- Ao que precede acrescentarei êstes Memoráveis. Primeiro Memorável. No Mundo Espiritual há Climas e Zonas como no Mundo Natural; nada existe neste que não exista também naqueles; mas as cousas diferem pela origem; no Mundo natural as variedades de Climas são segundo as distâncias do Sol, a partir do Equador; no Mundo espiritual são segundo as distâncias das afeições da vontade e dos pensamentos do entendimento, a partir do verdadeiro amor e da verdadeira fé-, lá, todas as cousas são correspondências dêste amor e desta fé. Nos Zonas glaciais do Mundo espiritual, aparecem cousas semelhantes às que estão nas Zonas glaciais do Mundo natural; aí aparecem terras recobertas de geleiras, águas geladas e também massas de neve sobre elas. V para lá que vão e habitam aquêles que, no Mundo, entorpeceram seu entendimento por falta de pensar nas coisas espirituais e que, ao mesmo tempo, negligenciaram fazer usos; são chamados Espíritos boreais. Um dia tive um grande desejo de ver alguma Região na Zona glacial onde estavam os espíritos boreais; e fui conduzido em espírito para o setentrião, até a um sitio onde toda a terra aparecia coberta de neve e toda água gelada; era um dia de Sabath; e vi homens, isto é, Espíritos de estatura semelhante à dos homens no Mundo; mas por causa do frio, tinham a cabeça coberta com uma pele de leão, cuja goela estava aplicada à sua boca; seus corpos por diante e por trás, até aos lombos, estavam cobertos de peles de leopardos; e seus Pés estavam envolvidos em pele de urso; vi também muitos em carros, e alguns em carros esculpidos em forma de dragão, cujos chifes eram estendidos para frente; êsses carros eram puchados por pequenos cavalos, cujas caudas tinham sido cortadas; corriam como bêstas furiosas e o condutor, com as rédeas na mão, os apressavam sem descanso e forçava sua marcha; vi, enfim, que afluíam por tropas para um Templo, que eu não tinha visto a os guardas do templo deslocavam a neve e por uma escavação preparavam uma entrada para aquêles quechegavam para o culto; êstes desciam e entravam. Também me foi dado ver o Templo por -dentro; era iluminado por lâmpadas e por tochas em grande quantidade; o Altar era composto de pedra talhada, detrás do altar, suspenso, um Quadro sobre o qual havia esta inscrição: Trindade Divina, Pai, Filho, Espírito Santo, que essencialmente, são um único Deus, mas pessoalmente Três. Enfim, o Padre que se mantinha em pé perto do Altar, depois de ter fletido três vêzes os joelhos diante do Quadro do Altar, subiu ao púlpito com um Livro na mão e começando seu sermão pela Divina Trindade, exclamou: Oh! que grande Mistério, que Deus no Altíssimo tenha engendrado um Filho de toda a eternidade e tenha por Êle produzido o Espírito Santo, os quais se conjuntaram, os três pela Essência, mas se separaram pelas propriedades, que são a Imputação, a Redenção e a Operação Entretanto, se considerarmos isso pela razão, a vista se perturba e diante dela se forma uma obscuridade, como diante do olho daquele que encara fixamente o Sol; por isso, meus Ouvintes, quanto a êste mistério, ponhamos o entendimento sob a obediência da fé. Depois disso, exclamou de novo, dizendo: 0h1 que grande Mistério é nossa Santa Fé, que consiste em crer que Deus Pai imputa a justiça do Filho e envia o Espírito Santo, o qual segundo esta justiça imputada, opera os benefícios da Justificação caç o, que são em suma a remissão dos pecados, a renovação, a regeneraçao e a salvação! Sob o influxo ou ação desta fé o homem não sabe mais do que a estátua de sal, em que foi mudada a mulher de Lot; sobre sua morada ou seu estado não sabe mais do que um peixe no mar; entretanto, meus amigos, nela está escondido um tesouro de tal modo fechado e encerrado, que a menor parcela não é descoberta; e por isso, quanto a ela, também ponhamos o entendimento sob a obediência da fé. Após alguns suspiros, exclamou de novo, dizendo: 0h! que grande Mistério é a Eleição! Torna-se eleito aquêle a quem Deus imputa esta fé, que infunde por livre prazer e por pura graça em quem quer; e o homem é como um cepo quando ela é infundida, mas tornase como uma árvore, após ela ter sido infundida; os frutos, que são as bom obras, estão -suspensos, é verdade, nesta árvore Que no sentido representativo é a nossa fé, mas contudo não estão ligados a ela; por isso, o valor desta árvore não vem do fruto; mas como isso parece heLerodoxo e é, entretanto, uma verdade mística, ponhamos, meus irmãos, o entendimento sob a obediência da fé. E em seguida, alguns instantes após, mantendo-se como se tirasse ainda alguma causa de sua memória, continuou, dizendo: Dêste punhado de Mistérios tirarei ainda este ponto importante: é que nas cousas espirituais, o homem não tem um só grão de Livre Arbítrio; com efeito, em, seus cânones Teológicos, nossos Primazes e nossos Prelados Regulares dizem que a homem, nas cousas que pertencem à fé e à salvação, causas que são especialmente denominadas espirituais, nada pode querer, nem, pensar, nem compreender e que não pode mesmo nem se dispor nem se preparar para pensá-las; eu, portanto, de mim mesma vos digo, que o homem por si mesmo não pode sobre estas causas nem pensar segundo a razão, nem falar segundo o pensamento, senão como um papagaio, uma pega ou um corvo; que assim o homem nas causas espirituais é verdadeiramente um asno, e que, não é homem senão nas causas naturais, 6 meus caros consociados, sobre êste ponto, como sobre os outros, para que ele não infeste a vossa razão, ponhamos o entendimento sob a obediência da fé; pois a nossa Teologia é um abismo sem fundo, no qual, se mergulhais a vista do entendimento, sereis submergidos e perecereis naufragando; todavia, escutai, nós estamos entretanto na luz mesma do Evangelho que brilha no alto acima de nossas cabeças; mas, 6 sofrimento! as nossas cabeleiras e os ossos de nosso crânio a detém e impedem que ela penetre nas câmaras de nosso entendimento. Tendo assim falado, êle desceu e depois de pronunciar preces votivas junto do altar e o culto acabou, eu me aproximei de alguns assistentes que falavam entre si; aí estava também o Padre, ao qual os que estavam em torno diziam: Nós te damos imortais ações de graças por um sermão tão magnífico e tão cheio de sabedoria; mas então eu lhes disse: Compreendestes alguma coisa? E eles responderam: Apreendemos tudo a plenos ouvidos; mas por que perguntas se compreendemos? O entendimento não fi ca estupefacto em tais assuntos? E o Padre acrescentou a isso: Porque ouvistes e não compreendestes, sois felizes, pois que daí vos vem a salvação. Em seguida falei com o Padre e lhe perguntei s e tinha recebido a coroa de louros; êle respondeu: Eu sou um Mestre Laureado; e então eu disse: Mestre, eu te ouvi pregar Mistérios; se tu os sabes sem saber nenhuma das cousas que êles contêm, tu não sabes nada; pois êles são únicamente como caixinhas fechadas por três fechaduras; se não as abres e não olhas dentro, o que deve ser feito pelo entendimento, tu não sabes se encerram causas preciosas ou causas vis ou cou-sas prejudiciais; pode ha r aí ovos de áspide e telas de aranha, segundo a descrição -de Isaías LIX, 5. A estas palavras, o Padre me encarou com ar ameaçador; e os Assistentes se retiraram e subiram para seus carros, inebriados de paradoxos, infatuados de puerilidades e envolvidos de obscuridade em todas as cousas da fé edos meios de salvação.