- A este Capítulo acrescentarei êstes Memoráveis. Primeiro Memorável (N. 70). Quando depois de ter assistido ao Jogo da Sabedoria, voltei para casa, vi no caminho um Anjo com vestimenta da cor do jacinto; êle colocou-se a meu lado, e disse: "Vejo que saís do Jogo da Sabedoria, e que estás encantado com o que ouviste lá; e como percebo que não estás plenamente neste Mundo, porque estás ao mesmo tempo no Mundo natural, e que por conseqüência não conheces nossos Ginásios Olímpicos, onde nossos antigos Sábios se reúnem, e aprendem com os que chegam do teu Mundo as mudanças e sucessões de estado que a Sabedoria sofreu e sofre ainda; se queres, conduzir-te-ei a um lugar onde habitam vários desses antigos Sábios e vários de seus filhos, isto é, de seus discípulos". E êle me conduziu para os confins entre o Setentrião e o Oriente, e quando eu olhava para lá, de um lugar elevado, eis que vi uma cidade, e a um dos seus lados duas Colinas; e, a mais próxima da cidade, menos elevada que a outra; e me disse: "Esta cidade é chamada Atenas; a Colina menos alta, Parnaso; e a mais alta, Helicon; são chamadas assim, porque na cidade moram antigos sábios da Grécia, como Pitágoras, Sócrates, Aristipo, Xenofonte, com seus discípulos e os de sua escola". E me informei de Platão e de Aristóteles; disse-me que eles (a seus sectários moravam em uma outra região, porque tinham ensinado cousas racionais que pertencem ao entendimento, enquanto que os outros tinham ensinado as cousas morais que pertencem à vida. Disse-me que da cidade de Atenas são freqüentemente enviados Espíritos estudiosos aos letrados dentre os Cristãos, para que relatem o que se pensa hoje a respeito de Deus, da Criação do Universo, da Imortalidade da alma, do estado do homem comparado ao das bêstas, e de outros assuntos que pertencem à sabedoria interior; e disse-me que hoje o arauto tinha anunciado uma assembléia, o que era um índice de que os enviados tinham encontrado novos recém-vindos da terra, de quem tinham sabido cousas curiosas; e vimos um grande número de espíritos que saíam da cidade e dos arredores, alguns tendo coroas de louro na cabeça, outros tendo palmas nas mãos, outros com livros debaixo do braço, e outros com penas metidas no cabelo da têmpora esquerda. Nós nos misturamos com eles, e subimos juntos; e eis que sobre a Colina havia um Palácio octogonal, que chamavam Palladium, e entramos; e eis que havia lá oito redutos hexagonais, em cada um dos quais havia uma pequena Biblioteca, o também uma Mesa, junto das quais tomavam assento os que tinham coroas de louro; e no Palladium mesmo vi bancos de pedra cinzelada sobre os quais os outros se colocaram; e então à esquerda se abriu uma porta, pela qual os dois recém-vindos da terra foram introduzidos, e depois de terem sido saudados, um dos que estavam coroados de louro lhes perguntou: "0 que há de novo na terra?" Eles disseram: "Há de novo que se encontrou nos bosques homens que são como bêstas, ou bêstas que são como homens; mas por sua face e seu corpo, conheceu-se que tinham nascido homens, e tinham estado perdidos ou abandonados nos bosques na idade de dois ou três anos; dizem que não podem exprimir pelo som cousa alguma do que pensam, nem aprender a articular o som de palavra alguma; que não sabem tampouco discernir, como o sabem as bestas, o alimento que lhes convém, e põem na boca as cousas tanto sãs como malsãs que encontram nos bosques; contam-se ainda várias outras particularidades; daí alguns Eruditos entre nós conjecturaram e alguns outros concluíram várias cousas sobre o estado dos homens comparado com o das bestas". A estas palavras, alguns dos antigos Sábios perguntaram o que tinham conjecturado e concluído os dois recém vindos responderam: "Muitas cousas, que entretanto podem se reduzir ao que segue: 1) Que o homem, por sua natureza, e também por seu nascimento, é mais estúpido e por conseguinte mais vil que a bêsta, e que assim se torna igualmente se não é instruído; 2) Que ele pode ser instruído, porque aprendeu a produzir sons articulados, e por conseqüência a falar, e que por isso começou a manifestar pensamentos, e isso sucessivamente cada vez mais, ao ponto de chegar a exprimir as leis da sociedade, das quais entretanto muitas foram gravadas nas bêstas desde o nascimento; 3) Que as bestas têm a racionalidade do mesmo modo que os homens; 4) Se portanto as bestas pudessem falar, raciocinariam sobre cada cousa tão sutilmente como os homens; o que o indica, é que elas pensam pela razão e a prudência tão bem como o homem; 5) Que o entendimento é unicamente uma modificação da luz do sol com a cooperação do calor, por meio do éter, desorte que é unicamente uma atividade da natureza interior, e que esta atividade pode ser exaltada ao ponto de se mostrar como sabedoria; 6) Que é por conseqüência ridículo ,crer que o homem depois da morte, vive mais do que a bêsta, a não ser que talvez durante alguns dias depois do passamento, ele possa, pela exalação da vida do corpo, aparecer como nimbo sob a forma de um fantasma, antes de ser dissipado na natureza, pouco mais ou menos como um galho queimado, retirado das cinzas, se faz ver sob a semelhança de sua forma; 7) Que em conseqüência a Religião, que ensina a vida depois da morte, é uma pura invenção, a fim de que os simples sejam mantidos interiormente ligados pelas leis religiosas, como o são exteriormente pelas leis civis". Acrescentaram que são os homens puramente engenhosos que raciocinam assim, e não os homens inteligentes; e lhes perguntaram: "Corno raciocinam os Inteligentes?" Disseram que não os tinham ouvido, mas que têm deles esta opinião. Depois desta exposição, todos os que estavam junto às Mesas exclamaram: "Oh! Que tempos hoje na Terra! Ai! Que vicissitudes a Sabedoria sofreu! o Sol está posto; e, sob Ex terra, está diametralmente oposto ao meio-dia. Por aqueles que foram abandonados nos bosques e achados, quem é que não pode saber que semelhante é o homem não instruído? Não é êle segundo a instrução que recebe? Não nasce na ignorância mais do que as bêstas? Não deve êle aprender a caminhar e a falar? Se não aprendesse a falar, exprimiria êle por sons alguma cousa do pensamento? Todo homem não é segundo o que lhe foi ensinado; insensato, se o foi segundo os falsos, e sábio, se o foi segundo os veros; e insensato pelos falsos com a fantasia de ser mais sábio do que os que são sábios pelos veros? Não há homens loucos e extravagantes, que não são mais homens do que os que foram achados nos bosques? Os que são privados da memória não lhes são semelhantes? Por nós, concluímos de tudo isso que o homem sem instrução não é nem homem nem besta, mas é uma forma que pode receber em si o que faz o homem, e que assim não é homem, mas se torna homem; e que o homem nasce uma tal forma, para que seja um órgão recipiente da vida que procede de Deus, para que seja um ser no qual Deus possa introduzir todo bem, e pela união com Ele torná-lo feliz pela eternidade. Percebemos por vosso relatório que a sabedoria hoje está de tal modo extinta ou transformada em loucura, que não se sabe absolutamente nada do estado da vida dos homens em relação com o estado da vida das bêstas; daí vem que não se conhece tampouco o estado da vida do homem depois da morte; quanto aos que podem conhecê-lo, mas não o querem, e por conseguinte o negam, como fazem muitos dos vossos Cristãos, podemos assimilá-los aos que foram encontrados nos bosques, não que se tenham tornado assim estúpidos por privação de instrução, mas porque eles mesmos se tornaram assim estúpidos pelas ilusões dos sentidos, que são as trevas das verdades". Mas então um dos assistentes, que se mantinha de pé no meio do Palladium, tendo na mão uma palma, disse: "Desenvolvei, eu vos peço, este arcano: Como o homem criado em forma de Deus, pôde ser mudado em forma do Diabo? Sei que os Anjos do Céu são formas de Deus, e que os anjos do inferno são formas do diabo; e estas duas formas são opostas entre si; estas são Loucuras, aquelas Sabedorias; dizei portanto como o homem, criado forma de Deus, pôde passar do dia para uma tal noite, que tenha chegado a negar a Deus e a vida eterna?" A esta questão os Mestres responderam nesta ordem, primeiro os Pitagorianos, depois os Socráticos, e em seguida os outros; mas entre eles havia um Platoniano, este falou por último, e sua opinião prevaleceu; consistia nisto: "Os homens da idade de Saturno ou do século de ouro, sabiam e reconheciam que eram formas recipientes da vida que procede de Deus, e por conseqüência a sabedoria estava gravada em suas almas e em seus corações; e por conseqüência pela luz do vero viam o vero, e pelos veros percebiam o bem pelo prazer do amor do bem; mas à medida que os homens, nos séculos seguintes, se afastavam do reconhecimento de que todo vero da sabedoria, e por conseguinte todo bem do amor neles, influía de Deus, foram deixando de ser habitáculos de Deus, e então cessou também sua conversação com Deus, e sua consorciação com os Anjos; pois os interiores de sua mente, de sua direção que tinha sido elevada para cima para Deus por Deus, foram desviados para uma direção oblíqua cada vez mais para fora em direção ao Mundo, e assim para Deus por Deus por intermédio do Mundo, e por fim foram voltados para a direção oposta que é em baixo para si mesmo; e como Deus não pode ser olhado pelo homem interiormente revirado e assim voltado para um sentido oposto, os homens se separaram de Deus, e se tornaram formas do inferno, e por conseqüência do Diabo. Segue-se daí que, nas primeiras Idades, os homens reconheciam de coração e de alma que todo bem do amor, e por conseguinte todo vero da sabedoria, lhes vinha de Deus e pertencia a Deus neles, e que assim eram em si mesmos puros receptáculos da vida procedendo de Deus, o que fêz com que fossem chamados Imagens de Deus, Filhos de Deu, e nascidos de Deus; mas que, nas idades que se seguiram, eles reconheceram isso não de coração nem de alma, mas por uma certa fé persuasiva, e em seguida por uma fé histórica, e por fim unicamente de boca; e reconhecer isso somente de boca; é não reconhecê-lo; mais ainda, é negá-lo de coração. Por isso pode-se ver qual é hoje a sabedoria sobre a terra entre os Cristãos, pois que êstes, ainda que possam pela revelação escrita ser inspirados de Deus, não conhecem a diferença que há entre o homem e a bata; e por conseguinte muitos crêem que se o homem vive depois da morte, a besta também deve viver, ou que se a bêsta não vive depois da morte, o homem também não deve viver; a nossa luz espiritual, que ilumina a vista da mente, não se torna obscuridade neles; e sua luz natural, que ilumina somente a vista do corpo, não se tornou para eles uma luz brilhante?" Depois disso, voltaram-se todos para os dois recém-vindos, e lhes agradeceram por terem vindo ao meio dêles e pela narração que fizeram, e lhes pediram para relatar a seus irmãos o que tinham acabado de ouvir; e os recém-vindos responderam que confirmariam os seus nesta verdade, que quanto mais se atribui ao Senhor e não a si todo bem da caridade e todo vero da fé, tanto mais se é homem e se torna Anjo do Céu.