Texto
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Prefácio
Quanto erram aqueles que permanecem somente no sentido da letra e não investigam o sentido interno por outras passagens da Palavra onde aquele sentido é explicado; é o que se pode ver de modo evidente por tantas heresias, das quais cada uma confirma o seu dogma pelo sentido literal da Palavra; principalmente por essa grande heresia, que o insensato e infernal amor de si e do mundo tirou destas palavras do Senhor a Pedro:
“[...] Eu te digo, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E dar-te-ei as chaves do reino dos céus; e tudo que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo [que] desatares na terra será desatado nos céus” (Mt. 16:15–19).
[2] Os que se atêm ao sentido da letra pensam que essas palavras são ditas a respeito de Pedro, e que se lhe deu um tão grande poder, apesar de saberem que Pedro foi um homem bastante simples, e que ele nunca exerceu um tal poder, e que exercê-lo é contra o Divino. Como, porém, pelo insensato e infernal amor de si e do mundo, eles querem arrogar a si um supremo poder na terra e no céu e fazerem-se deuses, eles explicam essa passagem segundo a letra e fortemente a defendem, quando a verdade é que o sentido interno dessas palavras é que, a FÉ mesma no Senhor, a qual só existe nos que estão no amor ao Senhor e na caridade para com o próximo, tem esse poder; e mesmo tal poder não pertence à fé, mas ao SENHOR de Quem procede a fé. Aqui, pela ‘pedra’ entende-se essa fé, como aliás em qualquer passagem na Palavra; sobre ela é edificada a igreja, e contra ela as portas do inferno não prevalecerão. A essa fé são dadas as chaves do reino dos céus; é ela que fecha o céu, para que os males e os falsos não entrem; é ela que abre o céu para os bens e os veros. Tal é o sentido interno dessas palavras.
[3] Os ‘doze Apóstolos’, assim como as ‘doze Tribos de Israel’ não representaram outra coisa senão todas as coisas que pertencem à tal fé (n. 577, 2089, 2129, 2130 no fim); ‘Pedro’ representou a fé mesma, ‘Tiago’, a caridade, e ‘João’, os bens da caridade (ver o prefácio do cap. 18 do Gênesis). O mesmo sucedeu com ‘Rúben’, com ‘Simeão’ e com ‘Levi’, e com os ‘primogênitos de Jacó, na Igreja representativa judaica e israelita, como consta em milhares de passagens da Palavra. E porque ‘Pedro’ representava a fé, por isso aquelas palavras lhe foram dirigidas.
Segundo o que acaba de ser dito, vê-se em que trevas se precipitam, e os outros consigo, aqueles que explicam todas as coisas segundo a letra, como os que aplicam a Pedro essas palavras, pelas quais eles arrebatam ao Senhor e atribuem a si próprios o poder de salvar o gênero humano.
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Gênesis
Vigésimo segundo capítulo.
*2760. EMJoão, no Apocalipse, assim se descreve a Palavra quanto ao sentido interno:
“Vi o céu aberto, e eis um CAVALO BRANCO; e Quem estava assentado sobre ele era chamado Fiel e Verdadeiro, e em justiça julga e peleja. Os olhos d’Ele [eram] como uma chama de fogo; e sobre a cabeça d’Ele [havia] muitos diademas; tendo um nome escrito que ninguém conhece senão Ele mesmo. E estava revestido de uma vestimenta tinta de sangue; e chama-se o nome d’Ele a PALAVRA DE DEUS. E os exércitos que [estão] nos céus seguiam-n’O sobre cavalos brancos, vestidos de fino linho branco puro. [...] E tinha sobre a vestimenta e sobre a Sua coxa, um nome escrito: REI DOS REIS e SENHOR DOS SENHORES” (Apocalipse, 19:11–14, 16).
Ninguém pode saber o que cada uma dessas palavras encerra exceto pelo sentido interno. É evidente que cada expressão é alguma coisa representativa e alguma coisa significativa, a saber, ‘o céu que foi aberto’, ‘o cavalo que é branco’, ‘Aquele que estava montado n’Ele e que é Fiel e Verdadeiro, e que em justiça julga e peleja’, que ‘os Seus olhos eram como uma chama de fogo’, que ‘[Ele] tinha sobre a cabeça muitos diademas’, que ‘tinha um nome que ninguém conhece exceto Ele mesmo’, que ‘estava revestido de uma vestimenta tinta de sangue’, que ‘os exércitos que estão no céu O seguiam sobre cavalos brancos’, que ‘esses exércitos estavam vestidos de fino linho branco puro’, e que ‘tinha sobre a sua vestimenta e sobre a Sua coxa um nome escrito’; em termos abertos, diz-se que ‘é a Palavra’, e que ‘é o Senhor que é a Palavra’, pois se diz: “Chama-se o nome d’Ele a Palavra de Deus”, e depois “Tinha sobre a vestimenta e sobre a Sua coxa um nome escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores”.
[2] Pela interpretação de cada uma dessas expressões, é evidente que se descreve aqui a Palavra quanto ao sentido interno; o ‘céu aberto’ representa e significa que o sentido interno da Palavra só é visto no céu e por aqueles aos quais o céu está aberto, isto é, pelos que estão no amor e, por conseguinte, na fé no Senhor; o ‘cavalo’, que é ‘branco’, representa e significa o entendimento da Palavra quanto aos seus interiores. Que seja isto o que o ‘cavalo branco’ representa e significa, ver-se-á pelo que segue. ‘Aquele que está montado n’Ele’, que seja a Palavra e o Senhor, Que é a Palavra, é evidente. Em razão do bem, Ele é chamado ‘Fiel’ e ‘da justiça julgando’; em razão do vero, Ele é chamado ‘Verdadeiro’ e ‘da justiça pelejando [ou combatendo]’, [pois o Senhor mesmo é a justiça; ‘Seus olhos como chama de fogo’ significam o Divino Vero proveniente do Divino Bem com Seu Divino Amor]151 ; ‘sobre a Sua cabeça muitos diademas’ significam todas as coisas que pertencem à fé; ‘tendo um nome escrito que ninguém conhece senão Ele mesmo’ significa que ninguém, exceto Ele mesmo e aquele a quem Ele o revela, vê qual é a Palavra no sentido interno; ‘revestido de uma vestimenta tinta de sangue’ significa a Palavra na letra; ‘os exércitos que, nos céus, O seguiam sobre cavalos brancos’ significam os que estão no entendimento da Palavra quanto aos interiores; ‘vestidos de um fino linho branco puro’ significam os mesmos no amor e, por conseguinte, na fé; ‘o nome escrito sobre a sua vestimenta e sobre a sua coxa’ significa o vero e o bem. A partir dessas palavras, e pelas que as precedem e as seguem, é evidente que, próximo do último tempo, o sentido interno da Palavra será aberto; mas quanto ao que sucede então, isso também está escrito nos vers. 17–21.