- 5.4.1. Desinformação e meias-verdades
Como se vê, no mundo culto europeu e americano o nome de Swedenborg é conhecido desde o século XIX, especialmente por causa das muitas traduções e edições de suas obras científicas e teológicas em inglês, francês, e outros idiomas da Europa. No Brasil, porém, até recentemente, eram raríssimas as pessoas, mesmo no meio acadêmico, que já tivessem ouvido falar do autor sueco e de seus Escritos. As traduções existentes em português eram poucas, além de terem pouca divulgação, e praticamente não havia obras de referência a esse respeito exceto as enciclopédias.
Todavia, com o advento da Internet, e particularmente depois do ano 2000, muitas pessoas tomaram conhecimento pela primeira vez da existência dessas obras. É inegável o imenso benefícioque a Internet veio proporcionar ao avanço do conhecimento humano, revolucionando o modo de disseminar a informação. Entretanto, por ser um meio franco e democrático de divulgação, a Internet tem oaspecto negativo de se poder veicular informações imprecisas e, às vezes, tendenciosas, que se fazem passar por verdadeiras, e, com isso, acabam prestando um desserviço à boa informação. Isto é o que acontece, por exemplo,com a Wikipédia, cujos dados são providos por contribuintes anônimos, quaisquerque sejam, confiáveis ou não, e muitas pessoas, não cientes disso, atribuem ao site a mesma confiabilidade de uma enciclopédia nos moldes antigos.
Quem fizer uma procura no Google, em português, pelo nome “Swedenborg”, achará na primeira linha da página aWikipédia. Se a pessoa ler a página em português e tiver paciência para, em seguida, ler a página equivalente em inglês, verá a tremenda diferença que existe entre o que se encontra em um e outro idiomas, sobre Swedenborg. E a principal constatação é que, aparentemente, a pessoa ou pessoas que forneceu os dados em português se preocupou principalmente em associar o nome de Swedenborg ao espiritismo.
Respeitamos todas as crenças e não pretendemos de modo algum denegrir a crençados espíritas ou kardecistas, mas é preciso dizer que está muito longe da verdade dizer que Swedenborg tinha ligações com o espiritismo, especialmente porque Swedenborg foi o primeiro, na história moderna, a escrever contra os perigos da prática de se comunicar com os espíritos, e isto em 1748, antes, portanto, do ressurgimento do espiritismo no mundomoderno e ocidental. No livro O Céu e o Inferno, 249, ele explica que é perigoso falar com os espíritos porque, então, os espíritos maus passam a obsedar o homem, uma vez que eles não buscam outra coisa senão destruir o ser humano, quanto ao corpo e à alma.
Ademais, outros pontos fundamentaisda doutrina de Swedenborg se afastam da doutrina espírita como foi codificada pelo francês Leon Denis (o pseudônimo Alan Kardek) no fim do século XIX. A principal divergência diz respeito à Divindade do Senhor Jesus Cristo,porque, enquanto a doutrina espírita tem Jesus como um Mestre, um espírito de luz que governa este planeta, Swedenborgmostra pela Palavra que Jesus Cristo é o próprio, único e verdadeiro Deus, e, desse modo, tem uma posição diametralmente oposta a do espiritismo, Aliás, ao provar e enaltecer a Divindade do Senhor, Swedenborg também se distancia da doutrina cristã comum, que, em geral, tem Jesus Cristo apenas como o Filho de Deus.
Outro ponto de divergência entre a doutrina de Swedenborg e o espiritismo é quanto à regeneração ou novo nascimento do homem. Swedenborg ensina, em conformidade com a Palavra, que o novo nascimento é um processo de transformação espiritual do homem quanto à mente e ao coração, não quanto ao corpo, e se efetua no decorrer da vida do homem neste mundo, a única vida material que o homem tem para viver. Depois disso, vem a morte e o juízo, e então o destino do homem é imutável na eternidade, ou no céu ou no inferno. Não há, pois, concordância alguma com a crença espírita de reencarnação em outros corpos, ou outros lugares e tempos no futuro. E, ao mesmo tempo, Swedenborg também diverge da outra forma de “reencarnação”, que seria a alma do homem reentrar no corpo terreno e ressuscitar para o juízo final, como geralmente se crê na igreja. O ser humano ressurge, após morte, em um corpo de substância espiritual e não mais retoma o corpo material, e seu juízo acontece quando entra na eternidade e não neste mundo.
Nestes três pontos principais, a saber, a comunicação com os espíritos, o conceito de quem é Jesus e a crença na reencarnação, está a diferença entre o que Swedenborg ensina e o que Kardek escreveu.
Por que motivo, então, essas pessoas associam Swedenborg ao espiritismo? Podemos conjeturar que há vários motivos, e o primeiro que nos ocorre deve ser, talvez, para se valerda notoriedade do nome do autor sueco e, com isso, emprestar legitimidade àquela crença. Neste ponto, o tendencioso autor do verbete na Wikipédia não está sozinho e não inovou, pois quem primeiro fez essa ligação de Swedenborg com o espiritismo foi o ilustre criador do personagem Sherlock Holmes, o autor escocês, Arthur Conan Doyle. No final do século XIX e início do século XX, Conan Doyle resolveu que era hora de dar cabo à vida do famoso detetive, fazendo-o ser assassinado pelo Professor Moriarty, pois Doyle tencionava dedicar seu tempo ao seu livro História do Espiritismo, como de fato o fez.E, nesse livro, o autor britânico dedica todo o primeiro capítulo a tratar justamente de Swedenborg, que, no dizer dele, foi o precursor do espiritismo moderno. Se, porém, Conan Doyle tivesse sido mais preciso, teria de dizer que Swedenborg, na verdade, reprovou e desencorajou veementemente a fala com os espíritos, como fez no seu livro O Céu e o Inferno, 249, e em outros.
Doyle disse: “A verdade é que Swedenborg foi o primeiro e, sob vários aspectos e de modo geral, o maior médium; estava sujeito a erros tanto quanto aos privilégios decorrentes da mediunidade”105. Todavia, ao comentar esse ponto de vista, uma obra idônea como a EncyclopaediaBritannica (edição inglesa), no verbete “Swedenborg”diverge de Doyle ao observarque as experiências do teólogo sueco contrariam a ideia normal de mediunidade, uma vez que “Swedenborg entrou no mundo dos espíritos a partir do mundo material, ao passo que, no espiritismo, são os espíritos que entram no mundo natural através de um meio ou médium.”
Ao menos num ponto, todavia, Conan Doyle foi exato, ao “acusar” os adeptos de Swedenborg de não seguirem as práticas mediúnicas, como teria supostamente ensinado Swedenborg. Segundo ele, a Igreja swedenborguiana erra ao pregar contra contatos com espíritos e também em não tomar os espíritos como mestres. Ele dizia que, assim fazendo, essa Igreja perdia muito.De fato, os membros das congregações chamadas swedenborguianas têm a noção muito clara de que buscar contato com espíritos é contra o ensinamento da Palavra:
“Quando entrares na terra que o SENHOR, teu Deus, te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daquelas nações. Entre ti se não achará quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador de encantamentos, nem quem consulte um espírito adivinhante, nem mágico, nem quem consulte os mortos, pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR, teu Deus, as lança fora de diante de ti. Perfeito serás, como o SENHOR, teu Deus (Deut. 18:9-13)
“Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; não recorrerá um povo ao seu Deus? A favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos? À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva” (Isaías 8:19-21).
Swedenborg afirmou que, quando foi chamado pelo Senhor Jesus Cristo, seus olhos espirituais foram abertos e, por conseguinte, ele passou a ver as coisas que há no mundo espiritual, o céu e o inferno, onde habitam anjos e espíritos, e os ouviu falar e falou com eles. Mas afirma, com ênfase, que nenhum ensinamento recebeu de espírito ou anjo algum, mas do Senhor, somente, enquanto lia a Palavra. Mas, quando ele diz que viu anjos e os espíritos dos que tinham morrido, é perfeitamente natural que sua afirmação e seus relatos a respeito disso assustem muitos cristãos, pelo temor compreensível que eles têm de que as experiências de Swedenborg sejam contra a ordem do Senhor em Deuteronômio e Isaías. Por isso, é importante saber exatamente como foi o caso das visões de Swedenborg, e em que elas diferem da mediunidade espírita.
Antes de analisarmos essa diferença, porém, é preciso admitir que o mundo espiritual é real; e, de fato, para os anjos e espíritos, é um mundo mais real do que este aqui em que vivemos. E, se existem espíritos, é possível, sim, que eles falem com as pessoas, e as pessoas falem com eles, infringindo as ordenanças bíblicas citadas acima. Não se pode, pois, dizer que os espíritos não falam com os homens, ou que são engodos ou frutos da imaginação, porque se não fosse uma prática possível, a Palavra não a teria proibido tão taxativamente naqueles dois versículos acima. A ordem Divina é que o homem seja instruído pela Palavra, ou, através da Palavra, pelas pregações e ensinos por outros homens, e não por qualquer espírito, nem mesmo por anjo, pois quando a Palavra fala, é o Senhor mesmo que está falando ao homem.
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