- 5.6. Ordem e desordem na comunicação espiritual
O homem foi criado para viver no corpo e no espírito, mas, enquanto vive neste mundo, o acesso entre os dois mundos foi bloqueado pelo Senhor, para a própria preservação da integridade da alma humana. Assim, anjos e bons espíritos, em estrita obediência à ordem, não falam com o homem, a não ser nas raras exceções em que o Senhor concede e ordena, para uso do homem e da Igreja. Assim aconteceu com os anjos que apareceram e falaram Abrahão, Sarah, Ló, Josué, Manoah e sua esposa, os profetas em geral, Maria, Isabel e outros, como foi também o caso com Swedenborg. Porque o Senhor pode, quando necessário e quando Lhe apraz, conceder Seus dons espirituais aos homens. Não nos cabe limitar a operação do Senhor. Mas, de modo geral, não é a pessoa que procura o contato, e sim o Senhor, que abre os olhos e outros sentidos espirituais do homem para que ele veja o mundo espiritual. A exceção foi o caso de Geazi, o moço de Eliseu, pois o profeta orou e o Senhor abriu os olhos do rapaz, que então viu as hostes celestesno monte (2Re. 6:17).
A comunicação com espíritos é perigosa porque resulta em constrangimento espiritual para o homem. Os doutrinais da fé, que o homem deve receber por ouvir a Palavra e entendê-la racionalmente,ser-lhe-iam impostos por terem sido proferidos por espíritos. O homem não sentiria a fé como sua, nem, consequentemente, a vida da fé. E ainda, espíritos diabólicos procurariamsubverter a crença do homem e fazer dele seu escravo, do que resulta o cativeiro espiritual.
Se o homem pudesse ser convertido e regenerado pela comunicação com espíritos e anjos, nada mais fácil seria para o Senhor do que enviá-los ao homem a todo momento. Só que, nesse caso, o homem não se sentiria livre, mas igualmente cativo, preso à intervenção e ao aconselhamento constante dos anjos.
“A fé compulsória, tal como a que entra por meio de milagres, não se fixa no homem, e também poderia ser danosa para aqueles em que a fé poderia ser implantada através da Palavra, num estado não constrangido.”107
Em nenhum lugar da Palavra se lê que alguém tenha sido constrangido a crer em coisa alguma. Toda decisão de crer tem de ser livre e partir da pessoa. Se a pessoa não quiser crer, nem Deus pode obrigá-la a isto. Esta é a razão pela qual o Senhor, quando esteve no mundo, não pôde fazer milagres em Nazaré (Mar. 6:5) e outras aldeias onde as pessoas não creram n’Ele. Não que o Senhor não tivesse poder para isso, mas para que o milagre não os constrangesse a uma fé compulsória.
Esta é a razão, também, pela qual o Senhor não usa a fala com espíritos nem a comunicação com os mortos para converter os homens, conforme vemos na parábola de Lázaro e o rico.Este último, tendo despertado da morte e estando em sofrimento, pediu:
“Rogo-te... ó pai, que mandes (Lázaro) a casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abrahão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abrahão; mas, se algum dos mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém Abrahão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (Lucas 16:19-31).
E para provar que assim é, Lázaro (o mesmo da parábola ou outro?) ressuscitou depois de quatro dias morto, e os judeus o viram. Na hora muitos creram, mas, depois, parece que se esqueceram.
A ordem é que o homem seja ensinado, reformado e regenerado pelas verdades da fé, e não por milagres ou fala com anjos ou espíritos. “Moisés e os profetas”, na parábola, são as verdades da Palavra, e ser ensinado pela Palavra é sê-lo pelo Senhor, só, ainda que seja pelas pregações e ensinos oriundos da Palavra.
“... A Palavra não pode ser ensinada senão mediatamente, pelos pais, os mestres, os pregadores, os livros, e, sobretudo, por sua leitura; entretanto, ela não é ensinada por eles, mas o é pelo Senhor por meios deles... Por estas considerações pode-se ver que o homem é conduzido e ensinado pelo Senhor, só, e que o é imediatamente pelo Senhor, quando o é pela Palavra. Está aqui um arcano da sabedoria angélica.”108
Depois que o homem se degenerou, o Senhor desceu, veio até a Ele e se fez presente como a Palavra Mesma, visando a que o homem seja reconduzido a Ele por meio da Palavra, que é Ele Mesmo. Em geral, o homem é tão desprovido de percepção e de discernimento nas matérias espirituais, que fica inteiramente à mercê de qualquer falsidade, no que pode ser facilmente seduzido se for instruído e guiado por espíritos. O Senhor mesmo, então, veio, como o Espírito da verdade, o Consolador, para fazer essa obra de guiar o homem a toda verdade. Como Pai infinitamente amoroso e zeloso, Ele não abandonou os filhos ignorantes e indefesos às companhias nocivas, mas veio, Ele Mesmo, para conduzi-los, se assim o desejarem. Foi, portanto, somente para proteger a liberdade espiritual do homem, que Ele fez na Palavra uma proibição tão taxativa de se transpor a barreira invisível dos dois planos.
Nas questões de sua fé e sua vida espiritual, o homem é e sempre será livre para crer no que lhe parece correto, para seguir os ensinamentos que desejar, para se deixar guiar por qualquer mentor que escolher, ou, por outro lado, para em nada crer senão naquilo que vê, e por ninguém se deixar conduzir, senão por si mesmo. Do cristão, porém, espera-se que se instrua na Palavra de Deus, creia no Senhor e se permita que Ele o conduza no caminho da salvação eterna, pois não há outro caminho senão este.
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