- Acrescente-se a isso, que a imputação de hoje tira do homem todo poder proveniente de algum livre-arbítrio nas coisas espirituais, e não lhe deixa mesmo o bastante para poder extinguir o fogo que se acendeu em suas roupas, e preservar êle o seu corpo, ou apagar com água a sua casa em fogo e arrancar dela a sua família, quando entretanto a Palavra, desde o começo até ao fim, ensina que cada um deve fugir dos males porque são do diabo e vêm do diabo, e fazer os bens porque são de Deus e vêm de Deus, e que deve fazê-los por si mesmo, o Senhor operando. Mas o poder de fazer assim, a Imputação de hoje o proscreveu como mortal para a fé e por conseguinte para a salvação; e isso, para que nada do homem entre na Imputação, nem por conseqüência no mérito do Christo; êste dogma estabelecido, resultou dele esta máxima satânica, de que há para o homem uma impotência absoluta nas cousas espirituais, o que é como se disséssemos: "Anda, embora não tenhas pés, nem mesmo um só; lava-te, embora as tuas duas mãos tenham sido cortadas"; ou "faz o bem, mas dorme", ou "alimenta-te, mas sem língua". E' ainda como se fosse dada ao homem uma vontade que não fosse uma vontade; não dirá êle: "Não posso mais do que a estátua de sal da mulher de Loth, nem mais que Dagon o Deus dos Filisteus, quando em seu templo foi introduzida a Arca de Deus; temo que, como lhe aconteceu, a minha cabeça e as minhas mãos sejam separadas do meu corpo e jogadas sobre o soalho" (I Sam. V, 4); nem mais do que Belzebu o Deus de Ekron que segundo a significação de seu nome não pode enxotar as moscas? Que se creia hoje nessa impotência nas cousas espirituais, vê-se pelos Extratos dados no Capítulo sobre o Livre-Arbítrio, n. 464.