- IV. Entretanto, nada da Fé, nada da Caridade, nem coisa alguma da vida de uma e de outra, vem do homem, mas tudo vem do Senhor só: com efeito, lê-se que "um homem nada pode tomar, a menos que lhe tenha sido dado do Céu" (João III, 27). E Jesus disse: ''Aquele que mora em Mim e Eu nele, esse dá fruto, pois sem Mim nada podeis fazer" (João XV, 5); mas isso deve ser entendido assim: que o homem, por si mesmo, não pode adquirir outra fé que não seja a Fé natural, que é a persuasão de que uma cousa é de tal maneira porque um homem de autoridade o disse assim; nem outra caridade que não seja a caridade natural, que é uma operação por favor, em vista de alguma recompensa; nesta fé e nesta caridade há o próprio do homem e não ainda a vida proveniente do Senhor; entretanto, por uma e por outra, o homem se prepara para ser um receptáculo do Senhor; e à medida que se prepara, o Senhor entra nele e faz com que a sua fé natural se torne fé espiritual; do mesmo modo a Caridade; e assim, uma e outra, se tornam vivas; e isso se faz quando o homem se dirige ao Senhor como Deus do Céu e da Terra. 0 homem, tendo sido criado imagem de Deus, foi criado habitáculo de Deus; e par isso, o Senhor disse: ''Aquele que tem os meus preceitos e os faz, é o que me ama; e eu o amarei, virei a ele e nele farei morada" (João XIV, 21, 23). Depois: "Eis que fico à porta e bato; se alguém ouve a minha voz e abre a porta, eu entrarei, cearei com ele e ele comigo" (Apoc. 3, 20). Daí, segue-se esta conclusão: que, à medida que o homem se prepara naturalmente para receber o Senhor, o Senhor entra, torna espiritual e vivas todas as cousas que estão interiormente nele. Mas, vice-versa, quanto mais o homem não se prepara, tanto mais afasta de si o Senhor e faz tudo ele mesmo pelo eu, o que o homem faz, pelo eu, nada tem da vida em si. Mas este assunto não pode ser apresentado à vista em alguma luz, antes que se tenha tratado da Caridade e do Livre Arbítrio; e será visto mais tarde no Capitulo sobre a Reforma e a Regeneração.