- Segundo Memorável. Um dia, quando eu olhava em torno de mim no Mundo espiritual, ouvi como um ranger de dentes e também como o barulho que se faz martelando, uma espécie de som rouco misturado com êstes ruídos; perguntei o que era e os Anjos que estavam comigo, me disseram: "São Colégios, que chamamos Diversórios, onde se reúnem para discutir; suas Discussões são assim ouvidas de longe, mas de perto só se ouvem as discussões". Aproximei-me, e vi casinhas construídas de juncos unidos com barro e quis olhar pela janela, mas não havia; pois não era permitido entrar pela porta porque assim a Luz proveniente do Céu influiria e lançaria a confusão ora, de repente se fez uma janela do lado direito, e então ouvi que se queixavam de estar na§ trevas; mas pouco depois se fez uma janela do lado esquerdo, tendo se fechado a janela do lado direito; então, as trevas foram, pouco a pouco, dissipadas e eles se viram em sua luz; depois disso, me foi permitido entrar pela porta e ouvir. Havia uma mesa no meio e bancos em torno; entretanto -todos me pareceram estar em pé sobre os bancos e discutir vivamente entre si sobre a Fé e sobre a Caridade; de um lado, que, a Fé era o essencial da Igreja; do outro, que era a Caridade. Os que faziam a Fé o essencial, diziam: "Não agimos pela Fé com Deus e pela Caridade com o homem? assim não é a Fé celeste e a Caridade terrestre? Não é pelos Celestes que somos salvos e não pelos Terrestres?" Depois: "Não pode Deus dar do Céu a Fé, pois que ela é celeste? E o homem não pode dar a Caridade, pois -que esta é terrestre? E aquilo que o homem se dá não é a Igreja e, por conseqüência, não salva; assim, pode alguém ser justificado diante de Deus pelas obras que são chamadas Obras da Caridade? Crede que pela Fé só rãs somos, não somente justificados, mas ainda santificados se a Fé não é maculada por cousas meritórias que procedem das obras da Caridade, etc." Mas os que faziam a Caridade o Essencial da Igreja refutavam com vivacidade estes raciocínios, dizendo, que é a caridade que salva e não a fé: "Deus não estima todos os homens? não quer bem a todos? como pode Deus fazer este bem se não for pelos homens? Deus não se digna somente falar com os homens cousas que pertencem à Fé e não se digna fazer aos homens as que pertencem à Caridade? Não vedes que falais da Caridade de uma maneira absurda dizendo que ela é terrestre? A Caridade é Celeste; e! Por que não fazeis o bem da Caridade, a vossa Fé é terrestre; como recebeis a vossa Fé senão como uni toco ou uma pedra? dizeis: Ouvindo pronunciar a Palavra; mas como a Palavra, escutada somente pode operar e como o pode ela em um toco ou uma pedra? Sem dúvida que fostes vivificados inteiramente sem o saber, mas que vivificação, se não é a de que podeis dizer que-a Fé só justifica e salva? Quanto ao que é a Fé e qual é a Fé que salva, vós nada sabeis". Então se levantou um dos membros que o Anjo, que conversava comigo, chamava Sincretista; tomou seu boné e o colocou sobre a mesa; mas, em seguida, o recolocou na cabeça porque era calvo; e disse: "Escutai, vós estais todos em erro; é verdade que a Fé é espiritual e que a Caridade é moral, mas não obstante são conjuntas pela Palavra, e então pelo Espírito Santo, e pelo Efeito, que pode mesmo ser chamado Obediência, mas obediência na qual o homem não tem parte alguma, porque, quando a Fé é dada, o homem não o sabe mais que uma estátua; meditei muito sobre este assunto e achei que o homem pode receber de Deus uma Fé que seja espiritual, mas que não pode, mais que um toco ser levado por Deus a uma Caridade que seja espiritual". A estas palavras, os que estavam na Fé só aplaudiram; mas os que estavam na Caridade murmuraram; e em sua indignação, disseram: "Escuta, companheiro, tu não sabes que há uma Vida moral espiritual e que há uma Vida moral puramente natural, uma Vida moral espiritual nos que fazem o bem por Deus, e entretanto, como por si mesmos, e uma Vida moral puramente natural nos que fazem o bem pelo Inferno, e entretanto, como por eles mesmos". Foi dito que a discussão tinha sido ouvida como um ranger de dentes e como um barulho que se faz martelando, ruídos a que se misturava um som rouco. A Discussão ouvida como um ranger de dentes era a discussão daqueles que tinham feito da Fé o único Essencial da Igreja; o barulho como o que se faz martelando, vinha dos que tinham feito da Caridade o único essencial da Igreja e o som rouco, provinha do Sincretista; o barulho de sua discussão tinha sido ouvido desta maneira a distância, porque todos esses no Mundo tinham discutido e não tinham fugido de mal algum; por conseqüência, não tinham feito bem algum proveniente do espiritual; e mesmo ignoravam inteiramente que o todo da Fé é o vero e o todo da Caridade o bem, e que o Vero sem o bem não é o Vero em espírito, e que o Bem sem o vero não é o Bem em espírito, e que assim um deve fazer o outro.