- Terceiro Memorável. Depois que estes dois Anjos ficaram fora de minha vista, vi à minha direita um Jardim, onde havia oliveiras, figueiras, loureiros e palmeiras, colocados em ordem segundo as correspondências; olhei mais atentamente para esse lado, e entre as árvores vi Anjos e Espíritos que passeavam e conversavam entre si; então, um Espírito angélico me reparou; são chamados Espíritos angélicos os que, no Mundo dos espíritos são preparados para o Céu; este Espírito veio deste Jardim a mim, e disse: "Se queres vir comigo ao nosso Paraíso, ouvirás e verás cousas maravilhosas. Fui com êle, e então me disse: "Esses que vês pois eram em grande número estão todos no amor do vero, por conseguinte, na luz da sabedoria; há também um Palácio, que chamamos o Templo, da Sabedoria, mas não é visível para aquele que crê ter muita sabedoria, menos ainda para aquele que se crê suficientemente sábio; e bem menos ainda para aquele que se crê sábio por si mesmo; porque estes não estão na recepção da luz do Céu pelo amor da sabedoria real; a sabedoria real é que o homem veja pela luz do Céu que aquilo que tem de ciência, de inteligência e de sabedoria, é tão pouca cousa relativamente ao que não tem, que é como uma gota d’água relativamente ao Oceano; todos os que estão neste Jardim paradisíaco, e que pela percepção e a vista reconhecem em si mesmos que têm pouca sabedoria relativamente, vêem este Templo da Sabedoria, pois a luz interior na mente põe o homem em estado de vê-lo, mas não a luz exterior sem a interior". Ora, como eu muitas vezes pensei isso pela ciência e pela percepção, enfim, pela luz interior, reconheci que o homem tem tão pouca sabedoria, eis que me foi dado ver esse Templo. Êle tinha uma forma admirável, era muito elevado acima do solo, quadrangular, as, paredes eram de cristal, a cobertura elegantemente abobadada era de jaspe transparente e seus fundamentos, de diversas pedras preciosas; os degraus pelos quais se subia para êle eram de elabastro polido; sobre os lados dos degraus viam-se como leões com leõezinhos. Então perguntei se me era permitido entrar e me dito que era permitido; subi e quando entrei, vi como querubins, que voavam sob a, abóbada, mas que se dissipavam em seguida. 0 assoalho sobre o qual se andava era de cedro; e todo o Templo, pela transparência da cobertura e das paredes, era construído em forma luminosa. Comigo entrou o Espírito Angélico, a quem contei o que tinha aprendido com dois Anjos sobre o Amor e a Sabedoria, sobre a Caridade e a Fé; então, ele disse: "Será que eles não falaram também do Terceiro;" "0 que é o terceiro? lhe disse. Ele respondeu: E' o Bem do Uso; o Amor e a Sabedoria sem o Bem do Uso nada são; são unicamente entidades ideais não se tornam realidades antes de estarem no Uso; pois o Amor, a Sabedoria e o Uso são três coisas que não podem ser separadas; se são separadas, nada são nem uma nem outra; o Amor nada é sem a Sabedoria, mas na Sabedoria ele é formado para alguma cousa e esta alguma cousa para a qual é formado é o Uso; quando, portanto, o amor pela sabedoria está no uso, está então na realidade, porque existe efetivamente; estes três são absolutamente como o fim, a causa e o efeito; o fim nada é, a não ser que pela causa esteja no efeito; se um dos três é rompido, torna-se como nada. Dá-se o mesmo também com a Caridade, a Fé e as Obras; a Caridade sem a Fé nada é, nem a Fé sem a Caridade, nem a Caridade e a Fé sem as Obras, mas nas Obras elas são alguma cousa, e alguma coisa tal como é o Uso das Obras. Dá-se o mesmo com a Afeição, o Pensamento e a Operação, e o mesmo com a Vontade, o Entendimento e a Ação, pois a Vontade sem o Entendimento é como o olho sem a vista; e uma e o outro sem a Ação, é como a mente sem o corpo; que seja assim, pode-se ver claramente neste Templo, porque a Luz, em que estamos aqui, é uma Luz que ilustra os interiores da mente. Que não haja cousa alguma completa nem perfeita, que não seja Trina, é também o que ensina a Geometria, pois a Linha nada é senão se faz uma Superfície; e a Superfície nada é se não se faz um Corpo; é preciso, portanto, que um seja conduzido ao outro a fim de existir e há coexistência no Terceiro; como acontece com isso, o mesmo acontece com tôdas e cada uma das coisas criadas, que são terminadas no Terceiro. Daí vem portanto que Três na Palavra significa o completo e inteiramente. Isto sendo assim, não pude deixar de ficar admirado vendo que pessoas professam a Fé só, outros a Caridade só, outros as Obras sós; quando, entretanto, uma destas cousas sem a outra, e duas conjuntas sem a Terceira, nada é". Então lhe fiz estas perguntas: "Não pode o homem ter a Caridade e à Fé e, entretanto, não ter ás Obras? Não pode o homem estar na afeição e no pensamento de uma coisa e, entretanto, não estar na operação dessa coisa?'' E o Anjo me respondeu: "Não o pode senão em idéia, mas, não na realidade, deve estar sempre no esforço ou na vontade de operar e a vontade ou o esforço é o ato em si, porque é uma tendência continua para agir, que se torna ato nos externos, quando a determinação chega; é por isso que o esforço ou a vontade, como ato interno, é aceito por todo sábio porque é aceito por Deus, absolutamente como o ato externo, desde que Me se execute, quando a ocasião para isso se apresente.