. Uns espíritos de lá vieram junto a mim e se encostaram no lado esquerdo da minha cabeça; e ali me sopravam sua fala, mas eu não a compreendia; era bem suave quanto ao seu fluxo e uma mais suave eu não percebera antes; era como a mais branda brisa; batia primeiro no lado esquerdo da minha cabeça e de lá para a orelha esquerda por cima; e então subia para o olho esquerdo e pouco a pouco para o direito, e partia, em seguida, sobretudo do olho esquerdo para os lábios e, chegada aos lábios, entrava na boca e subia ao cérebro por um caminho dentro da boca (que é a trompa de Eustáquio). Quando esse sopro lá chegou, compreendi sua linguagem e foi-me possível conversar com eles. Notei que, quando me falavam, os meus próprios lábios moviam-se, e um pouco também a minha língua, e isso por causa da correspondência da linguagem interna com a linguagem externa. A linguagem externa pertence ao som articulado que desliza para a membrana externa do ouvido e, daí no meio dos pequenos órgãos, das membranas e das fibras que estão dentro do ouvido é levado ao cérebro. Por aí me foi possível saber que a linguagem dos habitantes de Marte era diferente da linguagem dos habitantes de nossa Terra, principalmente no que era uma linguagem não sonora, mas quase tácita, insinuando-se no ouvido e na vista interiores por um caminho mais curto; e que sendo tal, era mais perfeita, mais cheia de idéias do pensamento, assim aproximando-se bem perto da linguagem dos espíritos e dos anjos; a própria afeição da linguagem é também representada neles na face e seu pensamento nos olhos, pois o pensamento e a linguagem tanto como a afeição e a face neles agem em harmonia (consideram mesmo como uma abominação pensar-se de um modo e falar-se de um outro, e desejar uma coisa interiormente mas mostrar uma outra na face; não sabem o que é a hipocrisia, nem o que é o fingimento enganador e o ardil).
[%2] Os antiqüíssimos em nossa Terra tiveram também uma tal linguagem, o que me foi possível saber por conversas com alguns deles na outra vida; e para esclarecer esse assunto, é-me permitido relatar o que ouvi, que foi o seguinte: Foi-me mostrado, por um influxo que não me é possível descrever, qual tinha sido a linguagem dos que eram da Igreja Antiqüíssima [vide item no 33]. Não era articulada como a linguagem de palavras de nosso tempo; era tácita e fazia-se não pela respiração exterior, mas pela respiração interior; assim, era uma linguagem do pensamento. Pude também perceber qual era sua respiração interior; ela ia do ventre para o coração, e, assim, pelos lábios, sem som algum, quando falavam; e não entrava no ouvido dos outros por uma via externa, e não pulsava no que se chama o tímpano do ouvido, mas entrava por uma certa via interna que, para se ser mais exato, é hoje chamada de trompa de Eustáquio. Foi-me mostrado que por uma tal linguagem podiam exprimir os sentimentos da mente e as idéias do pensamento muito mais plenamente, como nunca seria possível por meio de sons articulados ou palavras sonoras; essa linguagem é igualmente regulada por uma respiração, mas uma exterior, pois não há uma só palavra, nem mesmo coisa alguma em uma palavra, que não seja regulada por aplicações da respiração; mas neles, isso se fazia com a maior perfeição, porque era por meio da respiração interna que, sendo interior, é por isso mesmo mais perfeita e também mais adequada e mais conforme as próprias idéias do pensamento; além disso, expressavam-se ainda por ligeiros movimentos dos lábios e por mudanças correspondentes na face; efetivamente, como eram pessoas celestiais, tudo o que pensavam se manifestava claramente por sua face e seus olhos, os quais conformemente variavam a face quanto à forma, segundo a vida da afeição, e os olhos quanto à luz; nunca seriam capazes de mostrar um rosto que não fosse de acordo com o que pensavam. Como sua linguagem se fazia pela respiração interior, que pertence ao próprio espírito do ser humano, é por isso que puderam conviver e falar com os anjos. A respiração dos espíritos de Marte foi-me também comunicada(35), e percebi que sua respiração procedia da região do tórax para o meio do ventre e, de lá, fluía para cima através do peito com um sopro imperceptível para a boca. Pude ver por isso, depois também por outras provas de experiência própria, que eram de uma natureza celestial e, assim, não diferiam dos que pertenceram à Igreja Antiqüíssima nesta Terra.
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