- Terceiro Memorável (N. 52). Um dia ouvi um barulho como a fricção de duas más de moinho uma contra a outra; aproximei-me dêste barulho, e êle cessou, e vi uma porta ,estreita, conduzindo obliquamente para baixo em direção a uma casa abobadada, em que havia várias Câmaras com células, em cada uma das quais estavam sentados dois Espíritos que recolhiam na Palavra passagens confirmativas. da justificação pela fé só; um recolhia e o outro escrevia, e isso alternativamente. Aproximei-me de uma célula, que ficava perto da porta, e perguntei o que recolhiam ia escreviam. Disseram: "Passagens sobre o Ato da Justificação ou sobre a Fé em Ato, que é a Fé mesma justificante, vivificante e salvante, e a Cabeça das doutrinas da Igreja em nosso Cristianismo". E então disse a um deles: "Conta-me alguma cousa dêste Ato, quando esta Fé é introduzida no coração do homem". Respondeu: "0 sinal dêste Ato existe no momento em que o homem, penetrado pela dor de ser danado, e posto nesta contrição, pensa que o Christo tirou a danação da Lei, e apreende êste mérito do Christo com confiança e se dirige com isto no pensamento, a Deus Pai e lhe suplica". Então eu disse: "E' portanto assim que se faz o Ato, e é êste portanto o momento?" E acrescentei: "Como compreenderia eu, o que é dito deste Ato, que nada do homem concorre para êle, como nada concorreria tampouco se ele fosse um toco ou uma pedra; e que o homem, quanto a este Ato, nada pode começar nem querer nem compreender nem pensar nem operar nem cooperar nem se aplicar nem se adaptar? Dize-me como isso se harmoniza com tuas Palavras, que o Ato tem lugar quando o homem pensa no Direito da Lei, na sua danação retirada pelo Christo, na confiança com a qual apreende este mérito do Christo, 'e se dirige, pensando nisso, a Deus Pai e lhe suplica? Todas estas cousa,s não são feitas pelo homem?" Ele porém disse: "Elas são feitas pelo homem, não ativamente, mas passivamente". E respondi: "Como pode alguém pensar, ter confiança e suplicar passivamente? Tira ao homem o ativo, e nesse caso o cooperativo, não lhe tiras também o receptivo, assim tudo, e com tudo o Ato mesmo? Que se torna então o teu Ato, senão alguma cousa de puramente ideal, que se chama ser de razão? Espero que não acredites, como alguns, que um tal Ato só acontece com os Predestinado, que nada sabem da infusão da fé neles; estes podem lançar os dados, e procurar por esse meio se a fé foi infundida neles, ou se não o foi. Crê, portanto, meu amigo, que o homem quanto à fé e à caridade, opera por si mesmo segundo o Senhor, e que sem esta operação, teu Ato de fé, que chamaste a Cabeça das Doutrinas da Igreja no Cristianismo, não é senão a estátua da mulher de Loth, não dando outro som senão o do sal, roçada pela pena do escritor ou pela unha do seu dedo (Lucas XVII, 32); disse isso, porque vós vos fazeis, a vós mesmos, quanto a êste Ato, semelhantes a estátuas". Quando eu disse estas palavras, êle agarrou bruscamente o castiçal para me jogar no rosto, e então a vela se tendo apagado de repente, êle o lançou no rosto do seu companheiro; e eu fui embora rindo.