. Enfim conversei com os espíritos daquela terra sobre a crença dos habitantes de nossa Terra a respeito da ressurreição, dizendo que eles não podem conceber que as pessoas, logo após a morte, chegam à outra vida e aparecem então como seres humanos quanto à face, ao corpo, aos braços, aos pés e quanto a todos os sentidos externos e internos; e ainda menos que então se vistam com roupas e tenham moradas e habitações; e isso acontece porque a maior parte das pessoas pensa pelos sentidos que pertencem ao corpo, e crê, por conseguinte, que aquilo que não vê e não toca não existe; e poucos dentre elas podem ser removidos dos sentidos externos para os sentidos internos e, assim, ser elevados à luz do céu, na qual tais coisas são percebidas. Daí resulta que não podem ter de sua alma ou espírito idéia alguma de que seja um ser humano, mas que têm o conceito de que é como um vento, o ar, ou um sopro sem forma alguma, no qual entretanto há alguma coisa vital. É por isso que crêem que não ressuscitarão senão no fim do mundo, o que chamam de Juízo Final, e então o corpo, embora tenha sido reduzido a pó e disperso aos quatro ventos, será reconstituído e conjunto à sua alma ou ao seu espírito. Ajuntei que lhes é permitido ter essa crença porque os que pensam pelos sentidos externos não são capazes, como já foi dito, de compreender outra coisa senão que a alma ou o espírito não pode viver como um ser humano numa forma humana, a menos que retome o corpo com que estava revestido no mundo. Se então não se lhes dissesse que o corpo ressuscitará, rejeitariam de seu coração, como incompreensível, a Doutrina sobre a ressurreição e a vida eterna. Todavia, esse pensamento sobre a ressurreição tem isto de útil, que eles crêem na vida após a morte, e dessa crença resulta o seguinte: quando caem de cama com uma doença grave e não pensam como anteriormente, segundo as coisas mundanas e corpóreas nem, por conseqüência, pelos sentidos, crêem, então que logo após seu óbito, viverão; falam mesmo então do céu e da esperança de ali viver após a morte, removidos da tal doutrina sobre o Juízo Final. Disse-lhes que ficara algumas vezes espantado de que, quando os que estão na fé falam sobre a vida após a morte e dos seus que morrem ou estão mortos, sem pensar ao mesmo tempo no Juízo Final, crêem que eles devem viver ou vivem como seres humanos logo após a sua morte; mas essa idéia, assim que o pensamento sobre o Juízo Final influi, é mudada na idéia material de que seu corpo terrestre deve ser de novo unido à sua alma. Com efeito, eles não sabem que cada pessoa é um espírito quanto a seus interiores, e é esse espírito o que vive no corpo e em cada parte do corpo e não o corpo que vive por si mesmo; e é o espírito de cada um que dá ao corpo sua forma humana, por conseqüência, é principalmente o ser humano, e numa forma semelhante; é porém invisível aos olhos do corpo, ainda que visível aos olhos dos espíritos. Daí vem mesmo que, quando a visão do espírito do ser humano é aberta, o que se dá pelo afastamento da visão do corpo, os anjos aparecem como seres humanos. Foi assim que os anjos apareceram aos antigos, de que se tratou na Palavra. Conversei também algumas vezes com espíritos que conhecera quando viviam como pessoas no mundo, e perguntei-lhes se quereriam ser revestidos de novo de seu corpo terrestre, assim, como tinham anteriormente pensado, mas, logo que escutaram essa pergunta, só à idéia de sua conjunção fugiam para longe, inteiramente estupefatos de terem tido no mundo um tal pensamento provindo de uma fé cega e privada de todo entendimento.