- Quanto ao que concerne à divisão do homem natural, é uma divisão efetiva tanto da vontade como do pensamento nesse homem, pois toda ação do homem parte de sua vontade, e toda linguagem parte de seu pensamento, por isso uma outra vontade foi formada pelo homem acima da primeira, semelhantemente um outro pensamento, mas entretanto esta vontade e este pensamento constituem o homem natural; esta vontade que é formada pelo homem pode ser chamada vontade corporal, porque leva o corpo a se mover por gestos morais, e êste pensamento pode ser chamado pensamento pulmonar, porque leva a linguagem e os lábios a pronunciar palavras que pertencem ao entendimento. Este pensamento e esta vontade podem ser comparados em conjunto ao liber que é interiormente ligado à casca da árvore, e à membrana que é ligada à casca do ovo; dentro está o homem interno natural; êle é mau, pode ser comparado à madeira de uma árvore podre em torno da qual a casca e o liber parecem em bom estado, e também a um ovo; estragado dentro de uma casca branca. Mas vai ser dito qual é o homem interno natural de nascença: Sua vontade se inclina para os males de todo gênero, e por conseguinte seu pensamento se inclina para os falsos também de todo gênero; é portanto êste homem interno que deve ser regenerado, pois se não for regenerado, não será senão ódio contra tôdas as cousas que pertencem à caridade, e arrebatamento contra tôdas as que pertencem à fé. Segue-se dai que o homem interno natural deve ser regenerado primeiro, e por êle o homem externo, pois isto é conforme a ordem, mas regenerar o interno pelo externo é contra a ordem; com efeito, o interno é como a alma no externo, não somente no comum, mas também em todo particular, por conseguinte em cada uma das palavras que o homem pronuncia; êle aí está sem que o saiba; daí vem que os Anjos percebem por uma única ação do homem qual é a sua vontade, e por uma única de suas palavras qual ,é o seu pensamento, quer seja infernal, quer seja celeste; por aí conhecem o homem todo, pelo som percebem a afeição de seu pensamento, e pelo gesto ou a forma da ação percebem o amor de sua vontade; percebem esta afeição e êste amor, ainda que contrafaça o Cristão e o cidadão moral.