. Alguns espíritos de Mercúrio vieram a um certo espírito de nossa Terra que, quando vivia no mundo, fora muito celebrado pela sua erudição (era Christian Wolff), desejando serem informados por ele a respeito de várias coisas. Mas, quando perceberam que o que dizia não era elevado acima dos sentidos do homem natural, pois, quando falava, ele pensava em honra e que queria, como no mundo (pois cada um na outra vida é semelhante ao que foi nesta), juntar várias coisas em séries e dessas coisas concluir outras de novo e continuadamente, e assim, de tais coisas conectar muitas mais que eles não viam ou não reconheciam como verdades, dizendo que assim os elos não tinham ligação nenhuma por si e nem mesmo com as conclusões, e chamando-as de escuridão da autoridade, aí então desistiram de lhe pedir suas opiniões, indagando somente como isso ou aquilo se chamava: e como ele também respondia por meio de idéias materiais e por nenhuma idéia espiritual, afastaram-se dele, pois cada um na outra vida fala espiritualmente, ou por idéias espirituais, na medida que no mundo acreditou em Deus e, materialmente, na medida que não acreditou. [2] Visto que aqui há uma oportunidade, é permitido relatar o que se passa na outra vida com os eruditos que adquirem inteligência de uma própria meditação abrasada pelo amor de saber as verdades por causa das verdades; assim, por causa dos usos abstraídos das coisas mundanas; e com os eruditos que adquirem inteligência de outros, sem a própria meditação, como costumam fazer os que desejam saber as verdades unicamente por causa da fama de erudição e da honra ou lucro dela provenientes no mundo; assim, não por causa dos usos abstraídos das coisas mundanas. É permitido incluir aqui uma certa experiência sobre isso. Uma espécie de som foi percebida, penetrando debaixo ao longo do lado esquerdo até a orelha esquerda. Notei que eram espíritos que, ali, faziam esforços para subir, mas não pude saber quais eram. No entanto, quando subiram, falaram comigo explicando que tinham sido lógicos e metafísicos, e tinham mergulhado seus pensamentos em tais coisas, sem outro fim senão o de serem chamados eruditos e, assim, alcançarem honras e riquezas, lamentando que agora levavam uma vida miserável, porque tinham adquirido essas coisas sem qualquer outro fim e, assim, não cultivaram a sua faculdade racional por meio delas. A sua fala era lenta e emitia um som surdo. [3]Enquanto isso, dois deles falavam entre si acima de minha cabeça; e, como eu perguntava quem eram, foi-me informado que um deles era alguém muito famoso no mundo sábio, e foi-me feito crer que fosse Aristóteles; quanto ao outro, não me foi dito quem era. Então, o primeiro foi levado ao estado em que estava quando vivia no mundo, pois cada um pode facilmente ser levado ao estado da vida em que esteve no mundo, porque possui consigo cada estado de sua vida. Todavia, o que me surpreendeu foi que ele se aproximava da minha orelha direita e ali falava, mas num tom de voz rouco e, contudo, de maneira sensata. Pelo conteúdo de suas palavras, percebi que era de uma natureza completamente diferente da dos escolásticos que tinham subido antes, e isso porque concebera de seu pensamento as coisas que escrevera e delas concebera a sua filosofia, de modo que os termos que inventara e que impusera às coisas de seu pensamento eram sistemas de palavras pelos quais descrevia coisas interiores; depois, porque fora estimulado a tais coisas pelo prazer da afeição e pelo desejo de saber o que tinha relação ao pensamento e ao entendimento; e, também, porque seguira com obediência o que seu espírito lhe ditara. Por isso se aproximava da orelha direita, diferentemente de seus seguidores, os chamados escolásticos, que vão, não do pensamento aos termos, mas dos termos aos pensamentos, assim, pelo caminho oposto; e a maior parte desses nem mesmo chega aos pensamentos, mas se detêm somente nos termos; e, se os usam, é para confirmar tudo o que querem e para dar às falsidades uma aparência de verdade, segundo o seu desejo de persuadir. Daí, para eles, as coisas filosóficas são meios de se tornarem insensatos, em vez de meios de se tornarem sábios; e, por isso, têm a escuridão no lugar da luz. [3] Em seguida lhe falei da ciência analítica, explicando-lhe que uma criancinha, em meia hora, fala com mais filosofia, análise e lógica, que ele mesmo poderia descrever em um volume. E isso, porque todas as coisas que pertencem ao pensamento e, por conseguinte, à linguagem humana são analíticas, cujas leis são provenientes do mundo espiritual. E, também, que a pessoa que tentar, de um modo artificial, pensar a partir de termos, não difere de um dançarino que tentasse aprender a dançar a partir de seu conhecimento de fibras motoras e músculos; se a sua mente se detivesse nesses conhecimentos, quando dançasse, mal poderia, então, mover o pé! No entanto, sem esse conhecimento, o dançarino move todas as fibras motoras espalhadas ao redor de todo o seu corpo e, com precisão, os pulmões, o diafragma, os flancos, os braços, o pescoço e todas as outras partes, cuja descrição preencheria miríades de volumes. E acontece da mesma forma com os que querem pensar a partir de termos. Ele aprovou essas observações, dizendo que, se se aprende a pensar por esse caminho, procede-se em ordem inversa; ajuntando que, se alguém quiser se tornar insensato, deve proceder dessa maneira; mas, se desejar o contrário, deve pensar continuamente sobre o uso, e, assim, a partir do que é interior. Em seguida me mostrou que idéia tivera do Deus Supremo, isto é, que O imaginara consigo com uma face humana, e rodeado por um círculo radiante ao redor da cabeça; e agora sabia que o Senhor é Ele mesmo aquele Homem, e o círculo radiante é a Divindade que procede d'Ele e que influi não somente no céu, mas também no universo, e os dispõe e governa, ajuntando que quem dispõe e governa o céu, também dispõe e governa o universo, porque um não pode ser separado do outro. Disse-me também que acreditou em um único Deus, cujos atributos e qualidades se tornaram notáveis por tantos nomes quantos outros adoraram como deuses. Vi, então, uma mulher que estendia a mão, querendo tocar levemente a minha face; como eu me admirasse disso, ele falou que, quando estava no mundo, vira muitas vezes uma mulher semelhante, que, por assim dizer, lhe tocava levemente a face e sua mão era bela. Os espíritos angélicos explicaram que tais mulheres foram algumas vezes vistas pelos antigos e chamadas de Palas; e ela lhe apareceu por causa dos espíritos que, quando viviam com pessoas nos tempos antigos, se deleitavam com idéias e se entregavam a pensamentos, mas sem a filosofia; e, como tais espíritos estavam em associação com ele e nele se compraziam porque ele pensava a partir do que era interior, exibiam, então tal mulher de modo representativo. Por fim, declarou que idéia tivera da alma ou espírito do ser humano, que denominara "pneuma", a saber, que era um ser vivente invisível, como se fosse algo etéreo; e sabia que seu espírito viveria após a morte porque era sua essência interior que não pode morrer, visto que é capaz de pensar. E, além disso, que não pudera pensar claramente sobre o "pneuma", mas somente de um modo obscuro porque a seu respeito não tivera conhecimento algum, a não ser de si mesmo e um pouco também dos antigos. De resto, Aristóteles se encontra na outra vida entre os espíritos sensatos, e um grande número de seus seguidores entre os insensatos.