- Ao que precede serão ajuntados êstes Memoráveis: Primeiro Memorável (N. 50). Ouvi anunciar uma Reunião na qual se devia deliberar sobre o Livre-Arbítrio do homem nas cousas espirituais; era no Mundo Espiritual; de tôdas as plagas para aí vinham sábios que, no Mundo em que viviam precedentemente, tinham meditado sobre este assunto, e vários dos que tinham tomado parte em Concílios e Sínodos tanto antes como depois do Concílio de Nicéa; reuniram-se em um Templo redondo, semelhante ao Templo de Roma, que se chama Panthéon, que a princípio tinha sido consagrado ao Culto de todos os deuses, e que depois foi aproveitado para o Culto de todos os Santos Mártires pela autoridade papal; nesse Templo, contra as paredes havia como altares, mas perto de cada altar, assentos sobre os quais os membros da assembléia se colocavam e apoiavam os cotovelos sobre os altares como sobre outras tantas mesas; não tinha sido designado Presidente para dirigir a deliberação entre eles, mas cada um, quando desejava, se lançava ao meio, falava com efusão e declarava seu sentimento; e o que me admirava, todos os que compunham esta Reunião estavam cheios de confirmações em favor da impotência completa do homem nas coisas espirituais, e em conseqüência levavam a ridículo o Livre-Arbítrio espiritual. Quando estavam reunidos, um deles se lançou imediatamente ao meio, e se exprimiu assim em altas vozes: "No homem não há o Livre-Arbítrio nas cousas espirituais, mais do que havia na mulher de Loth depois que foi mudada em estátua de sal, pois se houvesse mais Livre-Arbítrio no homem, êle atribuiria certamente a si mesmo a fé de nossa Igreja, que é, que Deus Pai a dá gratuitamente, em toda Liberdade e Bel-Prazer, a quem quer e quando quer; êste bel-prazer e esta gratuidade não pertenceriam de maneira alguma a Deus, se por alguma liberdade ou bel-prazer o homem pudesse também atribuí-la a si, pois assim a nossa Fé, que é um astro brilhando diante de nós dia e noite, seria dissipada como uma estrela cadente no ar". Depois dêste, um outro se lançou de seu assento, e disse: "No homem não há mais Livre-Arbítrio nas cousas espirituais do que o há nas bestas, e mesmo do que no chão; pois se o homem o tivesse, faria o bem por si mesmo, quando entretanto todo bem vem de Deus, e o homem nada pode tomar se não lhe for dado do Céu''. Depois dêste, um outro saltou de seu assento, e chegou ao meio, e elevou a voz dizendo: "No homem não há mais Livre-Arbítrio nas coisas espirituais, mesmo para as examinar do que o há na coruja para ver durante o dia, não há mais mesmo do que em um pinto ainda encerrado no ovo; nestas cousas êle é cego como uma topeira, pois se tivesse olhos de lince para examinar o que concerne à fé, à salvação e à vida eterna, acreditaria que pode por si mesmo regenerar-se e salvar-se, e faria esforços mesmo para isso, e assim profanaria, por méritos sobre méritos, o que pensasse e fizesse". Um outro correu ainda para o meio, e exprimiu assim seu sentimento: "Aquele que imagina que pode querer e compreender alguma coisa nos assuntos espirituais depois da queda de Adão, está no delírio e se torna maníaco, porque então se acredita um semi-deus ou uma deidade, possuindo por seu próprio direito uma parte do poder Divino". Depois dêste um outro veio todo esbaforido ao meio, trazendo sob o braço o Livro intitulado "Fórmula de Concórdia", sobre a Ortodoxia do qual (é o termo de que êle se serviu) os Protestantes-Evangélicos juram hoje; e o abriu, e leu as passagens seguintes: "0 homem quanto ao bem é inteiramente corrupto e morto, ao ponto que, na natureza do homem depois da queda, não permanece ou resta antes da regeneração nem mesmo uma centelha de forças espirituais, pelas quais possa por si mesmo ser preparado para a graça de Deus, ou formá-la quando lhe é oferecida, ou ser de si mesmo ou por si mesmo suscetível desta graça, ou fazer cousas espirituais, compreender, crer, abraçar, pensar, querer, começar, acabar, agir, operar, cooperar, ou se aplicar ou se adaptar à graça ou fazer alguma cousa para sua conversão, seja no todo, na metade ou na menor parte. 0 homem nas coisas espirituais, que encaram a salvação da alma, é como a estátua de sal da mulher de Loth e semelhante a um toco e a uma pedra privados de vida, que não têm uso, nem olhos, nem boca, nem sentido algum. Não obstante, ele tem o poder de locomoção, ou pode governar seus membros externos, ir às Assembléias públicas, e ouvir a Palavra e o Evangelho" (Estas palavras, na Edição que possuo, se encontram nas páginas 656, 658, 661, 662, 663, 671, 672, 673). Depois desta leitura, todos foram da mesma opinião e exclamaram em conjunto: "Isto é verdadeiramente ortodoxo". Eu estava de pé e tinha prestado uma grande atenção a tudo que se tinha dito, e como eu fervia em meu espírito, lhes disse com uma voz forte: "Se nas cousas espirituais fazeis do homem uma estátua de sal, uma besta, um cego, e um insensato, para que servem então os vossos dogmas teológicos? Todos em geral, e cada um em particular, não são espirituais?" Depois de um momento de silêncio, eles responderam: "Em toda nossa Teologia cousa alguma do que a razão apreende é espiritual; aí só a nossa fé é espiritual; mas nós a fechamos cuidadosamente, a fim de que pessoa alguma olhe para dentro dela, e tomamos grandes precauções para que nenhum raio espiritual eflua dela, e se mostre diante do entendimento; e além disso o homem não põe sobre ela a menor parte de sua determinação vinda dêle; afastamos de todo espiritual a Caridade, e a fizemos puramente moral; igualmente o Decálogo; sobre a justificação, a remissão dos pecados, a regeneração e a salvação, nada apresentamos de espiritual, dizemos que a Fé os opera; mas como, não o sabemos absolutamente; em lugar da penitência tomamos a contrição, e para que não a creiam espiritual, nós a afastamos da fé quanto a todo contato; sobre a Redenção não adotamos senão idéias, puramente naturais, que são, que Deus Pai envolveu todo o Gênero humano sob a danação, e que Seu Filho tomou sobre si esta danação, e se deixou suspender na cruz, e assim constrangeu seu Pai à comiseração, além de várias outras coisas semelhantes, nas quais não aprenderás nada de espiritual; ao contrário, tudo ai e puramente natural". Então no ardor do zelo, de que tinha sido tomado a princípio, continuei dizendo: "Se o homem não, tivesse o Livre-Arbítrio nas cousas espirituais, o que seria então senão um bruto? Não é por êste Livre-Arbítrio que o homem se, eleva acima das bêstas brutas? Sem êle, o que seria a Igreja, senão a face negra de um escaravelho em cujos olhos há uma marca branca? Sem êle, o que seria a Palavra, senão um Livro inútil? 0 que se encontra aí mais freqüentemente dito e ordenado, senão que o homem deve amar a Deus, e que deve amar o próximo, e também que deve crer, e que a salvação e a vida são para êle conforme ama e crê? Quem é que não tem a faculdade de compreender e de fazer as coisas que foram ordenadas na Palavra, e os preceitos que estão no Decálogo? Como Deus teria podido prescrevê-los Eu ordená-los, se esta faculdade não tivesse sido dada ao homem? Diz a um camponês, cuja mente não está fechada pelas ilusões teológicas, que êle não pode, mais que um toco e uma pedra, compreender cousa alguma nem querer cousa alguma nas cousas da fé e da caridade, e por conseqüência nas coisas da salvação, e que não pode mesmo se ligar a elas nem se adaptar a elas; será então, que ele não arrebentará de rir e não dirá: "0 que há de mais insensato? que seria então para mim um Sacerdote e a sua pregação? Que seria então um Templo mais do que um estábulo? e o que seria então um culto, mais do que uma lavragem? Ó! que demência falar assim, é loucura sobre loucura. Quem é que nega que todo bem vem do Senhor? Não foi dado ao homem fazer como por si mesmo o bem de Deus? Dá-se o mesmo com crer". Ouvindo estas palavras, exclamaram todos: "Falamos como ortodoxos para ortodoxos; tu, ao Contrário, como camponês para camponeses". Mas de repente o raio caiu do Céu; e, para que não os consumisse, lançaram-se em tumulto, e fugiram de lá, cada um para sua casa.