Texto
. ‘Olharam para as faces de Sodoma’; que signifique o estado do gênero humano, vê-se pela significação de ‘olhar para as faces’, e, aqui, ‘para as faces de Sodoma’. As ‘faces’ significam todos os interiores do homem, tanto maus como bons, pela razão que eles se manifestam pela face, como se mostrou na Primeira Parte (n. 358). Aqui, pois, porque se aplicam a Sodoma, as faces significam os males interiores pertencentes ao amor de si, males que, em geral, são designados por Sodoma, como se verá claramente no que vai seguir. Que os males mais abomináveis de todos derivem a sua origem do amor de si, é porque o amor de si é destruidor da sociedade humana, como se disse (n. 2045), e destruidor da sociedade celeste (n. 2057), e como é por isso que se conhece a perversidade do gênero humano, é pelas ‘faces de Sodoma’ que é aqui significado o estado do gênero humano.
[2] Mostrou-se, além disso, em diferentes lugares da Primeira Parte, qual é o amor de si, a saber, que ele é absolutamente contrário à ordem na qual o homem foi criado. Foi dado ao homem, mais do que às bestas, um racional, a fim de que cada um queira fazer o bem e faça o bem a outrem, tanto no particular como no geral. É essa a ordem na qual o homem foi criado, por conseguinte, é o amor a Deus e o amor para com o próximo que deveriam ser a vida do homem, [vida] pela qual ele seria distinto dos brutos animais. É também essa a ordem do céu na qual o homem deveria estar quando vive no mundo; assim ele estaria no Reino do Senhor e passaria para esse Reino depois de ser rejeitado o corpo que lhe serviu na terra, e lá ele se elevaria a um estado celeste continuamente mais perfeito.
[3] Mas o amor de si é a coisa principal e mesmo a única que destrói isso; o amor do mundo não o destrói tanto, porque esse amor é, na verdade, diametralmente oposto às coisas espirituais da fé, mas o amor de si é diametralmente oposto às coisas celestes do amor. Com efeito, quem ama a si não ama a nenhum outro, mas procura destruir todos que não o honram, e ele não quer e não faz bem senão ao que está nele ou que ele pode levar a estar nele como algo inoculado em suas cobiças e fantasias. Daí é evidente que do amor de si surgem todos os ódios, todas as vinganças e todas as crueldades, todas as dissimulações infames e todas as fraudes, por conseguinte, todas as abominações contra a ordem da sociedade humana e contra a ordem da sociedade celeste.
[4] Ainda mais, o amor de si é tão abominável que, quando seus vínculos são afrouxados, isto é, quando ele tem a faculdade de se estender, ele vai tão longe, mesmo com os que são de uma condição inferior [infimae sortis], que não só ele quer dominar sobre seus próximos e sobre seus vizinhos, como até o universo, e até o Divino Supremo mesmo. De fato, o homem ignora isto, porque, sendo mantido nos vínculos, isto não lhe é assim conhecido; mas, como se disse, tanto quanto esses vínculos são afrouxados, outro tanto ele se arremessa. É o que se me deu conhecer na outra vida por numerosas experiências. Como isso está oculto no amor de si, os que estão nesse amor sem ter os vínculos da consciência também têm, mais do que todos os outros, ódio contra o Senhor, por conseguinte, contra todos os veros da fé, porque esses veros são as leis mesmas da ordem no Reino do Senhor. Tais indivíduos desprezam esses veros a ponto de os terem como abominações, o que também se manifesta em público na outra vida. Esse amor é também a cabeça da serpente que a ‘semente de mulher’, isto é, o Senhor, esmaga debaixo de Seus pés (n. 257).
[5] Contudo, o amor de si não é sempre o que, na forma externa, aparece como orgulho e como soberba, porque tais [homens] podem às vezes ter caridade para com o próximo. Com efeito, há homens que nascem com um tal externo e há outros que o adquirem na idade da meninice, mas depois ele é subjugado, permanecendo sempre um externo; mas aqueles em que reina o amor de si são os que, comparando os outros a si mesmos, os desprezam e os consideram como nada e não se importam com o bem comum, a não ser que eles tenham nisso algum interesse e que sejam, por assim dizer, eles mesmos esse bem comum; são principalmente eles os que têm ódio contra todas as pessoas das quais eles não recebem favores nem serviços, eles as perseguem e tanto quanto o podem, as despojam de suas propriedades, de sua honra, de sua reputação, até da vida; os que têm um tal caráter [animo], estes sabem que estão mais do que os outros no amor de si.