- 5.2. Testemunhos “Se pudéssemos induzir os homens a deixar de lado seus pre-conceitos para julgar com isenção um escritor com base nos seus Escritos e dados biográficos, não haveria quase necessidade alguma de invocarmos o testemunho de terceiros sobre seu caráter ou seus méritos literários. Com relação a Swedenborg, o Dr. Beyer, em carta ao Reverendo Oetinger, assinalou “A marca Divina nos Escritos de Swedenborg, a mais adequada aos estados de todos os homens, é esta, que seus princípios se harmonizam com uma razão sã, e um amante desses Escritos terá por eles seu caminho desimpedido de tantas dúvidas, tantas contradições e tantas doutrinas inaceitáveis à razão sã”. No caso do nosso biografado, o preconceito se fez tão manifesto que julgamos apropriado trazer aos leitores o testemunho de seus contemporâneos sobre seu caráter, sua cultura e sua idoneidade, bem como o depoimento daqueles que constataram as verdades que professou.”98 Poucos homens públicos da história tiveram a mesma reputação que Swedenborg teve em seu país. O testemunho de seus contemporâneos, amigos ou não, era que ele foi um homem moralmente irrepreensível, agradável, respeitoso, que nunca foi visto agindo com irritação, ira ou sarcasmo. Nos milhares de páginas preservadas de seus manuscritos, mesmo as suas anotações privadas, ou diários, não se lê uma linha de desconsideração para quem quer que seja, embora fosse franco e dissesse exatamente o que pensava, como se pode observar por seu discurso político no parlamento contrário ao regime absolutista real, embora tenha privado da amizade do rei e agraciado com a nobreza pela rainha sucessora. “Logo após a morte de Swedenborg, o sentimento comum em relação ao seu caráter foi expresso pelo conselheiro Sandels, em necrológio proferido na Câmara dos Nobres, em nome da Academia Real de Ciências de Estocolmo. Esse pronunciamento pode ser considerado como um pouco exagerado, mas, por outro lado, devemos nos lembrar de que o Conselheiro Sandels não era adepto das opiniões teológicas de Swedenborg, e, portanto, não estava interessado em exaltar seus méritos publicamente. Sandels descreve Swedenborg como “um nobre homem que se tornou célebre por suas virtudes e pela profundidade de seu saber; um dos membros mais antigos desta Academia, a quem todos nós admirávamos e amávamos. O belo cenário de sua vida merece ser visto e examinado meticulosamente”.99 Outros contemporâneos se referiram a ele com a mesma distinção, e vamos citar aqui alguns exemplos, pois a vida de uma pessoa deve ser julgada conforme suas obras. O escritor e abade francêsAntoine-Joseph Pernety (1716-1796):“Swedenborg era muito gentil, mas também franco, e nunca traiu a verdade por temor de homens nem por qualquer outra razão”. Oestadista sueco, conde Johan Anders VonHöpken (1712-1789)escreveu: “O saudoso Swedenborg foi, certamente, um modelo de sinceridade, virtude e piedade, e, ao mesmo tempo, na minha opinião, o homem mais culto deste reino”(Carta ao General Tuxen, de 21/05/1773). John Christian Cuno (1708-1783), poeta, escritor e botânico alemão, foi amigo íntimo de Swedenborg, mas nunca aceitou seus ensinamentos teológicos. Seu testemunho, pois, é isento, ao dizer queSwedenborg foi“um homem correto, justo e muito culto”;“honesto demais para mentir”. O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) se baseou nas informações de um amigo que conhecera pessoalmente Swedenborg quando disse:“É um homem educado, razoável e generoso; e também é um homem de saber”. O Reverendo Nicholas Collin, (1745-1831) pastor de várias igrejas luteranas da Suécia, afirmou a um amigo que “Swedenborg celebrizou-se universalmente por sua erudição nos campos da matemática, da mineralogia etc., e por sua probidade, benevolência e outras virtudes pessoais”. Os biógrafos de Swedenborg citam dezenas de outros nomes conhecidos na Europa nos séculos 18 e 19 que se referiram ao nobre sueco nos mesmos termos, ainda que muitos deles não tivessem aceitado os ensinamentos religiosos dos Escritos. Ralph Waldo Emerson (1803-1882)tem sido considerado um dos maiores filósofos da história americana. Conhecido como o pioneiro do pensamento transcendental, que foi uma corrente oposta ao calvinismo e ao racionalismo, Emerson exerceu grande influência nos filósofos que o sucederam. Ele é autor do livro “Nature”, no qual afirma que a natureza tem o papel de intermediário entre o Divino e o ser humano. Emerson foi um leitor atento e crítico de Swedenborg, e, embora divergisse do sueco em alguns pontos doutrinais, ele também reconheceu o valor dos seus Escritos, ao dizer que Swedenborg era“um mastodonte e uma das principais vertentes da literatura.... que não poderia ser julgado por meros critérios acadêmicos. Uma alma colossal.... que só poderá ser corretamente contemplada a partir de uma perspectiva distante”. Outro grande filósofo americano, anterior a Emerson, foi William James (1842-1910), cujo livro The Principles of Psychology, lançou as bases da psicologia moderna. James foi autor de vários ensaios sobre religião, especialmente sobre a questão da harmonia entre religião e ciência, e também foi leitor de Swedenborg. Em seu livro Substance and Shadow ele afirmou“Reconheço em Swedenborg tudo aquilo que, geralmente, tentam negar-lhe, a saber, uma grande sobriedade mental em momentos bem difíceis de sua vida e que acaba por nos deixar convencidos da veracidade de suas palavras... Parece-me que nunca se escreveram antes livros tão sinceros”. O célebre escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) também escreveu: “Sua teologia é sublime, e sua religião é a única que uma mente superior pode aceitar. Só Swedenborg mostra que o homem é capaz de tocar Deus; ele inspira uma sede de Deus; restaura a majestade de Deus, despindo-o das vestes infantis com que as crenças humanas O sufocaram”. Alguns aceitaram seus ensinamentos e se tornaram seus leitores assíduos, já durante a vida do autor, e alguns mantiveram correspondência com ele, havendo muitas cartas destes preservadas. Um dos seus primeiros leitores que se tornaram adeptos dos Escritos foi C. F. Nordenskold, que disse: “o conhecimento da doutrina de Swedenborg foi sua maior ventura na vida”. Outro renomado contemporâneo, o General Tuxen, da Dinamarca, deu o seguinte depoimento: “Sou grato ao Senhor, o Deus do céu, por ter conhecido esse grande homem e estudado sua doutrina. Acho que essa foi a maior bênção que eu poderia receber durante minha vida; espero poder fazer desses ensinamentos minha salvação”. O Rev. Hartley, mestre em humanidades e reitor da Universidade de Winwick, Northamptonshire, traduziu para o inglês o livro de Swedenborg intitulado A Interação da Alma e do Corpo e, no prefácio, escreveu: “A vida, as qualificações e as elevadas pretensões do Sr. Swedenborg têm passado por severo escrutínio em seu próprio país quanto a todas as coisas de seu caráter, sua moralidade e sua civilidade; disso ninguém pode duvidar. E lá ele tem conservado a dignidade, a estima e a amizade com os grandes, os sábios e os bons, como fui informado por um cavalheiro daquele país que agora reside em Londres”. “Ele nada tem de fanatismo em suas maneiras, ou de melancolia em seu temperamento nem coisa alguma de exacerbado entusiasmo em suas conversas e seus Escritos. Se tomarmos todas as suas virtudes em testemunho de seu caráter, somos forçados a admitir que ele é o mais extraordinário Mensageiro de Deus que apareceu na terra, desde a era apostólica, e que deve, portanto, ser chamado o apóstolo vivo da nossa época”.100 Helen Keller (1880-1968) foi a menina que nasceu cega e surda e que veio a se tornar, talvez, a maior conferencista americana. Sua vida foi retratada no filme de 1962, O Milagre de Anne Sullivan, que foi a sua professora e assistente por toda a vida. Ela dedicou um dos seus livros, My Religion, a descrever a profunda influência que recebeu das obras de Swedenborg. Ela conta, de forma muito tocante, como a mensagem dos Escritos teológicos de Swedenborg mudou drasticamente a sua vida, tirando-a de outra espécie de treva e trazendo à luz da realidade espiritual. Assim ela escreveu sobre o caráter de Swedenborg e suas obras: “Ninguém que leia objetivamente os livros religiosos de Swedenborg deixa de ficar impressionado com sua personalidade única. Todas as suas obras foram escritas com lentidão deliberada e calma, sem mostrar sinais de comoção ou júbilo. Completamente sossegado e humilde, por causa de suas viagens pelo mundo espiritual, desdenhou apelar à debilidade ou credulidade dos ignorantes, fazer proselitismo ou a fazer com que seu nome aparecesse relacionado à Nova Igreja que em sua opinião o Senhor iria estabelecer brevemente no mundo. Consciente de que a sua mensagem era destinada à posteridade, mais do que à sua própria geração, as suas obras, resultado de longos e árduos anos de trabalho incansável e impressas em grandes fólios latinos, foram distribuídas gratuitamente às universidades e ao clero da Europa. ... Embora ciente do ceticismo e hostilidade com que seriam recebidas muitas das suas afirmações, ele não pensou em suprimir verdades menos duras a fim de tornar mais agradáveis os seus livros, nem retrocedeu ou se desviou, por pouco que fosse, da importante missão que lhe tinha sido confiada.”101 O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) foi outro que se disse influenciado pelos Escritos de Swedenborg, e ele o cita em seu livro Prólogos. Em outro livro, TestigodelInvisible, ele testifica acerca da inspiração que recebeu desses Escritos, como romancista e poeta. Em 1970 ele escreveu um soneto intitulado “Emanuel Swedenborg”. Há dezenas de outros depoimentos no mundo erudito acerca da poderosa influência da mensagem de Swedenborg para elevar o espírito humano a uma visão mais racional de Deus. Todos esses testemunhos são afirmações idôneas de que Swedenborg foi um homem dotado de uma inteligência extraordinária e, ao mesmo tempo, íntegro e honesto em todas as suas ocupações, que gozou de perfeita lucidez mental até os últimos instantes de sua vida. De tudo o que se disse até aqui a respeito do caráter desse homem singular, não se deve entender que os leitores de Swedenborg ou os adeptos de suas doutrinas o têm como um ser iluminado, no sentido de que foi superior aos outros homens. Mesmo que tenha sido incumbido de uma missão tão importante como essa, de informar ao mundo, pela imprensa, a existência de um sentido espiritual na Palavra, nenhum mérito espiritual lhe deve ser atribuído por esse encargo.