- I. Não há Fé alguma nos maus porque o mal pertence ao Inferno e a fé pertence ao Céu. Se o mal pertence ao Inferno é porque todo mal vem do Inferno; se a fé pertence ao Céu e porque todo vero que pertence à fé vem do Céu; enquanto o homem vive no Mundo, é mantido e anda no meio entre o Céu e o Inferno e aí está em equilíbrio espiritual, que é seu Livre arbítrio; o Inferno está sob seus pés, o Céu sobre sua cabeça; e tudo que sobe do Inferno é o mal e o falso, mas tudo que desce do Céu é o bem e o vero; pois que o homem está no meio entre estes dois opostos e, ao mesmo tempo, em equilíbrio espiritual, pode escolher, adotar e se apropriar de um ou de outro segundo sua liberdade; se é o mal e o falso, êle se conjunta com o Inferno, mas se é o bem e o vero, êle se conjunta com o Céu; daí, é não somente evidente que o mal pertence ao Inferno e a Fé ao Céu, mas ainda que estes dois não podem estar juntos no mesmo sujeito ou em um mesmo homem, pois se estivessem juntos, o homem amarrado como que por duas cordas, seria desmembrado, puxado, por uma, para cima, e pela outra, para baixo; e assim se tornaria como que suspenso no ar; e seria como se voasse, como uni melro, ora para cima, ora para baixo e que, em cima adorasse Deus e, em baixo, o Diabo; que seja isso o profano, cada um o vê; o Senhor ensina em Mateus, "que ninguém pode servir a dois Senhores, pois a um odiaria e ao outro amaria" (VI, 24). Que lá onde está o mal não há fé, isso pode ser ilustrado por diferentes comparações, por exemplo: 0 mal é como o fogo - o fogo infernal não é outra cousa mais que o amor do mal consome a fé como palha e a reduz a cinzas assim como tudo que lhe pertence. 0 mal habita na obscuridade, a fé na luz e o mal, pelos falsos, extingue a fé como a obscuridade a luz. 0 mal é negro como tinta de escrever e a fé é branca. como a neve e transparente como a água; e o mal enegrece o lê, como a tinta enegrece a neve e a água. Enfim, o mal e o vero da fé não podem estar conjuntos senão como o seria o fétido com o aromático, a urina com o vinho; não podem estar juntos senão como um cadáver infecto, com um homem vivo em um mesmo leito; e não podem habitar juntos mais que um lobo em um aprisco, um gavião em um pombal e uma raposa em um galinheiro.