Texto
. Que ‘filha do meu pai ela [é]; contudo, não [é] filha da minha mãe’ signifique que o Racional foi concebido do bem celeste como de um pai, mas não do espiritual vero como de uma mãe, é o que se pode ver pela concepção do Racional, a saber, que ocorra por meio do influxo do bem celeste Divino na afeição dos conhecimentos (n. 1895, 1902, 1910). Há aqui dois arcanos: um, que o racional do homem seja concebido do bem celeste Divino como de um pai, e que de outro modo nenhum racional exista; o outro é, que o racional não seja concebido do espiritual vero como de uma mãe. Quanto ao que diz respeito ao primeiro, a saber, “que o racional do homem é concebido do bem celeste Divino como de um pai, e que de outro modo nenhum racional existe”, pode-se vê-lo pelo que se disse antes (n. 1895, 1902, 1910), e ainda a partir das coisas que podem ser conhecidas de todo homem, se ele refletir.
[2] Com efeito, é notório que o homem não nasce em conhecimento algum nem em racional algum, mas nasce somente na faculdade de recebê-los; então, que depois, gradualmente, ele aprende todas as coisas e delas se imbui, e isso principalmente por meio das coisas que pertencem aos sentidos do ouvido e da vista, e que à medida que ele as aprende e delas se imbui, assim ele se torna racional. Que isso ocorra por via do corpo, isto é, por uma via externa, porque é pelo ouvido e pela vista, é evidente. No entanto, o que o homem não sabe — porque ele não reflete sobre isso — é que influi conjuntamente, pelo interior, alguma coisa que recebe o que entra e é assim insinuado, e dispõe em ordem. O que influi e que recebe e dispõe é o bem celeste Divino que procede do Senhor; daí vem a vida dessas coisas, daí vem a ordem e daí as consanguinidades e as afinidades entre si, como se disse. Sendo assim, é possível ver que o racional do homem vem do bem celeste Divino como de um pai, segundo as palavras deste versículo: “ela é filha do meu pai”.
[3] Quanto ao que se refere ao outro arcano, a saber, “que o racional não foi concebido do espiritual vero como de uma mãe”, pode-se ver pelo que se disse no n. 1902. Com efeito, se o vero espiritual influísse como o bem, pelo interior, o homem nasceria então em todo racional e, ao mesmo tempo, em todo conhecimento, de sorte que ele não teria necessidade de aprender coisa alguma. Como, porém, o homem é tal que por seu hereditário ele está em todo mal e, por conseguinte, em todo falso, mas, nessas condições, se os próprios veros influíssem também, ele os adulteraria e os falsificaria, e assim, o homem pereceria para sempre, foi provido pelo Senhor a que nada de vero influa por meio do interno do homem, e que haja somente influxo do vero pelo seu externo. Segundo isto, é possível ver que o racional do homem não vem do espiritual vero como de uma mãe, segundo as palavras deste versículo “contudo, não [é] filha da minha mãe”. É segundo uma ordem semelhante que aprouve ao Senhor que o Seu Racional fosse também formado, e isso, a fim de que tornasse Divino n’Ele, por Seu próprio poder, o que era Humano, e a fim de implantar e unir o Divino espiritual vero ao Divino no celeste bem e o Divino celeste bem ao Divino espiritual vero.