Ao que precede ajuntarei êste Memorável. Um dia eu estava muito admirado da imensa multidão de homens que atribuem à Naturez a Criação e, por conseguinte, tudo o que está abaixo do ~_À tudo o que está acima do Sol, dizendo, reconhecendo-o do fundo do coração, quando vêem alguma cousa: Não é isto da natureza? E quando se lhes pergunta por que atribuem isso à natureza- e não a Deus, quando entretanto dizem às vêzes com a comunhão da Igreja, que Deus criou a Natureza e, por conseguinte, poderiam dizer tanto que as cousas que vêem são de Deus, como -dizer que são da natureza; então respondem com um tom interno quase tácito: 0 que é Deus, senão a Natureza? Todos ésses se mostram gloriosos da persuasão de que o Universo foi criado pela Natureza; e desta loucura como de um sabedoria, ao ponto de---considerarem todos os que reconhe, cem -a Criação do Universo por Deus como formigas que se arrastam sôbre a terra e seguem um caminho batido; e alguns como borboletas que voam no ar, chamando seus dogmas de sonhos porque vêem o que èles não vêem, dizendo: Quem viu Deus e quem é que não vê a Natureza? Enquanto eu me admirava da multidão dêsses homens, um Anjo apareceu diante de mim sôbre o lado e me disse: Sôbre o que meditas tu? e eu respondi: Sôbre a multidão daqueles que crêem que a Natureza é por si mesma e que assim ela criou o Universo; e o Anjo me disse: Todo o inferno é composto de tais homens e êles lá são chamados Satanases e Diabos; Satanases, aquêles que se confirmaram pela Natureza e, por conseguinte, negam Deus; Diabos, aquêles que viveram nos crimes, e assim rejeitaram de seus corações todo reconhecimento de Deus; mas vou te conduzir a ginásios situados na Plaga meridional-ocidental, onde residem aquêles que são tais e que ainda não estão no Inferno; e êle me tomou pela mão, e me conduziu; e eu vi casinhas nas quais havia Ginásios; e no meio delas uma que era como o Pretório de tôdas as outras; êste Pretório era construido de pedras de pêz que eram recobertas de lâminas como de vidro brilhantes como ouro e prata, tais como as que se chamam selenitos ou talco; e aqui e ali eram recamadas de conchas brilhantes. Nós nos aproximamos desta casa e batemos à porta; e em breve alguém a abriu, e nos disse: Séde benvindos; e correu a uma mesa e trouxe quatro livros e disse: Êstes Livros são a Sabedoria, à qual uma multidão de Reinos aplaude hoje; a êste Livro ou a esta Sabedoria aplaudem numerosos homens na França, a êste, numerosos na Alemanha, a êste, alguns na Holanda e a êste, alguns na Inglaterra; depois disse: Se quiserdes ver, farei que êstes quatro livros brilhem a vossos olhos; e então exalou e espalhou em tômo a glória de sua reputação; e os Livros imediatamente resplandeceram de luz; mas esta luz diante de nossos olhos se dissipou imediatamente; e então lhe perguntamos o que êle escrevia agora; e ele respondeu que neste momento tirava de seus tesouros e expunha as cousas que pertencem à sabedoria íntima e que, em resumo, são estas: I. A Natureza pertence à Vida ou a Vida pertence à Natureza. 11. 0 Centro pertence à Extensão ou a Extensão pertence ao Centro. III. Sôbre o Centro da Extensão e da Vida. Depois de ter assim falado, colocou-se em uma Poltrona perto da mesa; mas nós percorremos o seu Ginásio que era espaçoso; êle tinha sôbre a mesa uma vela, porque lá não havia urna Luz do Sol, mas uma Luz noturna da lua; e o que me admirava, a vela parecia levada a toda parte e iluminar, mas como não era espevitada, iluminava pouco; e enquanto êle escrevia, vimos esvoaçar da mesa sôbre as paredes imagens de formas diferentes, que, nesta luz noturna de lua, apareciam como belos pássaros da India, mas quando abrimos a porta, eis que estas imagens, na Luz diurna do Sol, apareciam como aves noturnas cujas asas são em forma de rêde; de fato eram verossimilhanças, que por confirmações tinham se tornado ilusões, que êle tinha engenhosamente ligado em série. Após ter visto isto, nós nos aproximamos da mesa e lhe perguntamos o que escrevia nesse momento; e êle disse: Sôbre o Primeiro Ponto: A NATUREZA PERTENCE A VIDA OU A VIDA PERTENCE A NATUREZA; e sôbre êste ponto, disse que podia confirmar um ou outro e fazer que um e outro fossem verdade; mas como havia dentro alguma cousa escondida que êle temia, não ousava confirmar senão esta proposição, que a Natureza pertence à Vida, isto é, vem da Vida; e não a outra, que a Vida pertence à Natureza, isto é, vem da Natureza. Nós lhe perguntamos com honestidade o que havia de oculto que êle temia; respondeu que era ser chamado Naturalist,a e, por conseqüência, ateu pelos Padres, e Homem de uma razão pouco sã, pelos Leigos porque uns e outros ou criam segundo uma fé cega, ou vêem segundo a vista daqueles que confirmam esta fé. Então levados por uma sorte de indignação de zêlo pela verdade, nós o interpelamos, dizendo: Amigo, tu te enganas muito; a tua sabedoria, que consiste em escrever com talento, te seduziu; e a glória da reputação te induziu a confirmar o que tu não -crês; não sabes que a Mente humana pode se elevar acima dos sensuais, os quais são o que, nos pensamentos, provêm dos sentidos do corpo; e que, quando é elevado, vê em cima cousas que pertencem à Vida, e em baixo as que pertencem à Natureza? 0 que é a Vida, senão o Amor e a Sabedoria; e o que é a Natureza, senão o receptáculo pelo qual o Amor e a Sabedoria operam seus efeitos ou usos? Podem a Vida e a Natureza ser um senão como o principal e o instrumental? Pode a luz ser um -com o olho ou o som com o ouvido; donde vêm os sentidos do olho e do ouvido senão da vida; e suas formas senão da Natureza? 0 que é o corpo humano, senão um órgão da Vida? Tudo que o compõe em geral e em particular não foi orgânicamente formado para produzir o que o Amor quer e o que o Entendimento pensa? Os órgãos do corpo não vêm da Natureza; e o Amor e o Pensamento não procedem da Vida? Estas cousas não são absolutamente distintas entre si? Eleva ainda um pouco mais alto a perspicácia do teu gênio, e verás que é próprio da Vida ser afetada e pensar, é que ser afetada pertence ao Amor, que pensar pertence à Sabedoria; e que um e outro pertencem à Vida; pois, assim como foi dito, o Amor e a Sabedoria são a Vida; se elevas ainda um pouco mais alto a faculdade de compreender, verás que o Amor e a Sabedoria não podem existir, a menos que sua origem esteja em alguma parte e que sua origem é o Amor Mesmo e a Sabedoria Mesma e, por conseqüência, a Vida Mesma; e que estas cousas são Deus de quem procede a Natureza. Em seguida falamos com êle do Segundo Ponto: 0 CENTRO PERTENCE A EXTENSÃO OU A EXTENSÃO PERTENCE AO CENTRO; e lhe perguntamos porque êle debatia esta questão; respondeu-nos: Com o fim de concluir sôbre o Centro e a extensão da Natureza e da Vida, assim sôbre a origem de uma e de outra; e quando lhe perguntamos qual era a sua opinião sôbre êste ponto, respondeu-nos, como sôbre o primeiro, que podia confirmar uma ou outra proposição; mas que, com mêdo de perder sua reputação, confirmava que a Extensão pertence ao Centro, isto é, vem do Centro; ainda que eu saiba, acrescentou, que antes do Sol houve alguma cousa; e que esta alguma cousa estava por toda parte na Extensão e confluiu por si mesma em ordem, assim no Centro. Então nós o interpelamos de nôvo com uma indignação excitada pelo zêlo e lhe dissemos: Amigo, tu és louco; e logo que ouviu estas palavras recuou a poltrona da mesa e nos encarou com timidez e então prestou atenção, mas rindo; entretanto continuamos nestes têrmos: Que há de mais insensato do que dizer que o Centro vem da Extensão - por teu centro entendemos o Sol, e por tua Extensão entendemos o Universo, - e que assim o Universo teria existido sem o Sol! 0 Sol não faz a Natureza e tôdas as suas propriedades que dependem únicamente da Luz e do Calor procedendo do Sol pelas Atmosferas? Onde a Natureza estava antes e donde veio ela, é o que te diremos quando o terceiro ponto for debatido; as Atmosferas e tôdas as cousas que estão sôbre a Terra não são como Superfícies, e o Sol não é seu Centro? Será que tôdas estas cousas sem o Sol podem subsistir um só instante? Por conseqüência será que tôdas estas cousas antes do **tro e da Extensão da Vida tu queiras considerar o Centro e a da Natureza, e não vice-versa; e lhe ensinamos que Céu Angélico há um Sol, que é puro Amor, e em a parência ígneo como o Sol do Mundo; que é pelo Calor que pro cede ~e Sol que os Anjos e os homens têm a Vontade e o Amor e que é pela sua Luz que êles, têm o Entendimento e a Sabedoria; que as cousas que procedem de lá são chamadas Espirituais; e que as que procedem do Sol do Mundo são os conti nentes ou os receptáculos da Vida e são chamadas Naturais; que a Extensão do Centro da Vida é o Mundo Espiritual que subsiste por seu Sol; e que a Extensão do Centro da Natureza é o Mundo Natural, que subsiste por seu Sol. Pois que os Espaços e os Tempos não podem se dizer do Amor e da Sabedoria e são subs tituídos pelos Estados, segue-se daí que o que está em extensão em torno do Sol do Céu Arigélico não é uma Extensão mas está entretanto na Extensão do Sol natural, e aí segundo as recep ções nos seres vivos, e as recepções segundo as formas e os es tados. Então êle perguntou de onde vinha o fogo do Sol do Mundo ou da Natureza; respondemos que vem do Sol do Céu Angélico que não é fogo, mas o Divino Amor procedendo ime diatamente de Deus, que está no meio dêste Sol; como êle ficasse admirado disso, nós lhIo demonstramos assim: 0 Amor em sua essência é o fogo espiritual; é por isso que o fogo, no sentido espiritual da Palavra, significa o Amor; daí, os Padres, nos Tem plos, orarem para que os coraçóes sejam repletos com o Fogo celeste, pelo qual entendem o Amor; o fogo do Altar e o fogo do Candelabro no Tabernáculo, entre os Israelitas, não representava outra cousa senão o Divino Amor; o Calor do sangue ou o Calor vital dos homens e em geral dos animais, não tem outra origem senão o amor que faz a sua vida; daí vem que o homem se abrasa e se inflama quando seu axnor é exaltado em zêlo ou excitado em cólera e arrebatamento; é por isso, pelo fato do Calor espiritual que é Amor, produzir nos homens um calor natural, ao ponto de aquecer e inflamar suas faces e seus membros, que se torna evidente que o Fogo do Sol natural não existe senão pelo Fogo do Sol espiritual, que é o Divino Amor. Agora, visto que a Extensão vem do Centro, e não vice-versa, como o dissemos acima, e que o Centro da Vida, o qual é o Sol do Céu Angélico, é o Divino Amor procedendo imediatamente de Deus que está no meio dêsse Sol; e visto que é daí que vem a Extensão dêsse Centro a qual é chamada Mundo espiritual e que é por êste Sol que existiu o Sol do Mundo e por êste sua Extensão que é chamada Mundo natural, é evidente que o Universo foi criado por Deus. Depois disto, fomos embora, e êle nos a com panhou além do pórtico de seu Ginásio, e conversou conosco sôbre o Céu e o Inferno, e sôbre o Divino auspício, com uma nova sagacidade de espírito.