. Estabeleceu-se uma religião que declara que ninguém pode cumprir a Lei; e a Lei é não matar, não adulterar, não roubar e não levantar falso testemunho. Estes preceitos da Lei todo homem civil e moral pode cumprir segundo a vida civil e moral, mas essa religião nega que ele o possa segundo a vida espiritual. Daí se segue que é preciso não praticar essas ações somente para evitar as penas e os danos no mundo, e não para evitar as penas e os danos depois que se deixou o mundo. Resulta que o homem, em quem uma tal religião se estabeleceu, pensa que aquelas ações são lícitas perante Deus, mas ilícitas perante o mundo. Por causa deste pensamento, proveniente de sua religião, o homem está na concupiscência de todos esses males e somente deixa de fazê-los por causa do mundo. Eis porque um tal homem, depois da morte, ainda que não tenha praticado homicídios, adultérios, roubos, falsos testemunhos, todavia cobiça praticá-los, e também os pratica, quando o externo que teve no mundo lhe é retirado. Toda cobiça permanece no homem depois da morte; daí se segue que tais homens fazem um com o inferno e não podem deixar de ter a sorte daqueles que estão no inferno. Mas uma outra sorte cabe àqueles que não querem nem matar, nem cometer adultério, nem roubar, nem levantar falso testemunho, porque praticar tais atos é agir contra Deus; esses, depois de alguns combates contra tais males, não os desejam, assim não cobiçam fazê-los. Dizem em seu coração que são pecados, em si infernais e diabólicos; esses, depois da morte, quando o externo que tiveram para o mundo lhes é retirado, fazem um com o céu; e, porque estão no Senhor, entram também no céu.
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