. Quando espíritos angélicos que provinham dessa terra chegaram à nossa vista, nos dirigiram a palavra perguntando quem éramos e o que desejávamos. Respondemos que estávamos a viajar, e tínhamos sido transportados para sua terra, mas que em nada devessem recear a nosso respeito. Com efeito, receavam que fôssemos dos que perturbam suas idéias sobre Deus, a fé e outros assuntos semelhantes; era por causa destes que tinham se mudado para essa região de sua terra, fugindo deles tanto quanto podiam. Ao serem inquiridos de como esses espíritos perturbam suas idéias, responderam que era pela idéia de três e pela idéia do Divino sem o Humano, em Deus, quando, no entanto, sabem e percebem que Deus é Um e que é Homem. Então percebi que aqueles que os perturbaram e de quem fugiam eram provenientes de nossa Terra; e também porque há entre os espíritos de nossa Terra os que na outra vida percorrem por todos os lados, por seu desejo e prazer de viajar que adquiriram no mundo, visto que nas outras terras não se fazem semelhantes viagens. Em seguida, descobri que eram monges que viajaram ao redor de nosso globo por desejar converter os gentios; por isso lhes falamos que agiam certo em fugir deles, porque sua intenção era não de ensinar, mas de enriquecer-se e dominar; e esses se aplicam em cativar primeiro sua simpatia por diversos meios e, depois, em subjugá-los a si como escravos; ainda mais, agiam certo em não permitir que a sua idéia sobre Deus fosse perturbada por tais espíritos. Acrescentaram que os perturbam também por dizerem que é preciso ter fé e crer no que dizem, mas que lhes respondem que não sabem o que é a fé, ou o que é crer, porquanto percebem interiormente em si que uma coisa é de tal modo. Eram do reino celestial do Senhor, onde todos, de uma percepção interior, sabem as verdades que em nosso meio são chamadas verdades da fé, pois estão na iluminação do Senhor; não é do mesmo modo com os que estão no reino espiritual.
[%2] Que os espíritos angélicos dessa terra fossem do reino celeste, é o que também me foi possível ver pela flama de onde procediam suas idéias, pois a luz é cor de flama no reino celestial e branca no reino espiritual. Quando os que são do reino celestial do Senhor falam verdades, dizem somente: sim, sim; ou: não, não; e nunca raciocinam para saber se algo é ou não é assim. É a seu respeito que o Senhor diz:
"Que vosso falar seja: Sim, sim; não, não; o que disso passar vem do mal" [Mt. 5:37].
É por isso que esses espíritos disseram que não sabiam o que era ter fé ou crer; consideram isso como se alguém dissesse a seu companheiro que vê com seus olhos casas e árvores e que deve ter fé que são casas e árvores, quando vê claramente que isso é assim. Tais são os do reino celestial do Senhor e tais eram esses espíritos angélicos(54). Nós lhes dissemos que na nossa Terra há bem poucos que tenham uma percepção interior; e isso porque em sua juventude aprendem as verdades e não as praticam, pois há no ser humano duas faculdades que são chamadas entendimento e vontade. As pessoas que não recebem as verdades mais além do que na memória e, por conseguinte, as recebem só um pouco no entendimento e não na vida, isto é, na vontade, visto que não podem estar em nenhuma iluminação ou visão interior do Senhor, tais proferem que é preciso crer nas verdades ou ter fé, e raciocinam também sobre as verdades para saber se são ou não são verdades. Além disso, não querem mesmo que sejam percebidas por meio de alguma visão interior ou alguma ilustração pelo entendimento; falam assim, porque as verdades em sua posse são sem a luz do céu e, nos que vêem sem a luz do céu, as falsidades podem aparecer como verdades e as verdades como falsidades. Donde muitos ali foram atacados de uma tão grande cegueira que afirmam que, embora a pessoa não pratique as verdades ou não viva segundo as verdades, pode contudo ser salva pela fé só, como se a pessoa não fosse um ser humano pela sua vida e de acordo com a sua vida, mas que o fosse pelo seu saber das coisas que pertencem à fé sem a vida. Em seguida lhes falamos do Senhor, do amor para com Ele, do amor ao próximo e da regeneração; e lhes dissemos que amar o Senhor é amar os preceitos que vêm d'Ele, o que é, pelo amor, viver de acordo com os preceitos(55); que o amor ao próximo consiste em querer-se o bem e, por conseguinte, fazer o bem ao concidadão, à pátria, à igreja, ao reino do Senhor, não para seu próprio proveito, a fim de ser notado ou de ter mérito, mas pela afeição do bem(56). Quanto à regeneração, os que são regenerados pelo Senhor e aplicam logo as verdades à vida chegam à percepção interior dessas verdades; mas os que recebem as verdades primeiro na memória e depois as querem e as fazem são os que estão na fé, pois agem provenientemente da fé, que então é chamada consciência. Responderam-nos que percebiam que isso era assim e, por conseqüência, o que é a fé. Conversei com eles por meio de idéias espirituais, pelas quais as coisas podem ser apresentadas e compreendidas na luz.
Download
━━━ ✦ ━━━
Versão Impressa Premium
Para estudo mais confortável e aprofundado, adquira esta obra em formato impresso.