- 5.3. Rejeição e aceitação dos Escritos Merece nossa atenção agora a repercussão dos ensinamentos de Swedenborg no mundo de sua época e depois. É de se levar em conta que não se trata analisar a aceitação de seus livros pelo número de cópias vendidas, como acontece com qualquer livro, porque seus Escritos teológicos apareceram com a afirmação solene de que tinham sido escritos por inspiração e mandato do Senhor mesmo. É, portanto, compreensível que semelhante asserção causasse, no mínimo, admiração e curiosidade e, em casos extremos, refutação e ataques hostis de alguns, coisa que de fato aconteceu. Houve casos de pessoas que, surpresas com o fato de um homem já na idade avançada, pertencente à nobreza, autor consagrado e político respeitável, passar, de repente, a escrever a respeito do sobrenatural com a mesma segurança de suas obras científicas outrora. Uma dessas pessoas, o Conde Hopken, declarou essa admiração diretamente a Swedenborg e, mais tarde, escreveu: “Ele me respondeu que estava muito velho para brincar com coisas espirituais e muito preocupado com sua felicidade eterna para iludir-se com ideias bobas; reafirmou-me suas esperanças de salvação e que suas revelações não eram, absolutamente, fruto de sua imaginação, mas eram, em verdade, o que tinha visto e ouvido”.102 Uma posição extrema assumiu certo reitor, o bispo Ekebom, de Gotemburgo, que afirmou que aquelas obras eram tão ruins que ele nem iria lê-las (!), chamando-as de “corruptas, heréticas, injuriosas e totalmente inaceitáveis”. Em outras palavras, deixava claro, sem cerimônia alguma, que não costumava julgar por sua própria racionalidade, mas pelas conclusões dos outros.Outra autoridade sueca, o bispo Filenius, classificou a teologia de Swedenborg como uma “abominável infecção que não se fundamenta na razão e, muito menos, na Palavra de Deus, mas em sonhos e visões que não fazem o menor sentido”. E tal foi a hostilidade com que suas obras teológicas foram recebidas em sua pátria que as autoridades eclesiásticas conseguiram que elas fossem proibidas na Suécia. Swedenborg não pôde sequer imprimi-las em seu país, tendo de fazê-lo em Londres e Amsterdã. Swedenborg esperava que, ao distribuir seus livros a bibliotecas e universidades da Europa, e também a bispos e outros líderes religiosos da Suécia, Inglaterra, Alemanha e Holanda, houvesse alguma aceitação, mas eram poucos os que se interessavam realmente em examinar seus Escritos e formar opinião. De modo geral, seus críticos e opositores mais ferrenhos eram os líderes das igrejas, “John Christian Cuno, que conheceu Swedenborg em Amsterdam, salienta que “os livros de Swedenborg permaneceram durante muito tempo ignorados pelos teólogos da época”. “Gostaria”, escreve ele, “de que os homens de bem, a quem Deus confiou a guarda das muralhas de Sião, tivessem tomado conhecimento de Swedenborg há mais tempo. Li seus Escritos com toda a imparcialidade. E, em minha opinião, há dogmas ali estabelecidos que merecem um exame criterioso dos teólogos, enquanto outros há que devem ser de imediato refutados. Mas ninguém diz nada! Portam-se todos como cães abobalhados; não podem sequer latir”.103 De modo geral, as lideranças das igrejas reformadas europeias que receberam os livros de Swedenborg não se manifestavam, nem mesmo para contestar dentro da Palavra e da lógica os seus ensinamentos, e aqueles que exerciam alguma autoridade tentavam censurar a sua divulgação. Em 1749, ao publicar o primeiro volume dos Arcanos Celestes em Londres, recebeu a informação do editor de que apenas quatro exemplares tinham sido vendidos nos primeiros dois meses. É fato que Ele se decepcionou com tão baixa aceitação, mas, conforme disse a um amigo, sabia que a Providência Divina estava na direção de todas as coisas, caso contrário ele não teria sido chamado e preparado pelo Senhor para essa missão. Todavia, aos poucos as pessoas foram se interessando. E quando se descobriu quem era o autor anônimo daquelas obras, a vendagem aumentou, embora Swedenborg nunca tivesse tido a intenção de fazer uso de sua reputação para dar prestígio aos seus Escritos teológicos. Em 1771 ele informou a uma pessoa na Holanda que os Arcanos Celestes estavam esgotados na Inglaterra e na Holanda. Outro livro seu, publicado vinte anos mais tarde, O Amor Conjugal, foi proibido na Suécia, mas teve boa vendagem na França e na Holanda. Na mesma época, o Rev. Hartley, o tradutor inglês, escreveu: “É uma grande satisfação verificar que o reduzido número de Escritos swedenborguianos traduzidos para o inglês em pouco tempo superaram as expectativas de venda; e, a julgar pela repercussão que seus livros estão tendo em outros países, acreditamos que seu sublime ministério tornar-se-á cada vez mais difundido, como uma luz iluminando um mundo em trevas, estancando o avanço do agnosticismo, difundindo corretamente as Sagradas Escrituras e convertendo muitos para a seara do Senhor”. 104 Como já foi dito, Swedenborg, como cientista e leigo, nunca pretendeu liderar ou estabelecer formalmente qualquer associação religiosa. Ele se alegrava que seus Escritos fossem recebidos e que ajudassem as pessoas a dar o devido valor ao estudo da Bíblia e, sobretudo, a pautar suas vidas de acordo com os Mandamentos do Senhor. Quando os primeiros adeptos lhe faziam perguntas, respondia com satisfação, de forma direta e clara, mas sem qualquer intenção de fazer um prosélito. Por isso, ainda no tempo de vida de Swedenborg, o general dinamarquês,Tuxen, afirmou que não conhecia mais de cinquenta pessoas que tivessem aceitado seus ensinamentos como regras de religião. Aos poucos, porém, alguns desses adeptos começaram a sereunir na Suécia, na Holanda e na Inglaterra. Na Suécia, os mais proeminentes foram o Conde Anders J. von Hopken, que fora primeiro-ministro do país, o Dr. Gabriel Beyer, catedrático de grego na Universidade de Gotemburgo, e o Dr. John Rosén, catedrático de oratória na mesma universidade. Esses dois professores se dedicaram laboriosamente a divulgar os trabalhos de Swedenborg na Suécia e no restante da Europa. Na mesma época, alguns líderes religiosos adotaram as doutrinas das obras de Swedenborg, mas não se manifestaram publicamente, como o Reverendo Arvid Ferellus, pastor da Igreja Sueca de Londres. Já o Rev. John Clowes, reitor da St. John Church, em Manchester durante seis décadas, foi um dos que reconheceram a profunda espiritualidade daqueles livros. E foi na Inglaterra que a obra de Swedenborg alcançou maior divulgação. Poucos anos após a morte do nobre sueco, em 1772, havia vários ministros que faziam a exegese bíblica sob a luz dos seus Escritos. Alguns permaneciam em suas denominações, anglicana, luterana ou wesleyana, enquanto outros entendiam que as diferenças dogmáticas exigiam a criação de uma nova associação religiosa. O pastor John Clowes era contra a ideia de se criar uma denominação nova. “Ele entendia que, mais cedo ou mais tarde, a própria Igreja Anglicana teria de rever sua liturgia, para adequá-la aos dogmas da nova revelação” (RiseandProgressofthe New Church, pág. 54). No entanto, as divergências doutrinais logo se mostrariam irreconciliáveis, sobretudo quanto à questão da Trindade Divina; e acriação de uma denominação específica, orientada pelos ensinamentos de Swedenborg, tornou-se uma necessidade inevitável. Assim, em 7 de maio de 1787 foi fundada a primeira igreja que adotou o título de “Nova Jerusalém”, numa esperança de pertencer ao corpoespiritual e invisível, da Noiva do Cordeiro. Algum tempo depois, esse grupo veio a ser apelidado de “swedenborguiano”. Mas, ainda que não seja desonra esse título emprestado, assim como os luteranos e os wesleyanos levam os nomes de seus fundadores, os adeptos dessa igreja preferem ser chamados de cristãos, já que não seguem o homem, mas as verdades da Palavra Divina reveladas no seu sentido pleno, literal e espiritual. Mas, se por um lado havia divergência de opiniões quanto a se organizar formalmente uma igreja, por outro lado havia concordância e unanimidade quanto à necessidade de tradução das obras de Swedenborg para o inglês, já que todas foram publicadas em latim. Em 1810, um grupo de cidadãos britânicos, liderado pelo Reverendo John Clowes, organizou a primeira instituição dedicada à publicação das doutrinas de Swedenborg, em Londres: a Society for PrintingandPublishingtheWritingsof Emanuel Swedenborg, ou, simplesmente, Swedenborg Society, em atividade, portanto, há 208 anos. A partir de 1790 foram fundadas nos Estados Unidos várias congregações, em Boston, em Nova York e na Filadélfia, que, mais tarde, viriam constituir três ramos institucionais: a Convenção, a Igreja geral e a Nova Igreja do Senhor. Ao mesmo tempo, outras congregações foram formadas na Suécia, Holanda, Dinamarca, Noruega, França, África do Sul, Nova Zelândia e Austrália, e, depois, estenderam-se por vários países da África e da Ásia. No Brasil, foi fundada em 5 de junho de 1898 a “Associação Geral da Nova Jerusalém”, que deu origem, em 1921, à atual Sociedade Religiosa “A Nova Jerusalém”, situada no Rio de Janeiro, e tem grupos de estudos doutrinais em Curitiba e no estado do Pará.