Texto
. Que ‘servos e servas’ signifique que ela foi também enriquecida de veros racionais e de veros naturais, assim como das afeições desses veros, vê-se pela significação dos ‘servos’ e das ‘servas’. Os ‘servos’ e as ‘servas’ são muitas vezes mencionados na Palavra, e no sentido interno significam as coisas que são relativamente inferiores e de pouca importância, como são as coisas racionais e as naturais relativamente às espirituais e às celestes. Por veros naturais se entendem os conhecimentos de todo gênero, pois eles são naturais. Que na Palavra os ‘servos’ e as ‘servas’ tenham essas significações, é o que se vê claramente pelo sentido interno das palavras em que eles são nomeados, como em Isaías:
“Compadecer-se-á JEHOVAH de Jacó, e elegerá ainda Israel, e pô-los-á sobre o Seu húmus, e se apegará o peregrino a eles, e se juntarão à casa de Jacó. E tomá-los-ão os povos e levá-los-ão ao seu lugar, e herdá-los-á para si a casa de Israel sobre o húmus de JEHOVAH por servos e servas” (14:1, 2);
[2] onde ‘Jacó’ é a igreja externa, ‘Israel’ é a igreja interna; os ‘peregrinos’ [ou migrantes] são os que são instruídos nos veros e nos bens (n. 1463, 2025); os ‘servos’ e as ‘servas’ são os veros naturais e racionais com as afeições desses veros, que deverão servir à igreja designada por Jacó e Israel. É evidente que não são Jacó e Israel ou os judeus e os israelitas que sejam aqui entendidos; com efeito, estes, dispersos entre as nações, eles se tornaram nações. Tais são ainda agora a expectativa e a esperança dos judeus; e mesmo, segundo a letra, eles esperam que os peregrinos [ou migrantes] se apegarão a eles, que os povos os conduzirão e serão seus servos e suas servas, quando o fato é que não há a menor coisa que se entenda dos judeus e dos israelitas nos livros proféticos da Palavra em que eles mencionados.
[3] No mesmo:
“Eis que JEHOVAH esvazia a terra, e a exaurindo derreterá as faces dela, e fará dispersar os habitantes dela. E como [suceder] com o povo sucederá assim com o sacerdote, como com o servo, assim com o dono, como com a serva,assim com a senhora; ...” (24:1, 2);
aqui, a ‘terra’ é a igreja (n. 662, 1066, 1067, 1850), que “está vazia e exaurida” e cuja “face é derrubada e os habitantes dispersados” quando não há mais veros e bens interiores (que são ‘os povos’ e os ‘sacerdotes’) nem veros e bens exteriores (os quais são o ‘servo’ e a ‘serva’), o que sucede quando as coisas externas dominam as coisas internas.
[4] No mesmo:
“Produzirei de Jacó uma semente, e de Judá um herdeiro das minhas montanhas, e possui-la-ão os meus eleitos e os meus servos habitarão ali” (65:9);
aí ‘Jacó’ é a igreja externa, ‘Judá’ é a igreja interna celeste, os ‘eleitos’ são os bens, e os ‘servos’, os veros.
[5] Em Joel:
“[...] derramarei o meu espírito sobre toda a carne, e profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas; ... [E] também sobre os servos e as servas, nesses dias, derramarei o meu espírito” (3:1, 2 [Em JFA, 2:28, 29]);
onde se trata do Reino do Senhor; ‘profetizar’ é ensinar (n. 2534); os ‘filhos’ são os veros mesmos (n. 489, 491, 533, 1149); as ‘filhas’ são os bens mesmos (n. 489, 490); os ‘servos’ e as ‘servas’ são os bens e os veros inferiores sobre os quais se diz que o espírito se derrama quando eles se aproximam e confirmam. Aqui e ali não parece que pelos servos e servas tais coisas sejam significadas não só por causa da ideia comum que se tem dos servos e das servas, mas também por causa do histórico aparente.
[6] Em João:
“Vi um anjo que estava no sol, que clamou com voz grande, dizendo [a todas] as aves que voavam no meio do céu: ... Comei as carnes dos reis e as carnes dos comandantes, e as carnes dos fortes, e as carnes dos cavalos e dos que estão assentados sobre eles, e as carnes de todos os livres e dos servos, e dos pequenos e grandes” (Ap. 19:17, 18);
é evidente que aqui não são as carnes dos reis, dos comandantes, dos fortes, dos cavalos, dos que os montam, nem das servas, que eles comeriam, mas são os veros internos e externos da igreja que se tornariam para eles carnes.
[7] Que os ‘servos’ signifiquem os veros, e as ‘servas’, os bens, que servem, e que, em consequência, servem aos veros e aos bens espirituais e celestes, é o quem se torna mais manifesto pelas leis decretadas na igreja representativa sobre os servos e as servas. Essas leis se referem todas ao estado da igreja e do Reino do Senhor no geral e no particular, e mostram como os veros e os bens inferiores, que são os naturais e os racionais, devem servir aos espirituais e aos celestes, por conseguinte, aos Divinos. Por exemplo: “Que o servo hebreu e a serva hebreia, no sétimo ano seria livre, e que então se lhe dará alguma coisa do rebanho, da eira e do lagar” (Êx. 22:2, 6; Dt. 15:12–15; Jr. 34:9–14). “Que a esposa seria livre se ela com ele em serviço entrou; se, porém, o dono lha deu por esposa, a esposa e o filho seriam do dono” (Êx. 21:3, 4). “Que um irmão pobre comprado não o serviria servilmente, mas [seria] como mercenário e inquilino; no jubileu, juntamente com os filhos sairia” (Lv. 25:39–43) “Se o irmão fosse comprado por um estrangeiro inquilino, poderia ser resgatado e sairia no ano do jubileu” (Lv. 25:47 e seguintes). “Que das nações em torno, seriam comprados servos e servas, e, dentre os filhos dos inquilinos estrangeiros, tê-los-ia de posse perpétua e os dominariam, mas não seriam filhos de Israel” (Lv. 25:44–46). “Que se o servo não quisesse sair da servidão, uma sovela pela orelha dele contra a porta se daria, e seria servo perpétuo; igualmente também se for uma serva” (Êx. 21:5, 6; Dt. 15:16, 17) “Se alguém ferisse o seu servo ou sua serva com um bastão, de modo que morresse, seria vingado; mas se sobrevivesse um dia ou muitos dias, seria livre, porque é prata sua” (Êx. 21:20, 21): “Se alguém ferisse um olho ou um dente do servo, este sairia livre” (Êx. 21:26, 27). “Se um boi a um servo ou uma serva ferisse, e que ele morresse, que pagar-se-ia trinta ciclos ao seu dono, e o boi seria apedrejado” (Êx. 21:32). “Que não se prenderia o servo que fugiu de [seu] dono, mas habitaria no lugar onde quisesse, nem seria afligido” (Dt. 23:16, 17 [Em JFA, 23:15, 16]). “Que o servo comprado por prata e circuncidado comeria a Páscoa” (Êx. 12:44, 45). “Que a filha de alguém, tendo sido comprada, não sairia do serviço, como os servos; se [fosse] má, o dono não a venderia a um estrangeiro; se [fosse] desposada a seu filho, seria como a sua filha; se uma outra tomar, o alimento, a vestimenta, e a dívida conjugal não seriam diminuídos; se estas coisas não fizesse, gratuitamente sairia do serviço” (Êx. 21:7–12).
[8] Todas essas leis obtêm a sua origem das leis do vero e do bem no céu e a elas se referem no sentido interno, mas parte por correspondências, parte pelas coisas representativas e parte pelas significativas. Contudo, depois que as coisas representativas e as significativas da igreja, que eram os extremos e os ínfimos do culto, foram abolidas, a necessidade dessas leis também cessou. Por conseguinte, se essas leis fossem desenvolvidas a partir das Leis da ordem do vero e do bem, e pelas coisas representativas e significativas, ver-se-ia claramente que pelos ‘servos’ outra coisa não é significada senão que os veros racionais e os veros dos conhecimentos, que são os veros inferiores, devem, por isso, servir aos veros espirituais; e pelas ‘servas’, os bens desses veros, que, sendo também inferiores, devem na realidade servir, mas de um outro modo. É por isso que certas leis promulgadas sobre as servas diferem das leis decretadas sobres os servos, porque os veros, considerados em si mesmos, são mais servos do que bens deles.
[9] Pelo ‘Direito Régio’ em Samuel, não é também significada outra coisa, no sentido interno, senão o ‘direito do vero’, e também o ‘direito do falso’ quando esse começa a dominar o vero e o bem. É o que se pode ver pela explicação das palavras pelas quais esse direito foi descrito:
“Este será o direito do Rei que reinará sobre vós; aos vossos filhos tomará, e se porá aos seus carros, e aos seus cavaleiros, e correrão diante dos carros dele. [...] Vossas filhas [ele] tomará como perfumistas, e como cozinheiras, e como padeiras. [...] Os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores mancebos, e os vossos jumentos, tornará e os fará para o trabalho dele. Dizimará o vosso rebanho, finalmente vós sereis servos dele. E clamareis nesse dia por causa do vosso rei a quem elegestes para vós, e JEHOVAH não vos responderá nesse dia” (1Sm. 8:11, 13, 16–18).
[10] Que pelo ‘rei’ seja significado o vero, viu-se nos n. 1672, 2016, 2069; por isso, no sentido oposto, são significados os não veros, isto é, os falsos. Os ‘filhos que ele porá sobre seus carros e entre seus cavaleiros’ significam os veros da Doutrina, que ele fará servir aos princípios do falso designados pelos ‘carros’ e pelos ‘cavaleiros’; as ‘filhas que ele tomará por perfumistas, cozinheiras e padeiras’ significam os bens da doutrina pelos quais ele fará agradáveis e favoráveis as filhas e fará que sirvam. Os ‘servos’ e as ‘servas’, os ‘mancebos’ e os ‘asnos’, pelos quais ele fará a sua obra, significam as coisas racionais e as dos conhecimentos, pelas quais ele os confirmará; o ‘rebanho que ele dizimará’ significa as relíquias do bem que ele violará; e ‘eles mesmos que serão seus servos’ significa que ele fará de sorte que as coisas celestes e espirituais da Palavra e da Doutrina, em vez de dominarem, servirão para confirmar os falsos de seus princípios e os males das suas cobiças, porque nada há que se não infunde nos princípios do falso para confirmá-los, fazendo falsas aplicações, interpretando sinistramente, pervertendo e rejeitando o que não é favorável. Por isso se acrescenta; “se clamardes nesse dia por causa de vosso Rei que escolhestes para vós, não vos responderá JEHOVAH nesse dia”.