- Quarto Memorável. Elevou-se uma discussão entre os Espíritos sobre esta questão: Pode-se ver algum vero doutrinal Teológico na Palavra, senão pelo Senhor? Todos concordaram com isso, que ninguém o pode senão por Deus, porque "um homem -nada pode tomar, a menos que não lhe tenha sido dado do Céu" (João 111, 27); restava, portanto, discutir se a~ o pode sem se dirigir imediatamente ao Senhor, sendo Êle a Palavra; de outro lado, que a, verdadeira doutrina também era vista quando nos dirigíamos imediatamente a Deus Pai; por isso, a discussão se fêz, a princípio, sobre êste ponto: E' permitido a um Cristão dirigir-se imediatamente a Deus Pai e assim, saltar por cima do Senhor; e não é isso uma insolência e uma audácia indecente e temerária, pois que o Senhor disse, que ninguém vai ao Pai senão por Êle? (João XIV, 6). Todavia, deixaram êste ponto e disseram que o homem pode ver o vero doutrinal segundo a Palavra por sua própria luz natural; mas esta opinião foi rejeitada; por isso insistiram, dizendo que êste vero pode ser visto por aquêles que oram a Deus Pai; leu-se diante déles uma passagem da Palavra e então oraram de joelhos a Deus Pai para ilustrá-los e disseram a respeito da passagem da Palavra, que tinha sido lida diante dêles, que tal e tal cousa era um vero, quando, entretanto, era um falso; isso foi repetido várias vêzes até produzir aborrecimento; enfim, confessaram que não podiam; mas do outro lado, aquêles que se dirigiram imediatamente ao Senhor viram os veros e os explicaram aos outros. Depois desta discussão assim terminada, subiram do Abismo alguns Espíritos que apareceram a princípio como Gafanhotos e, em seguida, como homens pequenos; eram aquêles que, no Mundo, tinham orado a Deus Pai e confirmado a Justificação pela fé só;, eram aqueles mesmos de que se fala no Apocalipse, Capítulo 9, 1 a 11; êles diziam que viam em uma luz clara e também pela Palavra, que o homem é justificado pela fé só, sem as obras da lei; foi-lhes perguntado por que fé; responderam: Pela fé de Deus Pai; mas depois que foram examinados, lhes foi dito do Céu que êles não sabiam nem mesmo um único vero doutrinal. segundo a Palavra; todavia, replicaram que viam entretanto seus veros na luz; então, lhes foi dito que os viam em uma luz fantástica; perguntaram o que é uma luz fantástica; ensinaramlhes que a luz fantástica é a luz da confirmação do falso, e que esta luz corresponde à luz na qual estão as Corujas e os Morcegos, para os quais as trevas são luz e a luz é treva; isso foi confirmado quando olhavam para cimaem direção ao Céu, onde está a Luz mesma, viam trevas; e quando olhavam para baixo em direção ao abismo, de onde êles eram, viam a luz. Indignados com - esta prova confirmativa, disseram que, desse modo, a Luz e as Trevas não são algumacousa, mas são unicamente um estado do olho, pelo qual se diz que a luz é luz e que as trevas são trevas; mas lhes foi mostrado que a Luz fantástica, que é a luz da confirmação do falso, estava nêles e que sua luz era únicamente uma atividade de sua mente, que tirava sua origem do fogo das concupiscências e que se parecia muito com a luz dos gatos, cujos olhos, pelo desejo ardente de encontrar ratos nas caves, pareciam durante a noite, como velas. A estas palavras, disseram com arrebatamento, que não eram gatos, nem como gatos, porque podiam quando queriam; mas como temiam que lhes fosse dito: Por que não quereis? eles se retiraram; e se precipitaram em seu Abismo; e os que se parecem com êles, são mesmo chamados pelos Anjos Corujas e Morcegos e também gafanhotos. Quando chegaram perto dos seus, no Abismo, e contaram que os Anjos lhes haviam dito que êles não sabiam nenhum vero doutrinal, nem mesmo um só, e que os tinham chamado Corujas, Morcegos e Gafanhotos, houve tumulto, e disseram: Oremos a Deus que nos permita subir e demonstraremos claramente que temos um grande número de veros doutrinais, que mesmo os Arcanjos reconhecerão; e por que oraram a Deus, a permissão foi dada e êles subiram em número de trezentos; e quando apareceram sobre a terra, disseram: Fomos célebres e de nomeada no Mundo porque conhecíamos e ensinávamos os arcanos da Justificação pela fé só; e pelas confirmações, não somente víamos luz, mas a víamos mesmo como um relâmpago brilhante; e nós vemos ainda do mesmo modo em nossas células; e entretanto, acabamos de saber pelos nossos companheiros que estiveram convosco, que esta luz não é a luz, mas trevas, por esta razão, como não temos, como dizeis, nenhum Vero doutrinal segundo a Palavra; sabemos que todo vero da Palavra brilha e acreditamos que era daí que vinha o esplendor de que estávamos cercados quando meditávamos profundamente sobre nossos arcanos; por isso, vos demonstraremos que temos, pela Palavra, veros em grande quantidade; e disseram: Não temos êste vero, que há uma Trindade, Deus Pai, o Filho e o Espírito Santo e que é preciso crer na Trindade? não temos êste Vero, que o Christo é nosso Redentor e nosso Salvador? não temos êste Vero, que o Christo só é a Justiça e que a Êle só pertence o Mérito, e que aquêle que quer se atribuir alguma coisa do mérito e da justiça do Senhor é injusto e ímpio? não temos êste Vero, que nenhum mortal pode fazer por si mesmo nenhum bem espiritual, mas todo bem, que em si é o bem, é de Deus? não temos este Vero, que há um bem meritório e um bem hipócrita e que estes bens são males? (não temos êste Vero, que o homem, por suas próprias forças, em nada pode contribuir para sua salvação?) não temos êste Vero, que não obstante é preciso fazer boas obras? não temos êste Vero, que há uma fé e que é preciso crer em Deus e que cada um tem a vida segundo crê? além de muitos outros veros segundo a Palavra. Quem, de vós, pode negar um dêsses veros? e entretanto, dissestes que em nossas escolas não tínhamos Vero algum, nem mesmo um só; não é isso que nos haveis injustamente censurado? Mas receberam então estas respostas: Tôdas as proposições que enunciastes são em si mesmas veros, mas (vós as tendes falsificado, aplicando-as para confirmar um falso princípio e daí são) convosco e em vós veros falsificados, que tiram do princípio falso, seu caráter de falso. Que isso seja assim, é mesmo o que demonstraremos a vossos olhos: Há, não longe daqui, um lugar sobre o qual a luz influi diretamente do Céu; no Meio está uma Mesa; e quando ai é colocado um papel sobre o qual está escrito um Vero tirado da Palavra, êste papel, pelo Vero que aí está escrito, brilha como uma Estrela; escrevei, pois, vossos Veros sobre um papel e colocai-O sobre a Mesa e vereis. Êles os escreveram sobre um papel, e o deram ao guarda, que o pôs sobre a Mesa, que então, lhes disse: Afastai-vos, e olhai para a Mesa; e êles se afastaram e olharam; e eis que êste Papel brilhava como uma estrêla; então, o guarda lhes disse: Vêdes que são Veros que escrevestes sobre o papel; mas aproximai-vos mais para perto e fixai vossa vista sobre o papel; êles o fizeram e, de repente, a luz desapareceu e o papel se tornou prêto como se tivesse sido coberto de fuligem; e em seguida, o guarda lhes disse: Tocai o papel com vossas mãos, mas guarda!-vos de tocar a escritura; e logo que lhe tocaram, saiu uma chama e o consumiu. Depois que viram o abrasamento do papel, lhes foi dito: Se tivesses tocado a escritura, teríeis ouvido um ruído retumbante e teríeis queimado os dedos; e então os que estavam por trás dêles lhes disseram: Vêdes agora que as Verdades de que abusastes para confirmar os Arcanos de vossa Justificação, são em si mesmos, Verdades, mas que são em vós Verdades falsificadas. Aquêles olharam então para cima, e o Céu lhes apareceu como sangue, em seguida como uma obscuridade; e êles mesmos apareceram aos olhos dos Espíritos angélicos, como Morcegos, outros como Corujas e alguns como Bufos; fugiram para suas trevas, que brilhavam fantasticamente a seus olhos. Os Espíritos angélicos que estavam presentes, ficaram muito admirados porque, até então, nada tinham sabido concernente a êste lugar e à mesa que aí se achava; e então veio da Plaga meridional uma voz que lhes disse: Aproximai-vos daqui e vereis, alguma cousa mais maravilhosa ainda; êles se aproximaram e entraram em uma Câmara cujas paredes brilhavam -como ouro, e aí viram também uma Mesa, sobre a qual estava colocada 4 Palavra, cercada de pedras preciosas em formas celestes; e o Anjo encarregado da guarda lhes disse: Quando a Palavra é aberta, salta dela uma luz de um brilho inefável e aparece, ao mesmo tempo, acima e em torno da Palavra, uma espécie de Arco-Íris produzido pelas pedras preciosas; quando vem aqui um Anjo do Terceiro Céu, aparece acima e em torno da Palavra, um Arco-Íris em um plano vermelho; quando vem aqui um Anjo do segundo Céu e que olha a Palavra, aparece um Arco-íris em um plano azul celeste; quando vem aqui um Anjo do último Céu e que olha, aparece um Arco-íris em um plano branco; quando vem um bom -espírito e que olha, aparece uma luz cujas variedades são como as do mármore; lhes foi mostrado à vista, que isso acontece assim. Em seguida o Anjo encarregado da guarda lhes disse: Se vem alguém que tenha falsificado a Palavra, o esplendor desaparece desde logo; e se êle se aproxima e fixa os olhos sobre a Palavra, forma-se como sangue em volta; então, é intimado a se retirar porque há perigo. Entretanto, um Espírito que, no Mundo, tinha escrito como Chefe de uma doutrina sobre a Fé Só Justificante, se adiantou com audácia, e disse: Eu, quando estava no Mundo, não falsifiquei a Palavra; exaltei mesmo a Caridade ao mesmo tempo que a Fé e ensinei que o homem, em estado de fé, no qual exerce a caridade e as obras da caridade, é renovado, regenerado e santificado pelo Espírito ,Santo; ensinei também que a Fé não existe só, isto é, sem as boas obras; do mesmo modo que não existe árvore boa sem frutos, ,sol sem luz, nem fogo sem calor; e além disso, censurei aqueles que diziam que as boas obras não eram necessárias; e de mais preconizei os preceitos do Decálogo, e também a penitência; e assim, apliquei de uma maneira admirável, todos os veros da Palavra no Artigo sobre a Fé, que não obstante descobri e demonstrei ser só salvífica. Este Espírito, na confiança de sua afirmação de que não tinha falsificado a Palavra, se aproximou da Mesa; -a não obstante a advertência do Anjo, tocou a Palavra; mas no mesmo instante saiu da Palavra fogo com fumaça e se produziu com estrondo uma explosão, que o lançou em um canto da Câmara e ai ficou estendido como morto durante perto de uma hora. Os Espíritos Angélicos ficaram muito admirados, mas lhes foi dito que este Chefe Eclesiástico tinha mais que todos os outros exaltado os bens da caridade como procedendo da Fé, mas, não obstante, não tinha entendido outras obras senão obras políticas, que são também chamadas obras morais e civis, que é preciso fazer pelo Mundo e por sua própria prosperidade no Mundo, mas de modo algum para a salvação; e que, além disso, tinha -suposto da parte do Espírito Santo, obras invisíveis, de que o homem nada sabe, que são engendradas na Fé, quando se está no estado de fé. Então, os Espíritos Angélicos falaram entre si, da falsificação da Palavra e convieram unânimemente, que falsificar a Palavra é tomar os Veros e empregá-los para confirmar falsos, o que é tirá-los da Palavra para fora da Palavra e os matar, por exemplo, aplicar-se à Fé de hoje e explicar segundo esta fé, todos esses veros referidos acima, por aquêles que tinham -saldo do abismo; que esta fé se tenha impregnado de falsos, isso será demonstrado no que segue: E' também tirar da Palavra este Vero: que a Caridade deve ser exercida e que é necessário fazer bem ao próximo; se então alguém confirma que é preciso fazê-la, mas não pela Salvação1 pois que todo bem da parte do homem não é um bem porque é meritório, êste tira o Vero da Palavra para fora da Palavra e o mata, pois que o Senhor, em Sua Palavra, prescreve a todo homem que quer ser salvo que ame o próximo e lhe faça bem segundo êste amor. Acontece o mesmo com os outros Veros. Da Trindade Divina