- Segundo Memorável (N. 71). Algumas semanas depois ouvi uma voz do Céu que me disse: "Eis de novo uma Assembléia no Parnaso; aproxima-te, nós te mostraremos o caminho''. Aproximei-me, e quando cheguei perto, vi sobre o Helicon alguém segurando uma trombeta com a qual anunciava e indicava a Assembléia. E vi, como precedentemente, espíritos subir da cidade de Atenas e dos arredores, e no meio deles, três Noviços do Mundo; todos os três eram, dentre os Cristãos, um Sacerdote, o outro Político, e o terceiro Filósofo; eram entretidos em caminho por uma conversação sobre diversos assuntos, principalmente sobre os Sábios antigos que eram designados por seus nomes; eles perguntaram se os veriam; responderam-lhes que os veriam, e que, se quisessem, eles lhes apresentariam saudações, visto como eram afáveis. Pediram informações sobre Demóstenes, sobre Diógenes e sobre Epícuro. Disseram-lhes: "Demóstenes não está aqui, está perto de Platão; Diógenes com os de sua escola, mora sob o Helicon, por esta razão, que ele considera as cousas mundanas como nada, e só se ocupa das coisas celestes; Epícuro habita no ocidente, sobre os confins, e não entra em nosso meio, porque nós distinguimos entre as afeições boas e as afeições más, e dizemos que as afeições boas estão com a sabedoria, e as afeições más contra a sabedoria". Quando subiram a colina do Parnaso, alguns guardas trouxeram água da fonte em vasos de cristal, e disseram: "E' a água da fonte que, segundo as narrações da antiguidade, o cavalo Pégaso tinha feito brotar ferindo a terra com o casco de sua pata, e que foi em seguida consagrada 'às nove Virgens; ora, pelo Cavalo alado, Pégaso, designavam o Entendimento do vero pelo qual existe a sabedoria; pelo casco de sua pata, as experiências pelas quais se adquire a inteligência natural; e pelas nove Virgens, os conhecimentos e as ciências de todo gênero; estas cousas hoje são chamadas fábulas, mas eram correspondências, pelas quais se exprimiam os homens da antiguidade". Os que acompanhavam os três recém-vindos lhes disseram: "Que isto não vos admire, os guardas foram instruídos para falar assim; e nós, por beber da água da fonte entendemos ser instruído sobre os veros, e os bens por meio dos veros, e também ter a sabedoria". Em seguida entraram no Palladium, e com eles os três noviços do Mundo, o Sacerdote, o Político e o Filósofo; e então os que estavam coroados de louro, e sentados junto das mesas, perguntaram: "Que há de novo da terra?" E eles responderam: "Há de novo, que um homem pretende conversar com os Anjos, e ter a vista aberta para o Mundo espiritual como a tem aberta para o Mundo natural; e relata várias cousas, entre outras estas: Que o homem vive homem depois da morte, como viveu precedentemente no Afundo; que êle vê, ouve, fala como antes no Afundo; que tem fome e sede, come e bebe como antes no Mundo; que goza da delícia conjugal como antes no Mundo; que dorme e se acorda como antes no Mundo; que lá há terras e lagos, montanhas e colinas, planícies e vales, fontes e rios, jardins e bosques; e que também há lá palácios e casas, cidades e vilas, como no Mundo natural; que há também escrituras e livros, empregos e comércios, pedras preciosas, ouro e prata; que em uma palavra, há lá, em geral e em particular, tôdas as cousas que existem na terra; e que, nos Céus, elas são infinitamente mais perfeitas, com a única diferença que tôdas as coisas que existem no Mundo espiritual são de origem espiritual e por conseguinte espirituais, porque procedem do Sol espiritual que é puro Amor, enquanto que tôdas as cousas que existem no Mundo natural são de origem natural e por conseguinte naturais ou materiais, porque procedem do Sol natural que é puro fogo; que enfim o homem depois da morte é perfeitamente homem, e mesmo mais perfeitamente homem que antes no Mundo, pois antes no Mundo ele estava em um corpo natural, enquanto que no Mundo espiritual está em um corpo espiritual". Depois que assim falaram, os Sábios antigos lhes perguntaram o que se pensa disso sobre a terra. Os três disseram: "Quanto a nós, sabemos que isso é verdade, pois que estamos aqui, e visitamos tudo e tudo examinamos; diremos portanto como se falou e como se raciocinou sobre a terra". E então o Sacerdote disse: "Logo que os que são da nossa ordem ouviram essas narrações, eles as trataram de visões, e depois de ficções,em seguida disseram que êle tinha visto fantasmas, e por fim hesitaram, e disseram: Crede, se quiserdes; para nós, até ao presente, temos ensinado que o homem, depois da morte, não estará em um corpo antes do dia do julgamento final". E perguntou-se ao sacerdote se não havia entre eles alguns homens inteligentes que pudessem lhes demonstrar e lhes fazer reconhecer esta verdade, que o homem vive homem depois da morte. 0 Sacerdote respondeu: "Há quem demonstre, mas eles não se convencem; os que a demonstram dizem que é contra a sã razão acreditar que o homem não vive antes do julgamento final, e que a Alma esperando esse dia está sem corpo; o que é então a alma, e onde está ela durante esse tempo? Será um sopro ou um vento que esvoaça no ar, ou um ser encerrado no centro da terra? Onde está sua Alguma parte (Pu)? Será que as almas de Adão e Eva, e de todos que viveram depois dêles, há mais de seis mil anos ou sessenta séculos, esvoaçam ainda no universo, ou estão mantidas encerradas no centro da terra, e aguardam o Julgamento Final? 0 que há de mais penoso e de mais miserável do que uma tal espera? A sua sorte não seria comparável à sorte dos que estão na prisão com ferros nas mãos e nos pés? Se tal fosse a sorte que espera o homem depois da morte, não seria melhor nascer asno do que nascer homem? Não é também contra a razão acreditar que a alma possa ser de novo revestida com seu corpo? Não foi o corpo comido pelos vermes, pelos ratos, pelos peixes? E ossos queimados ao sol ou reduzidos a pó poderiam reentrar nesse novo corpo? Como matérias cadavéricas e infectas se reuniriam e se uniriam à alma? A estas pergunta, os que os ouvem nada respondem de razoável, mas ficam presos à sua fé, dizendo: Nós submetemos a razão à obediência da fé. Quanto à reunião de todos os mortos saindo dos túmulos no dia do julgamento final, dizem: Isso é obra da Onipotência; e quando mencionam a Onipotência e a Fé, a razão é banida; e posso dizer que então a sã razão é como nada, e para alguns dêles como um espectro; e podem mesmo dizer à sã razão: "Tu desarrazoas". A estas palavras, os Sábios da Grécia disseram: "Estes paradoxos não se dissipam por si mesmos como contraditórios? E entretanto hoje no Mundo eles não podem ser dissipados pela sã razão; que se pode crer de mais paradoxal do que o que é contado sÔbre o Julgamento Final, que o Universo perecerá, e que então as estrelas do Céu cairão sÔbre a terra, que é menor do que as estrelas; e que os corpos dos homens, então, ou cadáveres ou múmias triturados pelos homens, ou reduzidos a nada, serão reunidos às suas almas? Nós, quando estávamos no Mundo, acreditávamos na imortalidade das almas dos homens, pela indução que a razão nos fornecia; e além disso designávamos para os bem-aventurados lugares que chamávamos Campos Elísios; e acreditávamos que estas almas eram efígies ou formas humanas, mas tênues porque eram espirituais". Depois de ter assim falado, eles se voltaram para o segundo recém-vindo, que no Mundo tinha sido político; êste confessou que não tinha acreditado na vida depois da morte, e que a respeito das cousas novas de que ouviu falar tinha pensado que eram ficções e invenções: "Meditando sobre esta vida futura, eu dizia: Como almas podem ser corpos? Tudo que pertence ao homem não está estendido morto no túmulo? Seu olho não está aí, como pode ele ver? Seu ouvido não está aí, como pode êle ouvir? De onde tiraria êle uma boca para falar? Se alguma cousa do homem vivesse depois da morte, seria outra cousa mais do que um espectro? Como um espectro pode comer e beber, e como pode gozar da delícia conjugal? De onde tiraria êle, roupas, uma casa, alimentos e o resto? E os espectros, que são efígies aéreas, aparecem como se existissem, e entretanto não existem. Eu tinha no Mundo êstes pensamentos e outros semelhantes sÔbre a vida do homem depois da morte; mas agora que tudo vi, e tudo toquei com as mãos, estou convencido pelos próprios sentidos que sou homem como no Mundo, a ponto de não saber outra cousa senão que vivo como vivia com a diferença que agora minha razão é mais sã; tenho tido freqüentemente vergonha de meus pensamentos anteriores". 0 Filósofo contou sobre ele mesmo cousas semelhantes, com esta diferença entretanto, que havia classificado estas novidades, que ouvia contar sobre a vida depois da morte, no número das opiniões e das hipóteses que tinha recolhido dos Antigos e dos Modernos. Os Sábios estavam estupefatos do que acabavam de ouvir; e os que eram da Escola de Sócrates disseram que, por estas Novidades da terra, percebiam que os interiores das Mentes humanas tinham sido sucessivamente fechados, e que agora no Mundo a fé do falso brilha como a verdade, e a extravagância do gênio como a sabedoria, e que a luz da sabedoria, depois dos tempos em que eles viveram no Mundo, se tinha abaixado dos interiores do Cérebro para a boca abaixo do nariz, onde esta luz se mostra diante dos olhos como rumor do lábio, e por conseguinte a linguagem da boca como sabedoria. Depois de ter ouvido estas mesmas coisas, um dos discípulos desta escola disse: "Quão estúpidas são hoje as mentes dos habitantes da terra! 0h! Se tivéssemos aqui Discípulos de Demócrito e de Heráclito, dos quais uns riem de tudo, e outros se lamentam por tudo, quantos risos e lamentações ouviríamos!" Esta sessão da Assembléia tendo sido levantada, deram aos três noviços da terra marcas de sua autoridade; eram lâminas de cobre sobre as quais alguns Hieróglifos tinham sido gravados; e os Noviços se retiraram com estas lâminas.