Texto
. Que ‘serão abençoadas nele todas as nações da terra’ signifique que pelo Senhor todos que estão na caridade serão salvos, é isso evidente pela significação de ‘ser abençoado’, que é ser dotado de todos os bens que são de origem celeste (n. 981, 1096, 1420, 1422). Os que recebem a dádiva dos bens de origem celeste, isto é, dos bens celestes e dos bens espirituais de que acabamos de falar (n. 2227), são também dotados da salvação eterna, isto é, são salvos. Por ‘todas as nações da terra’ entende-se, no sentido interno, os que estão nos bens do amor e da caridade, como se vê pela significação de ‘nação’, que é o bem (n. 1159, 1258, 1259, 1260, 1416, 1849). Qualquer um pode ver que todas as nações da terra não significam todos que estão na superfície do globo, pois há muitos dentre esses que não são salvos, mas significam somente os que estão na caridade, isto é, que adquiriram a vida da caridade.
[2] Para que ninguém ignore o que se dá com a salvação dos homens depois da morte, deve-se dizer a respeito umas poucas palavras: Há muitos que dizem que o homem é salvo por meio da fé, ou conforme o modo de se exprimir, contanto que ele tenha fé; mas, entre os que assim se exprimem, a maior parte não sabe o que é a fé. Alguns creem que é um simples pensamento, outros, que é o reconhecimento de alguma coisa que se deve crer, outros, que é a doutrina inteira da fé que se deve crer; outros pensam de outro modo, assim, na cognição somente. Erram consequentemente nisto, que seja a fé aquilo pelo que o homem é salvo; mas a verdade é que a fé não é um simples pensamento, nem o reconhecimento daquilo que se deve crer, nem a cognição de tudo aquilo que pertence à doutrina da fé. Ninguém pode ser salvo por esses meios, porque eles não podem produzir raízes mais adiante do que no pensamento. Ora, o homem nunca é salvo pelo pensamento, mas o é pela vida que ele adquiriu para si no mundo por meio das cognições da fé; essa vida permanece, enquanto todo pensamento que não esteve em conformidade com a sua vida perece ao ponto que se torna nulo. As consociações celestes são segundo as vidas e nunca são segundo os pensamentos que não pertencem à vida. Os pensamentos que não pertencem à vida são pensamentos simulatórios, que são inteiramente rejeitados.
[3] Em geral, há duas vidas, uma infernal, a outra celeste. Contrai-se a vida infernal por todos os fins, pensamentos e obras que fluem do amor de si e, por conseguinte, do ódio contra o próximo. Forma-se a vida celeste de todos os fins, pensamentos e obras que pertencem ao amor para com o próximo; esta é a vida que tem em vista todas as coisas que são chamadas fé, e ela é adquirida por tudo que pertence à fé. Por esse modo se pode ver o que é a fé, isto é, que ela é a caridade, porque todas as coisas que se chamam doutrinais da fé conduzem à caridade, é nela que todas elas estão, e é dela que todas elas derivam. A alma, depois da vida do corpo, é tal qual foi o seu amor.