- Aqui serão acrescentados êstes Memoráveis. Primeiro Memorável. Uma vez no Mundo Espiritual, vi no ar um fogo fátuo que caiu sobre a Terra e produziu em torno uma claridade; era o meteoro que o vulgo chama Dragão; tomei nota do lugar onde êle tinha caído, mas ao romper do dia quando o Sol se levantou tudo tinha desaparecido como acontece a todo Fogo fátuo. Após a manhã aproximei-me do lugar onde o havia visto cair durante a noite; e eis, lá, um humus de uma mistura de enxofre, de limalha de ferro e de lama argilosa; e de repente apareceram então duas Tendas; uma diretamente sobre o lugar e a outra ao lado, para o sul; e olhei para cima e vi um Espírito que caía do Céu como um raio e foi lançado na Tenda que estava diretamente sobre o lugar onde o meteoro tinha caído e eu me achava na outra tenda que estava ao lado para o sul; eu estava na entrada desta tenda e vi o Espírito na outra, estando também na entrada; e então lhe perguntei por que tinha assim caído do Céu; respondeu que tinha sido precipitado como um anjo do Dragão pelos anjos de Miguel, porque, me disse êle, avancei algumas proposições concernentes à Fé, nas quais me confirmei no Mundo; e entre outras, esta, que Deus Pai e Deus Filho são dois e não um; pois nos Céus hoje todos crêem que o Pai e o Filho são um como a alma e o corpo; e todo discurso oposto a esta crença é como um aguilhão em suas narinas e como uma sovela que fura suas orelhas, daí para êles emoção e dor; e por esta razão aquêle que diz o contrário recebe ordem de sair; e se demora, é precipitado. Depois de ter ouvido esta narração, eu lhe disse: Por que não crês como êles? Replicou: Depois de ter saldo do Mundo, ninguém pode crer senão no que imprimiu em si mesmo pela confirmação, isto fica gravado e não pode ser apagado, sobretudo o que cada um confirmou em si sobre Deus, pois que nos céus cada um é colocado segundo a idéia que tem de Deus. Perguntei-lhe em seguida porque tinha confirmado que o Pai e o Filho eram dois. Disse-me: Por isto, que na Palavra o Filho orou ao Pai não somente antes da Paixão da cruz, mas também durante esta paixão e se humilhou diante de Seu Pai; como então podiam eles ser um, como a alma e o corpo o são no homem? quem é que ora como se orasse a um outro e, se humilha como diante de um outro, quando êle mesmo é êsse outro? Ninguém age assim, com mais forte razão o Filho de Deus; e, além disso, a Igreja Christã inteira, no meu tempo, dividia a Divindade em Pessoas e cada Pessoa é um por si mesma, e se dá por definição que é o que subsiste propriamente. Quando ouvi êstes raciocínios, respondi: Percebi pelo que acabas de dizer que ignoras absolutamente como o Deus Pai e o Deus Filho são um, e porque ignoras como, tu te confirmaste nos falsos em que a Igreja está ainda sobre Deus; não sabes que o Senhor, quando estava no Mundo, tinha uma alma como todos os outros homens? donde lhe vinha ela senão de Deus Pai? é o que prova abundantemente a Palavra dos Evangelistas; o que é então o que se chama Filho, senão o Humano que foi concebido do Divino do Pai e nasceu da Virgem Maria? A Mãe não pode conceber a alma, isto é inteiramente oposto à Ordem segundo a qual todo homem nasce; e Deus Pai não pode inserir a Alma procedente d'Ele e em seguida se retirar como todo pai faz no Mundo, pois que Deus é a Divina Essência e ela é una e indivisível; e sendo indivisível, é o próprio Deus; daí vem que o Senhor disse que o Pai e Êle são um, que o Pai está n'Ele e Ele no Pai e outras expressões semelhantes; é mesmo o que viram de longe aquêles que conceberam o símbolo de Atanásio; por isso, após haver dividido Deus em três Pessoas, dizem êles entretanto que no Christo Deus e o Homem, isto é, o Divino e o Humano, não são dois, mas são um como a alma e o corpo no homem. Se o Senhor, no Mundo, orou ao Pai como a um outro que não Ele e se humilhou diante do Pai como diante de um outro que não Ele mesmo, foi conformemente à Ordem estabelecida para a Criação, Ordem imutável, segundo a qual todo homem deve progredir para a conjunção com Deus; esta Ordem é que à medida que o homem por sua vida conforme as leis da Ordem, que são os preceitos de Deus, se conjunta a Deus, Deus se conjunta ao homem; e de natural, o faz espiritual; foi desta mesma maneira que o Senhor se uniu a Seu Pai e que Deus Pai se uniu a Éle; o Senhor, quando era Criança, não era como uma criança? quando era Adolescente, não era como um adolescente; não lemos que Èle crescia em sabedoria e em graça e que, em seguida, orou ao Pai para glorificar Seu Nome, isto é, Seu Humano? Glorificar é fazer Divino pela união consigo; é portanto evidente que o Senhor orou ao Pai no estado de Sua exinanição, estado que era o de sua progressão para a União. Esta. mesma Ordem foi, por Criação, gravada em cada homem, a saber, do mesmo modo que o homem, pelas verdades segundo a Palavra prepara seu entendimento, do mesmo modo o torna apto a receber a fé que vem de Deus; e do mesmo modo que pelas obras da caridade prepara sua vontade, do mesmo modo a torna apta a receber o amor que vem de Deus; pois do mesmo modo que um lapidário talha um diamante, do mesmo modo o torna próprio a receber e refletir o brilho da luz; preparar-se à recepção de Deus e à conjunção, é viver segundo a Ordem Divina e as leis da Ordem são todos os preceitos de Deus; o Senhor cumpriu éstes preceitos até ao menor ponto; e assim se fêz o receptáculo da. Divindade em toda plenitude; por isso Paulo disse que em Jesus Christo toda a plenitude da Divindade habita corporalmente; e o Senhor disse d'Ele mesmo que tudo que pertence a Seu Pai é d'Ele. Enfim, é preciso ter por certo que o Senhor no homem é o único ativo e que o homem, por si mesmo, é puramente passivo, mas que pelo influxo de vida que procede do Senhor, ele também é ativo; segundo êste perpétuo influxo que procede do Senhor, parece ao homem que é ativo por si mesmo; e por que é assim, tem o livre arbítrio e êste livre arbítrio lhe foi dado, a fim de que se prepare para receber o Senhor para a conjunção, que não é possível, a menos que seja recíproca; e ela se torna recíproca quando o homem age segundo sua liberdade e segundo, a fé atribui ao Senhor todo ativo. Depois disso lhe perguntei se confessava, como seus outros companheiros, que não há senão um Deus único; respondeu que o confessava; e então eu disse: Temo entretanto que a confissão de teu coração seja que não há Deus; toda linguagem da boca não procede do pensamento da mente? acontece portanto infalivelmente que a confissão da boca que não há senão um Deus expulsa da mente o pensamento de que há três, e vice-versa que o pensamento da mente expulsa da boca a confissão de que não há senão um; que resulta daí senão que não há Deus? todo o intervalo desde o pensamento até à boca e desde a boca voltando até ao pensamento, não é assim evacuado? e então o que é que a mente conclui sobre Deus, senão que a natureza é Deus; e sóbre o Senhor, senão que Sua Alma veio ou de Sua Mãe ou de José, duas conclusões que todos os Anjos do Céu têm em horror como medonhas e abomináveis. Depois que eu disse estas palavras, êste Espírito foi relegado para o Abismo de que se fala no Apocalipse, 9, 2 e segs., onde os Anjos do Dragão agitam questões místicas sobre sua fé. No dia seguinte quando dirigi meus olhares para o mesmo lugar, vi no lugar das Tendas duas Estátuas em forma de homens, feitas do pó da terra que estava misturada com enxofre, ferro e argila; e uma das estátuas parecia ter um cetro na mão esquerda, uma coroa na cabeça e um livro na mão direita, além disso um peitoral obliquamente cercado de uma faixa de pedras preciosas, uma vestimenta flutuando por detrás até à outra Estátua, mas êstes ornamentos tinham sido postos sobre esta estátua por uma fantasia; e então um dos espíritos do Dragão fêz ouvir estas palavras: Esta Estátua representa a nossa Fé como Rainha, e a outra atrás dela, a Caridade como sua serva; esta segunda estátua era feita de um pó semelhantemente misturado, estava colocada na extremidade da vestimenta que flutuava por trás da Rainha, e tinha na mão um papel sobre o qual estava escrito: Guarda-te de te aproximar de mais perto e de tocar a vestimenta. Mas então caiu de repente uma chuva do Céu e penetrou em uma e outra Estátua; e como eram compostas de uma mistura de enxofre, de ferro e de argila, ferveram como acontece ordinàriamente a uma mistura desta espécie quando a água cai em cima; e estando assim abrasadas com um fogo interior desmoronaram e se tornaram em montões, que em seguida se elevaram sobre esta terra como eminências sepulcrais.