Texto
. ‘E eu não poderei escapar-me na montanha’; que signifique a dúvida se ele poderia ter [consigo] o bem da caridade, isto é, pensar e agir a partir desse bem, é isso evidente pela significação da ‘montanha’, que é o amor e a caridade de que se tratou (n. 795, 1430).
[2] Quanto ao que diz respeito à dúvida, a coisa se passa assim: Os que estão na afeição do vero têm com eles, em sua afeição do vero, a afeição do bem, mas tão obscuramente que eles não a percebem. Assim, eles não sabem também o que é a afeição do bem, nem o que é a caridade genuína; eles creem, de fato, que eles o sabem, mas é a partir do vero, assim, do conhecimento, mas não a partir do bem mesmo. Não obstante, eles fazem os bens da caridade não para merecerem por esse modo alguma coisa, mas por obediência, e isso enquanto eles compreendem que é o vero, porque eles se deixam conduzir pelo Senhor pelo obscuro do bem por meio do vero que lhes aparece como vero. Por exemplo, como eles ignoram o que é o próximo, eles fazem bem a todo homem que eles pensam ser o próximo, principalmente aos pobres, porque eles, sendo privados de riquezas mundanas, são chamados pobres; aos órfãos e às viúvas, por serem assim chamados; aos peregrinos, por serem tais, e assim com os outros; e isso porque ignoram o que é significado pelos pobres, órfãos, viúvas, peregrinos e muitos outros. Contudo, como em sua afeição do vero aparente está seguramente oculta, como se disse, a afeição do bem pela qual o Senhor os conduz a agir assim, eles estão, ao mesmo tempo, quanto os interiores, no bem no qual com eles estão os anjos, e nele se deleitam de suas aparências de vero pelas quais eles são afetados.
[3] No entanto, quanto aos que estão no bem da caridade e, por conseguinte, na afeição do vero, eles fazem todas as coisas com distinção; eles estão de fato na luz, porque a luz do vero não procede de outro lugar senão do bem, porque é pelo bem que o Senhor influi; estes não fazem bem aos pobres, órfãos, viúvas, peregrinos, pelo único motivo de serem chamados assim. Eles sabem, com efeito, que os que são bons, quer pobres, quer ricos, são o próximo de preferência aos outros, porque pelos bons o bem é feito aos outros, e, por conseguinte, quanto mais se lhes faz bem, tanto mais por eles fazem [o bem] a outros. Eles sabem fazer também uma distinção entre os bens, assim, entre os bons; eles até chamam de seu próximo o próprio bem comum, porque nele é considerado o bem de um maior número de pessoas. Eles reconhecem ainda mais o Reino do Senhor na terra (que é a igreja) como o seu próximo para com o qual a caridade deve ser exercida; e ainda mais o Reino do Senhor nos céus. Mas os que preferem o Senhor a todas essas coisas, que adoram a Ele só e O amam acima de tudo, fazem derivar d’Ele tudo que é o próximo; porque, no sentido supremo, só o Senhor é O que é o próximo; assim, todo bem, tanto quanto ele procede do Senhor, é o próximo.
[4] Mas os que estão no estado oposto fazem derivar de si próprios o que é o próximo, e reconhecem por próximo somente os que lhe são favoráveis e que os servem, e só a estes é que eles chamam seus irmãos e amigos; e isso com esta distinção que não é senão tanto quanto eles fazem um com eles. Por esse modo, pode-se ver o que é o próximo, isto é, que cada um é o próximo conforme o amor em que ele está; e que aquele que está no amor ao Senhor e na caridade para com o próximo, é verdadeiramente o próximo, e isto com toda distinção. Assim, em cada um, é o bem mesmo que determina se ele é o próximo.