- 4.4.3. Do autoexame Examinar a si mesmo, examinar os próprios pensamentos e desejos, conhecer as intenções ocultas da vontade são necessidades indispensáveis para a transformação espiritual. O problema é que há poucas pessoas que fazem isso, pois repousam na falsa segurança de que já estão salvas e transformadas, e não sabem o que realmente são, interiormente e diante de Deus. Assemelham-se à Igreja de Laodicéia, a quem foi dito: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Apocalipse 3:17). “Por que as pessoas vivem no pecado sem saber? Nosso problema em reconhecer se há em nós algum caminho mau não é por falta da luz externa. Certamente Deus não falhou em nos dizer clara e abundantemente quais são os maus caminhos. Ele nos deu mandamentos mais do que suficientes que mostram o que deveríamos e o que não deveríamos fazer; e eles estão claramente colocados diante de nós na sua Palavra. Então, nossa dificuldade em conhecer nosso próprio coração não é pelo fato de nos faltarem normas adequadas.”76 No autoexame, a pessoa faz uma meditação para descobrir a natureza real de seus pensamentos e das intenções de sua vontade. Para conhecê-los bem, ela deve refletir sobre o que faria se estivesse em uma situação hipotética de liberdade absoluta, isto é, se pudesse fazer qualquer coisa que desejasse, sem temer a punição da lei, a perda da reputação ou qualquer outro prejuízo. O que ela faria então, dando livre trela à sua vontade, essa é sua real natureza, e aí residem ocultos os males de sua vontade. Acontece, por exemplo, que a pessoa não se considera culpada de roubo porque não comete o ato desse crime. Mas ela tem inveja de alguém que possui determinado bem. Então, no seu autoexame, ela talvez descobrirá que, se não temesse as consequências, ela se apossaria daquele bem alheio. Ou, não se considera adúltera, porque não comete o ato. Mas, examinando-se, em uma situação em tivesse absoluta licença, descobrirá que praticaria toda sorte de libertinagem. Isto é porque o mal se oculta na vontade, e só não se manifesta por medo ou falta de oportunidade. Vemos, por exemplo, nos tumultos urbanos, quando não há receio da lei, quantos indivíduos aparentemente honestos entram nas lojas e as saqueiam! O autoexame é, portanto, para que a pessoa se conheça exatamente tal como é, diante de Deus, confesse o mal, suplique o auxílio Divino e, em seguida, resista àquele pecado e se abstenha, fugindo do mal como fugiria de uma tropa de demônios. Este é o verdadeiro processo de lavar-se e purificar-se espiritualmente que o Senhor ordena: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos e cessai de fazer mal”(Isaías 1:16).  Conforme a pessoa é regenerada, os seus pecados são perdoados, porque, de fato, o Senhor é a Misericórdia mesma, e Ele já perdoou os pecados do homem. Se, porém, o homem não se desliga do pecado, não há como ser purificado dele. Por isso, quando se diz que o Senhor os perdoa, entende-se que essa graça do Senhor só se faz efetiva para o homem que de fato deixa o pecado. “A remoção dos pecados, que é chamada de perdão deles, pode ser comparada ao lançamento da imundície dos campos dos filhos de Israel no deserto que estava ao redor deles; pois seus acampamentos representavam o céu e o inferno no deserto. Também pode ser comparado à remoção das nações dos filhos de Israel, na terra de Canaã, e dos jebuseus de Jerusalém; estes não foram expulsos, mas separados.”77