SW 61

A Doutrina Cristã Revelada através de Emanuel Swedenborg
Cristóvão R. Nobre
"E JEHOVAH será Rei sobre toda a terra: Nesse Dia JEHOVAH será Um e o Nome d'Ele Um." (Zc. 14:9)

- 4.8. Do céu e do inferno
Antes de descrever o céu e o inferno como lugares, Swedenborg ensina que são essencialmente estados de espírito consistentes com a qualidade de vida interior que a pessoa teve aqui. O bem e a verdade fazem com que exista o céu na pessoa, e o mal e a falsidade formam nela o inferno. Conforme recebe um ou outro, bem ou mal, verdade ou falsidade, a pessoa começa, já neste mundo, a criar em torno de si um ambiente espiritual no qual, se permanecer nele, viverá eternamente ao deixar o corpo.Se, pois, a pessoa não recebe o céu dentro de si enquanto vive no mundo, não pode ser recebida no céu após a morte, pois sua natureza é incompatível com a bem-aventurança celestial. Assim, antes de ser um lugar, o céu é um estado dos interiores do indivíduo.
“Não dirão: Eis que o reino de Deus está aqui, ou, está ali, pois eis que o reino de Deus está em vós” (Lucas 17:21).
Enquanto estiver neste mundo, o homem tem um interno e um externo, os quais são, muitas vezes, antagônicos entre si, pois uma bondade externa às vezes oculta a malícia nos internos, ou a santidade externa oculta a soberba interna, como em geral ocorre nos hipócritas, a quem o Senhor comparou de sepulcros caiados. Por isso, nem sempre é possível saber se uma pessoa tem realmente o céu dentro de si enquanto estiver neste mundo, mas isso é claramente visível após a morte.
“Quando o homem vem à outra vida, o que acontece logo após a morte, fica evidente se há ou não o céu nele, mas não quando vive no mundo, pois no mundo o que aparece é o externo e não o interno, mas, na outra vida, o interno se torna evidente, porque então o homem vive quanto ao espírito”. 84
Assim, o céu para cada um é formado aqui, por meio de sua fé e dos atos de sua vida. Essa fé é que vem de Deus, como foi visto anteriormente, e os atos são as obras que o homem é levado a praticar pelo Espírito de Deus. São, por conseguinte, obras e operações de Deus no homem, mas o homem atua como se procedessem dele mesmo. No Salmo 15 lemos quais são, especificamente, essas obras. Quando Davi pergunta: “Senhor, quem habitará em Teu Tabernáculo? Quem morará em Teu santo monte?” é evidente que ele pergunta quem há de morar no céu, que é chamado tabernáculo e santo monte (Salmo 3:4). E a resposta foi:
Aquele que anda sinceramente, e pratica a justiça, e fala a verdade no seu coração. Aquele que não difama com a sua língua, nem faz mal ao seu próximo, nem aceita nenhum opróbrio contra o seu próximo; a cujos olhos o réprobo é desprezado; mas honra os que temem ao SENHOR; aquele que jura com dano seu, e, contudo, não muda. Aquele que não dá o seu dinheiro com usura, nem recebe peitas contra o inocente. Quem faz isto nunca será abalado” (Salmo 15).
Semelhantemente ao que o Senhor responde novamente no Salmo 24:
“Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no seu lugar santo?Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente.Este receberá a bênção do SENHOR e a justiça do Deus da sua salvação”(Salmo 24:3-5).
Aí temos, em resumo, uma lista de atributos que a pessoa deve adquirir e cultivar dentro de si, pois são os elementos que formam o céu dentro dela e a preparam para ser recebida no céu, após esta vida. Então, quando chega à vida eterna, a pessoa viverá num ambiente exterior que reflete exatamente o que fora aqui o seu interior. E um ambiente exterior de quem aqui foi receptivo ao amor ao Senhor e ao próximo só pode ser um lugar de bem-aventurança, paz e felicidade. E, quanto à aparência, é um lugar que reúne tudo de mais belo e perfeito, segundo a Ordem Divina.
Descrevendo, ainda, a vida no céu, os Escritos ensinam que o reino dos céus é o reino dos usos, ou seja, um reino onde predomina o desejo de servir ao semelhante, pois o prazer de ser útil tem a felicidade celeste dentro de si. E quando cada um se dedica a fazer o outro feliz, o resultado é o bem geral de toda a sociedade, onde todos e cada um são felizes.
Do mesmo modo que a fé no Senhor e o amor altruístico fazem o céu no homem, a falsidade e o egoísmo fazem o inferno nele. E, assim também, os que em vida recebem o inferno dentro de si, serão recebidos no inferno na vida eterna. Não que o Senhor lance alguém no inferno, mas a própria pessoa, ao escolher dar vazão às afeições maléficas, se lança no inferno, em seu espírito, já em vida de seu corpo. E, depois da morte, ela mesma procurará o ambiente externo em que possa exercer seus maus amores, e isto é o inferno.
O sentido literal da Palavra representa o inferno como um lago de fogo em que almas são lançadas pelo Senhor, mas isto é uma aparência de verdade, não um vero real, pois admitir a existênciade um lugar assim onde as pessoas queimassem eternamente e, pior ainda, lançadas ali, contra a sua vontade, pelo Senhor, seria atribuir a Deus umacrueldade imensa, pois Deus não quer a condenação de ninguém. Ao contrário, Ele desvia a todos do inferno, tanto quanto possível, na medida da liberdade de escolha do indivíduo. Portanto, o “fogo” do inferno é uma representação do ardor da cobiça e do ódio, que incendeia por dentro e destrói a característica verdadeiramente humana no indivíduo. Sendo assim, esse “fogo” interior não pode ser apagado senão pelo próprio indivíduo, quando ele mesmo se abstém desse ardor do mal em relação ao seu semelhante. Enquanto estiver no mundo natural, Deus pode transformar a pessoa, se ela o permitir, mudando-lhes as motivações e os sentimentos diabólicos em celestes, mudando-lhe o inferno em céu. Mas, após a saída deste mundo, o caráter espiritual do homem está selado, e ele mesmo irá procurar seu inferno, do qual não quer ser tirado, por mais medonho que pareça, porquanto aquela é a única vida que ele adquiriu. Se fosse dali tirado e posto no céu, se sentiria sufocado pelo amor celeste, como um peixe fora da água.
“A vida do homem não pode ser mudada após a morte; permanece então tal qual tinha sido, pois o espírito todo do homem é tal qual o seu amor, e o amor infernal não pode ser transformado em amor celeste, porquanto são opostos. Isto é o que se entende pelas palavras de Abrahão ao rico no inferno:“Existe um grande abismo... entre vós e nós, de modo que os que querem passar para vós não podem, nem os daí passar para nós” (Lucas 16:26).“Daí é evidente que os que vão ao inferno ali permanecem na eternidade, e os que vão ao céu permanecem ali na eternidade.”85
Todavia, o assunto do céu e do inferno, como também a entrada do homem na vida eterna, foi o assunto de um livro inteiramente dedicado ao tema, O Céu e o Inferno, e, literalmente, centenas e centenas de páginas em todas as demais obras teológicas de Swedenborg.

LIVRO

Versao Impressa

Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.