- Segundo Memorável Pouco tempo depois, ouvi de novo, da Terra inferior, estas exclamações: Ó como eles são Eruditos! Ó como eles são Eruditos! E olhei para todos os lados para ver que pessoas estavam perto de mim; eram Anjos que, no Céu, estavam imediatamente acima daqueles pelos quais se gritava: Ó como eles são Eruditos! Conversei com eles sobre este grito e me disseram: Estes Eruditos são daqueles que, raciocinando, procuram unicamente se a coisa é ou não é, e que pensam raramente que ela é de tal maneira; por isso, são como ventos que sopram e passam; como cascas em torno de árvores que não tem miolo; como cascas em torno de amêndoas sem núcleo;e ou como a superfície de frutos sem carne, pois suas Mentes são sem julgamento interior, e só estão unidas aos Sentidos do corpo; é por isso que, se os sentidos mesmos: não julgam, eles nada podem concluir; em uma palavra, são puramente sensuais, e nós os chamamos Raciocinadores; são chamados raciocinadores porque jamais concluem cousa alguma, mas se apoderam de tudo que ouvem e discutem se a coisa é, contradizendo-a continuamente;nada gostam mais do que atacar as verdades e assim despedaçá-las, submetendo-as a debates; são os que se acreditam no Mundo mais Eruditos do que todos os outros. Depois de ter recebido estas informações, pedi aos Anjos que me conduzissem a eles; me conduziram a uma Cavidade onde havia degraus que levavam à terra inferior; descemos e seguimos o grito: Ó como eles são Eruditos! e eram algumas centenas que se mantinham de pé, em um mesmo lugar; batendo na terra; perguntei porque estavam assim, de pé, batendo na terra com os pés? E acrescentei: Eles podem, assim, fazer uma escavação no solo. A estas palavras os Anjos sorriram e disseram: Aparecem assim de pé, porque, sobre não importa que assunto, não pensam de modo algum que isso é assim, mas perguntam somente se isto é assim, e discutem; e quando o pensamento não vai mais longe, aparecem unicamente calcando, pilando com os pés um torrão de terra e não avançando. E os Anjos ajuntaram: Os que vêm do Mundo natural para este e aprendem que estão em um outro Mundo, se reúnem em vários lugares, em Assembléias, procuram onde é o Céu e onde é o Inferno e também onde está Deus; mas depois de terem sido instruídos, se põem a raciocinar, a discutir e a debater, se há um Deus; fazem isso porque hoje, no Mundo natural, há um grande número de Naturalistas e estes, entre si e com os outro, quando falam de Religião, põem isso em, discussão; esta proposição e esta discussão terminam raramente na afirmação da fé, de que há um Deus; e estes, depois, se consociam cada vez mais com os maus; isso acontece porque ninguém pode fazer algum bem pelo amor do bem, senão por Deus. Fui, em seguida, conduzido para a Assembléia; me apareceram como homens de bom aspecto e decentemente vestidos; e os F os disseram: Eles aparecem assim em sua própria luz, mas quando a luz do Céu influi, as faces mudam e as roupas também; é o que aconteceu e, então, apareceram com faces lívidas, cobertas de sacos pretos; mas esta luz tendo sido retirada, foram vistos como antes. Pouco depois falei a alguns da Assembléia e disse: Ouvi a multidão que vos cerca gritar: Ó como eles são Eruditos! Que me seja, portanto, permitido discutir convosco sobre assuntos que são da mais profunda Erudição; e êles responderam: Diz o que te agrada e nós te satisfaremos; e propus esta questão: Qual deve ser a Religião pela qual o homem é salvo? E disseram-me: Dividiremos a questão em várias outras e antes de termos concluído sobre estas, não podemos dar resposta; é preciso antes por em discussão: 1) se uma religião é alguma coisa? 2) se há salvação ou não? 3) se há uma Religião que seja mais eficaz que uma outra? 4) se há um Céu e um Inferno? 5) se há uma vida eterna depois da morte? Além de muitos outros pontos. E pedi que tratassem do primeiro ponto: Se a Religião é alguma coisa? e eles se puseram a discutir este ponto por uma multidão de argumentos; e lhes pedi que o referissem à Assembléia, e o fizeram; a resposta comum foi que esta proposição exigia tão numerosas pesquisas, que não poderia ser resolvida naquela tarde; mas, perguntei se poderia ser um em ano? e um deles me disse: que não o poderia ser em cem anos; e eu disse: Enquanto esperais, ficais sem religião; e como a salvação depende dela, ficais sem idéia, sem fé e sem esperança de salvação; ele, respondeu: Não deve antes ser demonstrado se há uma Religião e o que é esta Religião e se é alguma cousa? se há uma, ela será também para os sábios; se não há, aquilo que é chamado religião será unicamente para o vulgo; sabe-se que a Religião é chamada Ligação; mas pergunta-se para quem é esta ligação; se é unicamente para o vulgo, ela não é em si mesma alguma coisa? Se é também para os sábios, ela é alguma coisa? Depois de ter ouvido esta resposta, disse: Vós nada tendes de Eruditos, pois não podeis pensar senão se uma cousa é ou não é e examinar em um e outro sentido; quem pode ser Erudito, a não ser que saiba alguma cousa com certeza e avance nessa coisa? Como um homem avança passo a passo e sucessivamente na Sabedoria? De outro modo vós não tocais as verdades nem mesmo com um dedo, mas as afastais cada vez mais da vista; raciocinar unicamente, se uma coisa é ou não é, é como raciocinar sobre um boné sem jamais pô-lo na cabeça ou sobre um sapato sem o calçar; resulta daí, senão que não sabeis se, seja o que for, existe realmente ou se tudo não é ideal; assim, se há uma salvação, uma vida após a morte, se uma Religião vale mais do que uma outra, se há um Céu e um Inferno; não podeis pensar coisa alguma sobre estes assuntos, enquanto vos detiverdes no primeiro passo, e aí bateis a areia, sem levar um pé para diante do outro e sem avançar. Tende cuidado para que as vossas Mentes, enquanto, se mantêm assim fora do julgamento, não se endureçam interiormente e não se tornem estátuas de sal. Depois de ter assim falado, fui embora; e eles em sua indignação, lançaram pedras atrás de mim; então me apareceram como imagens talhadas, nas quais não há uma centelha de razão humana. E indaguei dos Anjos sobre a sorte destes espíritos; eles me disseram que os mais abjetos dentre eles são precipitados no profundo, e lá em um deserto, são reduzidos a carregar fardos; e então, como dizer de conformidade com a razão, balbuciam, falam coisas frívolas e, de longe, aparecem como jumentos carregando suas cargas.