Texto
. ‘Será circuncidado [entre] vós’; que signifique a purificação, é o que se vê pela representação e pela significação da ‘circuncisão’, que é a purificação dos amores impuros, de que se tratou acima (n. 2039). Os que estão nos amores de si e do mundo nunca podem crer que estejam em amores tão impuros e corrompidos — como eles estão de fato —, porque há uma sorte de voluptuosidade e prazer que tem alguma coisa de atraente, de sedutor e de lisonjeador e que faz com que eles amem essa vida, a prefiram a qualquer outra vida e pensem assim que não há mal algum nela, pois tudo que favorece o amor de alguém e, portanto, à sua vida, ele crê que é um bem. Por conseguinte, também o racional dá o seu consentimento e sugere falsos que confirmam, que cegam ao ponto que não se vê de modo algum o que é o amor celeste, e que se o visse diria em seu coração que é alguma coisa lastimável, ou alguma coisa nula, ou alguma coisa semelhante a uma fantasia que mata o ânimo como na languidez.
[2] Mas que a vida do amor de si e do mundo, com seus deleites e seus prazeres, seja impura e corrompida, é o que pode ver todo aquele que deseja pensar a partir da faculdade racional de que foi dotado. É do amor de si que nascem todos os males que destroem a sociedade civil; desse amor, como de uma nascente impura, surgem todos os ódios, todas as vinganças, todas as crueldades e até todos os adultérios; porque aquele que ama a si despreza, censura ou odeia todos os outros que não o servem ou que não lhe prestam homenagem, ou que não lhe são favoráveis; e quando ele tem ódio, ele só respira vinganças e crueldades, e isso, na proporção em que ele ama a si próprio; assim, esse amor é destruidor da sociedade e do gênero humano. Que esse amor seja tal, veja-se também pelo que foi dito sobre o mesmo na Primeira Parte (n. 693, 694, 760, 1307, 1308, 1321, 1506, 1594, 1691, 1862). Que o amor de si, na outra vida, seja muitíssimo impuro e diametralmente oposto ao amor mútuo no qual consiste o céu, é também o que, pela Divina Misericórdia do Senhor, se dirá na continuação.
[3] E como desse amor nascem os ódios, as vinganças, as crueldades e os adultérios, é ele que produz tudo que se chama pecado, crime, abominação e profanação. Por isso, quando esse amor está no racional de um homem e nas cobiças, nas fantasias de seu homem externo, o influxo do amor celeste procedente do Senhor é continuamente repelido, per-vertido e poluído; é como um excremento fétido que dissipa e, ao mesmo tempo, corrompe todo cheiro suave; é como um objeto que muda em cores horrendas e negras os raios que influem continuamente da luz; é também como um tigre e uma serpente que desdenham as carícias e matam por sua mordedura e por seu veneno os que lhes dão de comer; ou como um homem facinoroso que muda em blasfêmias e em malícias as melhores intenções dos outros e os seus próprios benefícios. Daí é evidente que esses amores, a saber, o amor de si e o amor do mundo, são o que é representado e significado pelos ‘prepúcios’ que devem ser cortados.