Texto
. ‘Como a aurora subiu’; que signifique quando o Reino do Senhor se aproxima, é o que se vê pela significação da ‘aurora’ ou da ‘manhã’ na Palavra. Como se trata, neste capítulo, dos estados sucessivos da igreja, primeiro se tratou do que se fez de tarde, depois durante a noite, agora se trata do que se fez ao amanhecer, e logo em seguida, do que se fez depois que o Sol se levantou. O ‘amanhecer’ [ou o despontar do dia] é aqui expresso como “a aurora subiu”, e então é quando os probos são separados dos maus. Trata-se dessa separação desde este versículo até o versículo 22, pelo que Ló, junto com a esposa e as duas filhas, fora retirado [de Sodoma] e salvo. Que a separação preceda o juízo, é o que se vê pelas palavras do Senhor em Mateus:
“Todas as nações serão reunidas diante d’Ele, e Ele separará umas das outras, como um pastor separa as ovelhas dos bodes” (25:32).
[2] Esse tempo, ou este estado, é chamado, na Palavra, ‘aurora’, porque então o Senhor vem, ou o que é o mesmo, porque então o Seu Reino se aproxima. Com efeito, as coisas se passam do mesmo modo com os bons, porque há então neles um esplendor semelhante ao do amanhecer, ou da aurora. Daí vem que, na Palavra, o Advento do Senhor é comparada com a manhã, e é mesmo chamada ‘manhã’; ela é comparada com a manhã em Oseias:
“JEHOVAH vivificar-nos-á em dois dias, no terceiro dia nos levantará, e viveremos perante Ele, e conheceremos, e continuaremos a conhecer JEHOVAH, assim como a aurora é a saída d’Ele” (6:2, 3);
Os ‘dois dias’ designam o tempo e o estado que precedem; o ‘terceiro dia’ é o juízo, ou o Advento do Senhor; por conseguinte, a aproximação de Seu Reino (n. 720, 901); essa vinda, ou essa aproximação, é comparada à aurora.
[3] Em Samuel:
“O Deus de Israel [é] como a luz da manhã [quando] nasceu o Sol, uma manhã sem nuvem; pelo esplendor, pela chuva [brota] o germe da terra” (2Sm. 23:4);
O ‘Deus de Israel’ é o Senhor. Nunca se entendeu, de fato, outro Deus de Israel nessa igreja, porque Ele foi representado em tudo que pertencia, tanto em geral como em particular, a essa igreja. Em Joel:
“Vem o dia de JEHOVAH, porque próximo [está]; o dia das trevas e da escuridão, o dia da nuvem e da obscuridade; como a aurora se derramam sobre as montanhas” (2:1, 2);
aí também se trata do Advento do Senhor e de Seu Reino; é “um dia de trevas e escuridão” porque então os bons são separados dos maus como aqui Ló é separado dos varões de Sodoma; e depois que os bons foram separados, perdem-se os maus.
[4] Que o Advento do Senhor, ou a aproximação do Seu Reino, não seja comparada com a manhã, mas sim chamada manhã, é o que se vê em Daniel:
“Disse um Santo: Até quando [durará] a visão, o sacrifício perpétuo e a prevaricação devastadora? Disse-me: Até a tarde, [quando chega] a manhã, dois mil e trezentos, e o Santo será justificado. A visão da tarde e da manhã, que foi dita a verdade é” (8:13, 14, 26);
aqui é manifesto que a ‘manhã’ está no lugar do Advento do Senhor. Em Davi:
“O teu povo de voluntários, no dia da tua coragem, [estará] nas honras da santidade; do útero desde a aurora, a ti o orvalho da tua natividade105 ” (Sl. 110:3).
Em todo este Salmo se trata do Senhor e de Suas vitórias nas tentações, que são os ‘dias de coragem’ e as ‘honras de Sua santidade’; ‘do útero desde a aurora’ [ab utero ex aurora], é Ele mesmo, assim, é o Divino Amor pelo qual Ele combateu.
[5] Em Sofonias:
“JEHOVAH, o justo, [está] no meio dela, não fará perversidade; de manhã, de manhã Seu juízo produzirá a luz” (3:5).
A ‘manhã’ designa o tempo e o estado do juízo, o que é a mesma coisa que o Advento do Senhor, e a mesma coisa que a aproximação do seu Reino.
[6] Como a ‘manhã’ tinha essas significações, a fim de que essas mesmas coisas fossem representadas, ordenou-se que “Aharão e seus filhos fizessem subir a lâmpada e a mantivessem desde a tarde até a manhã diante de JEHOVAH (Êx. 27:21). Aí a ‘tarde’ é o despontar do dia antes da manhã (n. 2323). Pelo mesmo motivo, ordenou-se “que o fogo seria aceso sobre o altar em cada aurora” (Lv. 6:5). Também se ordenou “que se não deixasse até de manhã coisa alguma do Cordeiro Pascoal, nem [carnes] santificadas dos sacrifícios” (Êx. 12:10; 23: 18; 34:25; Lv. 22:29, 30; Nm. 9:12); pelo que era significado que os sacrifícios cessariam quando o Senhor viesse.
[7] A ‘manhã’ é empregada, em um sentido geral, não só quando a aurora aparece, mas também quando o Sol se levanta, e então a manhã é tomada pelo juízo tanto sobre os bons como sobre os maus, como neste capítulo:
“O Sol se levantou sobre a terra, e Ló veio a Zoar; e JEHOVAH fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo” (vers. 23, 24).
Ela é do mesmo modo tomada pelo juízo sobre os maus em Davi:
“Ao amanhecer destruirei todos os ímpios da terra, para cortar da cidade de JEHOVAH todos os obreiros de iniquidade” (Sl. 101:8);
e em Jeremias:
“Que este varão seja como as cidades que JEHOVAH derrubou, e não se arrependa, e ouça o grito de manhã” (20:16).
Visto que a ‘manhã’, no sentido próprio, significa o Senhor, o Seu advento e, assim, a aproximação do Seu Reino, pode-se ver o que é que a manhã significa além disso, a saber, o nascimento de uma nova igreja, porque é isso o Reino do Senhor na Terra; e isso tanto no geral como no particular, e até mesmo também no singular. No geral, quando se eleva novamente alguma igreja no globo; no particular, quando um homem é regenerado e se torna novo, porque então o Reino do Senhor nasce nele, e esse homem se torna igreja; no singular, todas as vezes que nesse homem se opera o bem do amor e da fé, pois então o advento do Senhor está nesse bem. Por isso, a ressurreição do Senhor no terceiro dia, de manhã (Mc. 16:2, 9; Lc. 24:1; Jo. 20:1), também no particular e no singular, encerra todas essas coisas: que nas mentes dos regenerados o Senhor ressuscita dia após dia, e até mesmo a cada momento.