ac 2417

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Não olhes atrás de ti’; que signifique que ele não devia se voltar para as coisas doutrinais107 , é o que se vê pela significação de ‘olhar atrás de si’, pois a cidade estava atrás de Ló, e a montanha, diante dele; ora, a ‘cidade’ significa o doutrinal (n. 402, 2268, 2392); e a ‘montanha’ designa o amor e a caridade (n. 795, 1430). Essa significação ficará claramente manifesta na explicação do vers. 26; onde se diz que “a sua esposa olhou para trás dele e se tornou estátua de sal”. Qualquer um pode saber que nestas palavras, a saber, ‘olhar para trás de si’, há algum arcano Divino e que esse arcano seja muito elevado para que possa ser visto. Com efeito, nada parece criminoso em olhar para trás de si, mas é, todavia, de uma tão grande importância que se diz que “ele se escaparia sobre a sua alma”, isto é, que se ocuparia de sua vida pela eternidade “não olhando para trás de si”; mas o que se entende por se voltar para as coisas doutrinais é o que se vai ver na continuação; aqui, direi somente o que é o doutrinal.
[2] O doutrinal é duplo, um envolve o amor e a caridade, e o outro a fé. Toda Igreja do Senhor, em seu começo, enquanto ela é ainda menina e virgem, não tem outro doutrinal e não ama outro doutrinal senão o da caridade, porque é o doutrinal da vida; mas a igreja se desvia sucessivamente desse doutrinal ao ponto que começa a desprezá-lo e, finalmente, a rejeitá-lo, e então ela não reconhece outro doutrinal senão o que se chama doutrinal da fé, e quando a fé se separa da caridade, o doutrinal concorda com a vida do mal.
[3] Tal foi a Igreja Primitiva (ou das nações), depois do Advento do Senhor. Em seu começo ela não teve outro doutrinal senão o do amor e da caridade, porque é esse doutrinal que o Senhor mesmo ensinou (ver o n. 2371, no fim). Mas, sucessivamente, depois do tempo do Senhor, à medida que o amor e a caridade começaram a se esfriar, o doutrinal da fé se introduziu e com ele as dissensões e as heresias, que aumentaram em proporção que elas se apoiavam sobre esse doutrinal.
[4] O mesmo acontecera com a Igreja Antiga, que existiu depois do dilúvio e se estendeu sobre tantos reinos (n. 2385); ela também não conheceu, em seu começo, outro doutrinal senão o da caridade, porque esse doutrinal dizia respeito à vida e a penetrava; por conseguinte, os homens tinham cuidado de si mesmos na eternidade. Mas o fato é que, depois de um certo tempo, o doutrinal da fé começou também a ser cultivado entre alguns que, por fim, separaram a fé de junto da caridade; mas esses eram chamados ‘Cam’, porque estavam na vida do mal (ver n. 1062, 1068, 1073).
[5] A Igreja Antiquíssima, que existiu antes do dilúvio, e que, de preferência às outras, foi chamada ‘homem’ [ou Adão], esteve na percepção mesma do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, portanto, teve inscrito em si o doutrinal do amor e da caridade; mas então também houve nela os que cultivavam a fé, e quando enfim eles a separaram da caridade, foram chamados ‘Cain’, porque uma tal fé é significada por Cain, e a caridade o é por ‘Abel’, a quem Cain matou (veja-se a explicação do capítulo 4 do Gênesis).
[6] Sendo assim, é evidente que há um duplo doutrinal, um que se refere à caridade e o outro à fé, ainda que em si mesmo ele seja um, porque o doutrinal da caridade encerra tudo que pertence à fé; mas quando o doutrinal se compõe só de coisas que pertencem à fé, então se diz que há um duplo doutrinal, porque a fé está separada da caridade. Que hoje a fé esteja separada da caridade, é o que é evidente, pois não se sabe absolutamente o que é a caridade, nem o que é o próximo; os que estão no doutrinal só da fé não sabem sobre a caridade para com o próximo outra coisa senão que ela consiste em dar do seu aos outros e em ter piedade de cada um, pois chamam de próximo a qualquer homem, sem distinção, quando todavia a caridade é todo bem qualquer no homem, em sua afeição e em seu zelo, por conseguinte, em sua vida; e o próximo é todo o bem nos outros cuja caridade é afetada e, por consequência, os que estão no bem, e isso com todas as distinções que o bem comporta.
[7] Por exemplo, aquele que exerce a justiça e o juízo punindo os maus e recompensando os bons, está na caridade e na misericórdia. Ele está na caridade punindo os maus, porque ele é assim levado por zelo a corrigi-los de seus defeitos e, ao mesmo tempo, a proteger os outros impedindo que os maus lhes façam mal; desse modo efetivamente ele provê e quer bem àquele que está no mal, ou ao inimigo, e provê e quer bem aos outros e a própria República; e isso pela caridade para com o próximo. O mesmo sucede com todos os outros bens da vida. O bem da vida, com efeito, nunca pode existir senão pela caridade para com o próximo, porque esse bem considera a caridade e a envolve.
[8] Como se está, conforme se disse, em uma tão grande obscuridade sobre o que é a caridade e sobre o que é o próximo, é evidente que o doutrinal da caridade está no número das coisas perdidas desde que o doutrinal da fé foi posto no primeiro lugar; e, entretanto, que os dessa Igreja Antiga dispunham por classe todos os bens que pertencem à caridade para com o próximo, isto é, todos que estavam no bem, e isso com numerosas distinções; e [eles] até lhes davam nomes e os chamavam, pobres, infelizes, oprimidos, enfermos, nus, famintos, sedentos, cativos (ou prisioneiros), ou órfãos, peregrinos, viúvas; havia até alguns que eles chamavam coxos, cegos, surdos, mudos, manetas, não falando de muitas outras denominações. É segundo esse doutrinal que o Senhor Se exprimiu na Palavra do Antigo Testamento; por isso ali se encontram muitas vezes esses nomes; e é segundo esse mesmo doutrinal que o Senhor mesmo falou, por exemplo, em Mt. 25:35, 36, 38–40, 42–45; Lc. 14:13, 21; e em muitos outros lugares. Daí vem que esses nomes signifiquem outra coisa no sentido interno. Para que, portanto, o doutrinal da caridade seja restaurado, se dirá na continuação, pela Divina Misericórdia do Senhor, quais são os homens assim designados, e, em geral e em particular, o que é a caridade e o que é o próximo.

Versão impressa (opcional)

Para estudo mais confortável, você pode adquirir esta obra em formato impresso: ver orientações.