- Daí vem que toda Igreja formada pelos que vêem por confirmações se apresenta como se fosse a única a estar na luz, e como se tôdas as outras, que dela diferem, estivessem nas trevas; pois os que vêem por confirmações diferem pouco das corujas que vêem a luz na sombra da noite, e que durante o dia vêm o sol e seus raios como obscuridade; tal foi e tal é também hoje toda a Igreja que está nos falsos, quando por sua vez foi fundada por chefes que se consideravam a si mesmos como linces, e que fizeram da própria inteligência uma luz da manhã, e da Palavra uma luz da tarde. A Igreja Judaica, quando já tinha sido inteiramente devastada, o que aconteceu quando nosso Senhor veio ao Mundo, não exclamava ela em altas vozes pela boca de seus escribas e de seus doutores da lei, que tendo a Palavra, só ela estava na luz celeste? E entretanto eles crucificaram o Messias ou o Christo, que era a Palavra mesma, e o tudo em tudo que ela encerra. E que outra cousa clama a Igreja, que é entendida nos Profetas e no Apocalipse pela Babilônia? Não grita ela que é a Rainha e a Mãe de tôdas as Igrejas, e que tôdas as outras, que se retiraram, são filhas bastardas, que devem ser excomungadas? E se exprime assim embora tenha expulsado do Trono e do Altar o Senhor Salvador, e que se tenha posto em seu lugar toda Igreja, até a que é herética ao supremo grau, quando uma vez é recebida, não enche ela os países e as cidades deste grito, que só cia é ortodoxa e ecumênica, e que é ela que possui o Evangelho que o Anjo que voava no meio do Céu anunciou? (Apoc. 14, 6). E quem é que não ouve o vulgo fazer eco à voz dos chefes? Todos os do sínodo de Dordrecht não viram a Predestinação senão como uma Estrela caindo do Céu sobre suas Cabeças? E não cerraram eles em seus braços êste dogma, como os Filisteus ao ídolo de Dagon no tempo de Ebenezer em Asdod, e como os Gregos ao Palladium no templo de Minerva? Com efeito, chamaram o Palladium de religião, não sabendo que a estrela cadente é um meteoro de uma luz fantástica que, quando cai no cérebro, pode confirmar um falso qualquer, o que se faz por ilusões, ao ponto de se crer que seja uma luz verdadeira, e de se decretar que seja uma estrela fixa, e por fim se jure que é o astro dos astros. Quem é que fala com mais persuasão sobre a certeza da fantasia, do que o Naturalista-Ateu? Não escarnece êle de todo coração dos Divinos de Deus, dos Celestes do Céu, e dos Espirituais da Igreja? Qual é o Lunático que não crê que a sua loucura é a sabedoria, e que a sabedoria é a loucura? Quem é que pela vista do olho distingue a luz enganosa da madeira podre da luz da lua? Aquele que detesta os odores balsâmicos, como fazem as mulheres afetadas de uma moléstia uterina, não os repele de suas narinas, e não prefere a eles os odores fétidos? e assim por diante. Tudo isso é referido para servir de ilustração, a fim de que se saiba que pela luminosidade natural só, não se conhece, antes que a verdade brilhe do Céu em sua luz, que a Igreja chegou à sua consumação, isto é, que ela está absolutamente nos falsos; pois o falso não vê o vero, mas o vero vê o falso; e todo homem é tal, que pode ver e compreender o vero, quando o ouve; mas uma vez confirmado nos falsos, não pode introduzir o vero no entendimento de maneira que aí permaneça, porque o vero não encontra lugar algum, e se por ventura entra, a multidão de falsidades que aí estão reunidas o expulsa como heterogênio.