Texto
. Que ‘lança fora esta serva e o filho dela’ signifique que as coisas que pertencem ao racional meramente humano deviam ser inteiramente rejeitadas, é isso evidente pela significação de ‘lançar fora’ [ou expulsar], que é rejeitar inteiramente; pela significação da ‘serva’, que é a afeição das coisas racionais e das coisas do conhecimento, por conseguinte, a afeição de seus bens (n. 2507); e pela significação do ‘filho’, que é o vero desse racional (n. 264, 489, 533, 1147); mas é o bem aparente e o vero aparente que se predicam desse primeiro racional, ou do racional meramente humano, de onde resulta que estas palavras: “lança fora esta serva e o seu filho”, significam que as coisas que pertencem ao racional meramente humano deviam ser inteiramente rejeitadas. Já foi dito e explicado muitas vezes como isso se efetua, isto é, que o primeiro racional foi inteiramente rejeitado quando o Racional Divino sucedeu; como, porém, aqui se trata especificamente dele, cumpre dar ainda mais algumas explicações.
[2] Em cada homem que é regenerado há dois racionais, um antes da regeneração, o outro depois da regeneração; o primeiro, que existe antes da regeneração, é adquirido por meio das experiências dos sentidos, pelas reflexões sobre as coisas que estão na vida civil e na vida moral, pelos conhecimentos e pelos raciocínios que daí provêm e que são fundados sobre eles, e, enfim, por meio das cognições das coisas espirituais provenientes da Doutrina da fé ou da Palavra. Mas essas coisas não penetram então mais adiante do que um pouco acima das ideias da memória corporal, que são, até certo ponto, relativamente materiais. Portanto, tudo que ele pensa então é tirado dessas coisas, ou então, para que sejam apreendidas ao mesmo tempo pela vista interior, ou intelectual, apresentam-se coisas que são comparativamente ou analogicamente semelhantes. De tal modo é o primeiro racional, ou o que existe antes da regeneração.
[3] No entanto, o racional depois da regeneração é formado pelo Senhor por meio das afeições do vero e bem espiritual, afeições que são admiravelmente implantadas pelo Senhor nos veros do racional precedente, e assim as coisas que são convenientes e favoráveis são ali vivificadas, enquanto as outras são daí separadas como de nenhum uso, até que, por fim, os bens e veros espirituais sejam reunidos como em feixes; as coisas não convenientes, que não podem ser vivificadas, são rejeitadas, por assim dizer, para a periferia, e isso sucessivamente à medida que aumentam os veros e os bens espirituais com a vida de suas afeições. Daí se vê qual é o segundo racional.
[4] Esse assunto pode ser ilustrado por uma comparação com o fruto das árvores: Sucede com o primeiro racional, no começo, como com o fruto não maduro, que amadurece sucessivamente, até quanto em si ele dispõe interiormente as sementes; quando ele está nessa idade em que ele começa a se separar da árvore, é então o seu estado pleno, de que se falou no n. 2636. Mas o segundo racional, de que o homem é dotado pelo Senhor quando ele é regenerado, é como o mesmo fruto em um bom húmus, onde se apodrecem as coisas que estão ao redor das sementes e estas são impelidas de seus íntimos para fora, e lançam uma raiz, depois fazem sair da terra uma haste que se torna uma nova árvore, e se desenvolve até dar, enfim, novos frutos e formar depois jardins e lugares paradisíacos segundo as afeições do bem e do vero que ele recebe (ver Mt. 13:31, 32; Jo. 12:24).
[5] Mas como os exemplos formam melhor a convicção, seja por exemplo o proprium que o homem tem antes da regeneração e o proprium que ele tem depois da regeneração: pelo primeiro racional que ele adquiriu pelos meios de que acima se falou, o homem crê que é dele mesmo, assim, por seu proprium, que ele pensa o vero e pratica o bem. Esse primeiro racional não pode compreender que suceda de outro modo, apesar de ter sido instruído que todo bem do amor e todo vero da fé procedem do Senhor. Mas quando o homem é regenerado, o que sucede em sua idade adulta, ele começa a pensar a partir do segundo racional (de que ele é dotado pelo Senhor) que o bem e o vero vêm não de si próprio, ou de seu proprium, mas do Senhor, e que, contudo, ele pratica o bem e pensa o vero como de si próprio (n. 1937, 1947). Então, quanto mais ele se confirma nisso, tanto mais ele é conduzido na luz da verdade sobre os seus princípios, ao ponto que, enfim, ele crê que todo bem e todo vero procedem do Senhor; então é [aí] que o proprium do primeiro racional é sucessivamente separado, e que o homem é dotado pelo Senhor de um proprium celeste, que se torna o proprium do novo racional.
[6] Seja ainda um exemplo: o primeiro racional, no começo, não conhece outro amor senão o amor de si e do mundo, e ainda que ouça dizer que o amor celeste é absolutamente um outro amor, o fato é que ele não o compreende; ou depois quando ele faz algum bem, ele não experimenta outro prazer senão o de parecer a si mesmo merecer o favor de outrem, ou de ouvir dizer que ele obrou como cristão, ou de por ele alcançar a alegria da vida eterna. Mas o segundo racional, de que o Senhor dota o homem pela regeneração, começa a experimentar algum prazer no bem mesmo e no vero mesmo, e a ser afetado desse prazer não por causa de alguma coisa que lhe seja própria, mas por causa do bem e do vero; e desde que ressente esse prazer, ele rejeita então o mérito ao ponto que, enfim, ele o repele como uma enormidade; esse prazer aumenta sucessivamente com ele e se torna a sua bem-aventurança, e, na outra vida, ele vem a ser a sua felicidade e o seu céu mesmo. Daí, agora, se pode ver o que sucede com um e com outro racional no homem que é regenerado.
[7] Contudo, deve-se saber que, apesar de ser o homem regenerado, todas as coisas, tanto em geral como em particular, que pertencem ao primeiro racional, permanecem ainda com ele, e são somente separadas do segundo racional, e isso de um modo miraculoso pelo Senhor. O Senhor, porém, rejeitou inteiramente o primeiro racional a ponto de não ficar coisa alguma, porque o que é meramente humano e o Divino não podem estar juntos; por conseguinte, Ele não era mais o filho de Maria, mas era JEHOVAH quanto a uma e a outra Essência.