Texto
. Mas quanto ao que se refere aos ‘Preceitos’ da vida, como são todos os do Decálogo, e muitos outros na Lei e nos Profetas, esses preceitos, pelo fato de servirem a própria vida do homem, devem ser seguidos em um e outro sentido, tanto no literal como no interno. Os Preceitos no sentido literal eram para o povo e para os povos desse tempo, que não compreendiam as coisas internas; os preceitos no sentido interno são para os anjos, que não prestam atenção às coisas externas. Se os preceitos do Decálogo não encerrassem também coisas internas, nunca eles teriam sido promulgados com tão grandes prodígios sobre o monte Sinai, porque os preceitos que o Decálogo encerra, por exemplo, os de ‘honrar pai e mãe’, ‘não furtar’, ‘não matar’, ‘não cometer adultério’, ‘não cobiçar o que pertence a outrem’, são preceitos que os gentios também conheceram e escreveram anteriormente em suas leis, e que os filhos de Israel, enquanto homens, deveriam conhecer sem uma tal promulgação; mas esses preceitos servindo, em um e outro sentido, para a vida e sendo como formas externas produzidas pelas internas que a elas correspondem, é por isso que eles desceram do céu sobre o monte Sinai em meio de tantos prodígios, e que foram pronunciados e ouvidos, no céu, no sentido interno, enquanto que na terra eles eram pronunciados e ouvidos no sentido externo.
[2] Assim, tomando por exemplo o preceito que o homem ‘deve honrar seu pai e sua mãe, a fim de que sejam prolongados os seus dias na terra’, os anjos que estavam no céu, por ‘pais’ percebiam o Senhor, pela ‘terra’, o Seu Reino que possuiriam eternamente como filhos e herdeiros os que adoram o Senhor pelo amor e pela fé; mas os homens na terra pelos ‘pais’ entendiam seus pais, pela ‘terra’ a terra de Canaã; pela ‘prolongação dos dias’, os anos da vida. Pelo preceito que proíbe furtar, os anjos que estão no céu percebiam que não se deve arrebatar coisa alguma ao Senhor, e que não se deve atribuir a si próprio coisa alguma da justiça nem do mérito; mas os homens na terra entendiam que não se deve furtar. Que esses preceitos sejam verdadeiros em um e outro sentido, é o que é evidente. Seja ainda o preceito que proíbe matar, os anjos no céu percebiam que não se deve ter ódio contra ninguém e que não se deve extinguir, com quem quer que seja, coisa alguma do bem nem do vero; mas os homens na terra entendiam que se não deve matar os seus amigos. Sucede o mesmo com os outros preceitos.
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