência de Deus, tornando-O quase nada. Em suma, não basta a pessoa afirmar que crê em Deus. Como disse o apóstolo Tiago: “Crês em Deus? Fazes bem. Até os diabos creem, e tremem...” Quando alguém diz que crê em Deus, se a fé que ela tem se limita a essa ideia em si, nenhuma fé existe nela. É preciso que a fé em Deus seja centrada na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Por isso, é melhor a pessoa afirmar que crê em Jesus Cristo sabendo que Ele é, de algum modo, Divino e Um com Deus, do que a vaga e universal crença em Deus. A diferença entre uma e outra crenças é a diferença entre a fé falsa e a fé salvífica. A fé num Deus invisível e separado de Jesus Cristo não entra no entendimento e não é recebida, porque não tem base natural em que repousar. Assim, também não pode ter essência espiritual, e deixa de ser fé real. Não há nenhum salvífico numa tal fé. Mas a fé em Jesus Cristo cuja Alma é Deus é recebida, porque se apoia em nossa própria realidade. Tem base natural, pode conter a ideia espiritual de Deus e por isso é viva e salvífica. “O que é a fé sem um termo [ou um limite] para o qual tenda? Não é como a vista que, mergulhando no universo, cai como no vácuo e se perde? Não é como um pássaro voando acima da atmosfera no éter, onde expira como no vácuo? A morada desta fé na mente do homem pode ser comparada à morada dos ventos nas asas de Éolo e à morada da luz em uma estrela cadente; eleva-se como um cometa de longa cauda, mas passa como esta e desaparece. Em resumo, a fé em um Deus invisível é na realidade uma fé cega, porque a mente humana não vê seu Deus... sobretudo quando se pensa que Deus é Espírito e se se pensa a respeito de um espírito como a respeito do éter”.65 Assim, a fé não é aquele pensamento positivo obstinado que se tem em algo; não é a confiança cega em determinada coisa nem a convicção determinada em certo assunto até que aquilo se realize. É claro que a confiança faz parte da fé, mas,sozinha, não é a fé. Quando se crê no Senhor Jesus Cristo e se vive conforme os preceitos da Palavra, passa a existir uma união cada vez mais plena entre o homem externo e o homem interno. Assim, segundo a Ordem, o homem pode obter a vida eterna pelo poder que Deus lhe dá. “E quanto mais o homem se serve desse poder e dirige ao mesmo tempo seus olhos para Deus, mais Deus o corrobora, a ponto de fazer com que tudo o que pertence à caridade natural se torna caridade espiritual, e que tudo o que pertence à fé natural se torne fé espiritual”.66 Assim o homem se torna espiritualmente vivo pelo fato de crer no Senhor e viver segundo as regras Divinas. O Senhor o pode salvar porque o homem se apropria dos meios da ordem para a sua salvação, meios que consultam sempre a liberdade humana. “Foi mostrado que a fé salvífica é a fé no Senhor Deus Salvador Jesus Cristo; mas pergunta-se qual é o primeiro ponto da fé no Senhor; e eu respondo que é o reconhecimento de que Ele é o Filho de Deus; foi o primeiro ponto de fé que o Senhor, quando veio ao mundo, revelou e anunciou. Pois, se não se tivesse reconhecido que Ele era o Filho de Deus, e assim vindo de Deus, teria sido em vão que Ele e os apóstolos pregariam a fé n’Ele. Ora, como alguma coisa semelhante existe hoje, mas naqueles que pensam segundo o próprio, isto é, segundo o homem externo ou natural só, dizendo consigo mesmo: “Como JEHOVAHDeus pode conceber um Filho e como um Homem pode ser Deus?”, é necessário que este primeiro ponto da fé seja confirmado e afirmado pela Palavra. Por isso vão ser tiradas dela as seguintes passagens: “Quando Jesus foi batizado, ouviu-se uma voz do céu, dizendo: “Este é meu Filho amado, em Quem Me comprazo” (Mateus 3:16,17). “Jesus perguntou a Seus discípulos: Que dizem os homens que Eu sou?(...) Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” Mateus 17:5.” O Senhor respondeu a Pedro dizendo que sobre esta fé Ele edificaria a Igreja, ou seja, que a Igreja Cristã seria fundamentada na verdade e na confissão de que o Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus. Foi esta fé que depois impulsionou os apóstolos, ainda que eles tivessem compreendido além, a saber, que o Senhor Jesus era Filho, mas, ao mesmo tempo, Pai e Deus em Seu Humano Natural.”67