- Quanto ao que se refere à primeira parte desta dupla Imputação concernente à Salvação do homem, isto é, a Impu-tação do mérito do Christo arbitrariamente feita, e a Imputação da salvação que dai resulta, os dogmatistas são de opiniões dife-rentes; alguns dizem que esta Imputação é absoluta por um po-der livre, e se faz para aqueles cuja forma externa ou a forma interna agrada; outros dizem que a Imputação se faz pela pres-ciência para aqueles em quem a graça foi infundida e a quem esta fé pode ser aplicada; mas entretanto estas duas opiniões vi-sam o mesmo fim, e são como os dois olhos que têm por objeto uma mesma pedra, ou como os dois ouvidos que têm por objeto um mesmo canto; à primeira vista parece que elas se separam mutuamente, acontece que entretanto no fim elas se conjugam e estão combinadas para enganar; pois quando de uma parte e de outra se estabelece uma completa impotência nas cousas es-pirituais, e se exclui da fé tudo o que pertence ao homem, segue- se que esta graça receptora da fé, infundida ou por poder livre, ou pela presciência, é uma semelhante eleição; pois se esta graça, que se chama graciosa, fosse universal, a ela se juntaria uma aplicação do homem por algum poder próprio, a qual entretanto é rejeitada como uma lepra. Daí vem que ninguém sabe se esta fé lhe foi dada pela graça; não o sabe mais do que um toco ou uma pedra, aos quais se compara quando ela é infundida; pois não existe sinal que seja testemunha disso, quando a caridade, a piedade, o estudo de uma nova vida, e a livre faculdade de fazer o bem como o mal, são negadas ao homem; os sinais que se diz serem testemunhas desta fé no homem são todos ridí-culos, e não diferem dos augúrios dos antigos pelo vôo dos pás-saros, ou as predições dos astrólogos pelos astros, ou as dos tira-dores de cartas. Quanto à justiça imputada do Senhor, que é introduzida no homem eleito ao mesmo tempo que a fé à qual se dá o nome desta justiça, os sinais que a seguem são do mesmo gênero e ainda mais ridículos.