. Como sei que se duvidará de que seja possível que o ser humano possa, pelos olhos de seu espírito, ver alguma coisa numa terra tão afastada, é permitido relatar como isso acontece: as distâncias na outra vida não são como as distâncias na Terra; na outra vida as distâncias existem absolutamente segundo os estados dos interiores de cada um; os que estão num estado semelhante encontram-se reunidos numa mesma sociedade e num mesmo lugar. Lá, tudo o que se encontra perto é de acordo com a semelhança de estado e tudo o que se encontra distante é de acordo com diferença de estado. Daí vem que eu me encontrava perto dessa terra quando era guiado pelo Senhor a um estado semelhante ao estado dos espíritos e dos habitantes de lá e que, estando, então, presente, falava com eles. Por isso pode-se ver que as terras no mundo espiritual não estão distantes do mesmo modo que no mundo natural, mas somente por aparência segundo os estados da vida dos habitantes e dos espíritos que ali estão. O estado da vida é o estado das afeições quanto ao amor e à fé. O espírito ou, o que vem dar no mesmo, o ser humano, quanto ao espírito, pode ver as coisas que estão numa terra e é para mim possível explicar como isso acontece: os espíritos e os anjos, por sua visão própria, não podem ver nada do que está no mundo, pois para eles a luz do mundo ou a luz solar é como uma densa escuridão; do mesmo modo, a pessoa pela visão de seu corpo não pode tampouco ver coisa alguma do que se encontra na outra vida, pois para ela a luz do céu é como uma densa escuridão. Todavia, os espíritos e os anjos, quando isso agrada ao Senhor, podem ver pelos olhos da pessoa as coisas que estão no mundo; mas o Senhor não o permite senão entre aqueles aos quais concede falar com os espíritos e os anjos, e ao mesmo tempo estar com eles. Por meus olhos foi-lhes dado ver, e tão claramente como eu mesmo, as coisas que estão no mundo, e mesmo ouvir as pessoas que conversavam comigo. Algumas vezes sucedeu que, por mim, alguns deles viram amigos que tiveram na vida do corpo, assim presentes absolutamente como antes, e ficaram atônitos; viram também seus cônjuges e seus filhos, e queriam que eu dissesse a estes que estavam perto deles e os viam, e que eu lhes relatasse o estado no qual estavam na outra vida; mas fora-me proibido dizer-lhes e revelar-lhes serem eles assim vistos; e mesmo porque teriam dito que eu era maluco, ou teriam pensado ser um delírio da minha imaginação, pois eu sabia muito bem que, embora dissessem de boca que espíritos existem, os mortos são ressuscitados e se encontram entre os espíritos e podem ver e ouvir por intermédio do ser humano, eles não o acreditariam, entretanto, em seus corações. Quando, pela primeira vez, a minha visão interior foi aberta, e os que estavam na outra vida viram por meus olhos o mundo e as coisas que estavam no mundo, foram tomados de um tão grande espanto, que diziam ser isso o milagre dos milagres; foram também comovidos de uma alegria nova por causa disto, por haver assim comunicação da terra com o céu e do céu com a terra; essa alegria durou meses, mas depois disso ter-se tornado comum, agora em nada os surpreende. Fui informado que os espíritos e os anjos junto às outras pessoas não vêem nada do que está no mundo, mas somente percebem os pensamentos e as afeições daqueles junto aos quais estão. De tudo isso pude concluir que o ser humano foi criado de tal modo que, vivendo no mundo com outros seres humanos, vivesse também ao mesmo tempo no céu entre os anjos e vice-versa, de maneira que o céu e o mundo no ser humano estivessem juntos e agissem em união, e os seres humanos soubessem o que há no céu e os anjos o que há no mundo; e, quando os seres humanos falecessem, passassem assim do reino do Senhor na terra ao reino do Senhor nos céus, não como a um outro reino, mas, como ao mesmo onde também estiveram, enquanto viviam no corpo. Mas, como o ser humano tornou-se muito corpóreo, fechou o céu a si mesmo.