- Quarto Memorável (N. 53). Vi no Mundo Espiritual dois rebanhos, um de Bodes e outro de Ovelhas; perguntei-me admirado o que toam eles; pois eu sabia que os animais vistos no Mundo Espiritual não são Animais, mas Correspondências das afeições e dos pensamentos daqueles que lá se encontram; por isso aproximei-me de mais perto, e à medida que me aproximava, as semelhanças de animais desapareciam, e em seu lugar via Homens; e me foi manifestado que os que compunham o rebanho dos Bodes eram os que se tinham confirmado na Doutrina da Justificação pela Fé só; e que os que compunham o rebanho das Ovelhas, eram os que acreditavam que a Caridade e a Fé são um, como o Bem e o Vero são um. E então conversá com os que tinham sido vistos como Bodes, e disse: "Por que vos reunistes assim?" A maior parte era de membros do Clero, que se tinham vangloriado de seu renome de erudição, porque conheciam os Arcanos da justificação pela fé só. Disseram que se tinham reunido para realizar um Concílio, porque tinham ouvido dizer que esta passagem de Paulo - Rom. 3, 28: "0 homem é justificado pela Fé sem as Obras da lei", não tinha sido bem compreendida, o que era afirmado da maneira seguinte: Nesta passagem pela Fé Paulo entendeu, não a Fé da Igreja de hoje, que é em Três Pessoas Divinas de toda eternidade, mas a Fé no Senhor Deus Salvador Jesus Christo; e pelas Obras da Lei entendeu, não as obras da Lei do Decálogo, mas as Obras da Lei de Moisés, que eram para os Judeus; e assim, destas poucas palavras, concluiu-se por uma má interpretação duas enormes falsidades, que são ter-se entendido a Fé da Igreja de hoje, e as obras da Lei do Decálogo; que Paulo tenha entendido, não estas Obras, mas as Obras da Lei de Moisés, que eram para os Judeus, vê-se claramente por suas palavras a Pedro, ao qual censurava de judaizar, ainda que soubesse que "ninguém é justificado pelas Obras da Lei, mas pela fé em Jesus Christo" (Gal. 2, 14-16); pela fé em Jesus Christo, é pela fé n'Ele e por Ele (ver acima n. 338); e como pelas Obras da Lei ele entendia as Obras da Lei de Moisés, é por isso que fêz uma distinção entre a Lei da Fé e a Lei das Obras, e entre os Judeus e os Gentios, ou entre a Circuncisão e o Prepúcio, e pela Circuncisão é significado o judaísmo, como por toda parte aliás; e mesmo êle concluiu com estas palavras: "Anulamos, pois, a Lei pela Fé? De maneira nenhuma, antes afirmamos a Lei"; êle diz tôdas estas coisas em uma mesma série (Rom. 3, 27-31); e diz também no Capítulo que precede: "Não os ouvintes da Lei serão justificados por Deus, mas os que fazem a Lei serão justificados?' (Rom. 2, 13); e também: "E' preciso que todos nós sejamos manifestados diante do tribunal de Christo, a fim de que cada um relate o que fêz pelo corpo, seja bem seja mal" (II Cor. 5, 10); além de várias outras passagens que se encontram nele; donde é evidente que Paulo rejeitou a Fé sem as boas obras, como a rejeita Tiago (Epist. 2, 17-26). Que Paulo tenha entendido as Obras da Lei de Moisés, que eram para os Judeus, é o de que temos. além disso a confirmação, em que em Moisés, todos os Estatutos. para os Judeus são chamados Lei, assim Obras da Lei, o que vemos por estes: "Eis a Lei da Minchah" (Lev. 6, 11 e segs.) "Eis a Lei para o Holocausto, para a Minchah, para os sacrifícios do pecado e do delito, para as consagrações" (Lev. 7, 37). "Eis a Lei da Bêsta e do Pássaro" (Lev. 11, 46 e segs.). "Eis a Lei da que dá à luz, para o filho ou para a. filha" (Lev. 12, 7). "Eis a Lei da lepra" (Lev. 13, 59; 16, 2, 32, 54, 57). "Eis a Lei do que é afetado de fluxo" (Lev. 15, 32). "Eis a Lei do, ciúme" (Num. 5, 29, 30). "Eis a Lei do nazireado" (Num. 6, 13, 21). "Eis a Lei da purificação" (Num. 19, 14). "Eis a Lei sobre a vaca russa" (Num. 19, 2). "Eis a Lei para o Rei" (Deut. 17, 15-19); mais ainda "todo Livro de Moisés é chamado a Lei e o Livro da Lei" (Deut. 31, 9, 11, 12, 26; e também em Lucas 11, 22; XXIV, 44; João 1, 46; VII, 22, 23; VIII, 5). A isso acrescentou-se também que se viu em Paulo que é preciso viver segundo a Lei do Decálogo, e que ela é cumprida pela Caridade (Rom. 13, 8~11); e que êle diz "que há três cousas, a Fé, a. Esperança e a Caridade, e a maior das três é a Caridade" (I Cor. 13, 13), e assim não é a Fé. Eles disseram que era para este assunto que tinham sido convocados. Mas para não os perturbar, eu me retirei; e então foram vistos novamente de longe como, Bodes, e ora como deitados, e ora como de pé, mas eles se afastavam do rebanho das ovelhas; apareciam como deitados quando deliberavam, e como em pé quando concluíam; mantive os olhos fixos sobre seus Chifres, e fiquei admirado de ver que os Chifres sobre suas testas apareciam ora voltados para diante e para cima, ora curvados para traz em direção ao dorso, e enfim inteiramente recurvados para trás; e então eles se voltaram subitamente para o rebanho das Ovelhas, mas apareciam sempre como, Bodes; por isso me aproximei de novo, e lhes perguntei onde estavam. Responderam que haviam concluído que a Fé só produz os Bens da Caridade, como a Arvore produz Frutos; mas então, um trovão se fêz ouvir, e o raio foi visto no alto; e pouco depois um Anjo apareceu, ficando entre estes dois Rebanhos, e gritou ,para o Rebanho das ovelhas: "Não escuteis; eles não renunciaram à sua antiga Fé, que é que a Fé só justifica e salva, e que a Caridade atual nada faz absolutamente; a Fé também não é a Arvore, é o homem que é a Arvore; mas fazei penitência e voltai os olhos para o Senhor, e tereis a fé; a Fé antes disso não è uma Fé em que haja alguma cousa de vivo". Então os bodes, tendo os chifres recurvados para trás, quiseram se aproximar das Ovelhas; mas o Anjo que se mantinha entre eles dividiu as ,Ovelhas em dois Rebanhos, e disse às ovelhas da esquerda: "Juntai-vos aos Bodes; mas eu vos digo que virá um Lobo, que os arrebatará, e a vós com eles''. Mas depois que os dois Rebanhos de ovelhas tinham se separado, e que os da esquerda tinham ouvido as palavras ameaçadoras do Anjo, êles se encararam mutuamente e disseram: "Conferenciemos com nossos antigos companheiros". E então o Rebanho da esquerda se dirigiu ao Rebanho da direita, dizendo: "Por que vos separastes de nossos Pastores? A Fé e a Caridade não são um, como a Arvore e o Fruto são um? Com efeito a Árvore pelos ramos é continuada nos Frutos; arrancai do ramo alguma parte pela qual a árvore influi por continuidade no fruto, o fruto -não perecerá e com o fruto cada semente que poderia dar nascimento a uma outra Arvore? Perguntai a nossos Sacerdotes se não é assim". E então eles. o perguntaram, e os Sacerdotes olharam. para todos os lados em direção aos outros, que lhes fizeram ,sinal com os olhos para dizerem que aqueles tinham falado bem, e depois disso responderam: "Falastes bem; mas quanto ao que concerne à continuação da fé nas boas obras, como da árvore nos frutos, conhecemos vários arcanos que não vêm a propósito expô-los aqui; no laço ou fio da Fé e da Caridade há vários pequenos nós que só nós, sacerdotes, podemos desatar". E então um dos sacerdotes, que estava entre as ovelhas da direita, se levantou e disse: "Eles vos responderam que a cousa é assim, mas aos seus dizem que ela não é assim, pois pensam de outro modo". Em conseqüência perguntaram: "Como pensam eles então? será que não pensam como ensinam". Êste sacerdote lhes disse: "Não, eles''. pensam que todo bem da caridade, que se chama boa obra, que é feito pelo homem para a salvação e a vida eterna, não é o bem na menor parte, pela razão de que o homem pela obra vinda dele quer se salvar a si mesmo, atribuindo-se a justiça e o mérito que não pertencem senão ao Senhor, e que é assim a respeito de toda boa obra, na qual o homem sente sua vontade; por isso eles afirmam que não há absolutamente conjunção alguma da fé e da caridade, e que mesmo a Fé não é re tida nem conservada pelas boas obras" - Mas os do rebanho da esquerda disseram: "Tu proferes mentiras contra eles; não pregam eles abertamente diante de nós a. caridade e suas Obras, que chamam obras da f é?" E o sacerdote respondeu: "Vós não compreendeis suas pregações, o homem do clero que as assiste, só êle entende e compreende; eles pensam unicamente em uma Caridade moral, e seus bens civis e políticos, que chamam bens da fé, e que não o são de modo algum, pois o ateu pode fazê-los semelhantemente e sob a mesma forma; também dizem eles unanimemente que ninguém é salvo pelas obras, e não o é senão pela fé só; ora, eles ilustram isso por comparações; dizem que a Arvore frutífera produz frutos; mas se o homem faz os bens para a salvação, como esta árvore produz frutos por continuidade, então êstes frutos são inteiramente podres e cheios de vermes; dizem também que a Cepa produz uvas, mas que se o homem fizesse bens espirituais, como a cepa faz uvas, êle faria uvas silvestres". Então perguntaram: "0 que são pois para eles os bens da Caridade ou as obras que são frutos da fé?" Respondeu: "Talvez sejam cousas imperceptíveis em alguma parte perto da fé, com a qual entretanto não são coerentes; são como a sombra que segue o homem por trás quando êle olha para o Sol, sombra que êle não nota a não ser que se volte; posso mesmo dizer que são como as caudas dos cavalos, que se corta hoje em muitos países, dizendo: Para que servem? Não servem para cousa alguma, se são deixadas no cavalo sujam-se facilmente". Ouvindo estas palavras, um dos que eram do rebanho esquerdo das ovelhas, disse com indignação: "Há certamente alguma conjunção, de outro modo como êstes bens poderiam ser chamados obras da fé? Talvez que os bens da Caridade sejam insinuados por Deus nas obras voluntárias do homem por algum influxo, assim por alguma afeição, aspiração, inspiração, incitação ou excitação da vontade, por alguma tácita percepção do pensamento, e daí por exortação, por contrição e assim pela consciência, e por conseguinte por obrigação (adactio), por obediência ao Decálogo e à Palavra, como uma criancinha ou como um sábio, ou por algum outro meio semelhante a estes; de outro modo como poderiam ser chamados frutos da fé?" 0 Sacerdote respondeu: "Não, e se dizem que isso se faz por alguma cousa semelhante, eles o misturam sempre em seus discursos com palavras donde resulta que não é senão pela Fé; alguns entretanto dão semelhantes razões, mas como sinais da fé, e não como ligações da Fé com a Caridade; entretanto há alguns que imaginaram urna conjunção pela Palavra". E então disseram: "A conjunção não existiria assim?" Mas ele respondeu: "Eles não o pensam; mas pensam que é somente pela audição da Palavra, pois sustentam que todo racional e todo voluntário do homem nas coisas da fé são impuros e meritórios, porque nas cousas espirituais o homem não pode compreender, querer, operar, cooperar mais do que um toco". Mas um dos membros, tendo ouvido que se acredita que o homem é tal em tôdas as coisas que pertencem à fé e à salvação, disse: "Ouvi alguém que dizia: Plantei uma vinha, agora beberei vinho até à embriagues; mas um outro lhe disse: Não beberás esse vinho em teu copo com o auxílio de tua mão? Ele disse: Não, mas em um copo invisível com o auxílio de uma mão invisível. E o outro respondeu: Certamente, então, tu não te embriagarás". Em seguida êste mesmo homem disse: "Mas escutai-me, eu vos peço, digo-vos: Bebei vinho da Palavra compreendida; não sabeis que o Senhor é a Palavra? Se portanto fazeis o bem pela Palavra, não o fazeis pelo Senhor, por Sua boca e por Sua vontade? E se então dirigis os vossos olhos para o Senhor, Êle mesmo também vos conduzirá e vos ensinará; e vós fareis o bem por vós mesmos segundo o Senhor; aquele que faz alguma coisa de acordo com um Rei, de acordo com a boca ou a ordem desse Rei, pode dizer: Faço isso por minha boca ou por minha ordem e por minha vontade?" Depois se voltou para o Clero e disse: "Ministros de Deus, não seduzais o Rebanho". A estas palavras a maior parte do Rebanho da esquerda se retirou, e foi juntar-se ao Rebanho da direita. Alguns do clero disseram mesmo: "Acabamos de ouvir o que não tínhamos ouvido antes; somos Pastores, não abandonaremos as Ovelhas". E se retiraram com elas; e disseram: ''Este homem falou segundo a verdadeira Palavra; quem é que pode dizer, quando o faz de acordo muni a Palavra, assim de acordo com o Senhor, pela boca e a vontade do Senhor: Faço por mim? Quem é que diz, quando o faz de acordo com o Rei, pela boca e a vontade do Rei: Faço por mim? Nós, agora, vemos a Divina Providência, porque não se podia achar a conjunção da Fé e das boas obras, que foi reconhecida pela Sociedade Eclesiástica; ela não podia ser achada, porque não podia existir, pois esta não era a Fé no Senhor que é a Palavra, e por conseguinte não era tampouco a Fé segundo a Palavra". Mas os outros Sacerdotes que eram do Rebanho dos Bodes foram embora; e agitavam seus bonés e gritavam: "A Fé Só, a Fé Só, viverá sempre".