Texto
. Que ‘a tua semente herdará o portão dos teus inimigos’ signifique que a caridade e fé sucede no lugar que antes o mal e falso [ocupava], é o que se vê pela significação de ‘herdar’, que é receber a vida do Senhor (n. 2658); aqui suceder, porque quando a caridade e fé está onde estava precedentemente o mal e falso, então a vida do Senhor sucede; pela significação da ‘semente’, que é a caridade e fé (n. 1025, 1447, 1610, 1941); pela significação do ‘portão’, de que se vai falar; e pela significação dos ‘inimigos’, que são os males e falsos, ou, o que é o mesmo, os que estão no mal e falso; estes são significados, no sentido interno da Palavra, pelos ‘adversários’ e ‘inimigos’.
[2] Quanto ao que diz respeito à significação do ‘portão’, há em geral dois portões em cada homem; um, que está aberto aos males e aos falsos que provêm desses males, é visível para o inferno; neste portão estão os gênios e os espíritos infernais. O outro portão, que está aberto aos bens e aos veros deles provenientes, é visível para o lado do céu; nesse portão estão os anjos. Assim, há um portão que conduz ao inferno, e um portão que conduz ao céu. O portão do inferno está aberto para aqueles que estão no mal e falso, e é somente por fendas aqui e ali que penetra por cima alguma luz do céu, pela qual eles podem pensar e raciocinar. Mas o portão do céu está aberto aos que estão no bem e no vero do bem.
[3] Há, com efeito, dois caminhos que conduzem à mente racional do homem: um caminho superior, ou interno, pelo qual entra o bem e vero que procede do Senhor, e um caminho inferior, ou externo, pelo qual entra por baixo o mal e falso procedente do inferno, a mente racional mesma, para a qual tendem os caminhos, está no meio. Essa mente, pelos bens e os veros que nela estão, é comparada, na Palavra, a uma cidade e é chamada ‘cidade’; e porque é comparada a uma cidade e chamada cidade, atribuem-se a ela portões, e aqui e ali se descreve como os inimigos, isto é, os maus gênios e os maus espíritos, sitiam essa cidade e a atacam, e como ela é defendida pelos anjos do Senhor, isto é, pelo Senhor. Os gênios e os espíritos infernais, não podem vir mais além do portão inferior, ou externo, nem [podem penetrar] jamais na cidade. Se eles pudessem penetrar na cidade, ou na mente racional, o homem estaria inteiramente perdido; mas quando chegam ao ponto que lhes parece terem tomado de assalto essa cidade, então ela é fechada, de sorte que não influi mais do céu bem e vero nela; influi somente, como se disse, algum pouco pelas fendas aqui e ali. Daí resulta que tais [homens] não têm mais coisa alguma da caridade nem coisa alguma da fé, e põem o bem no mal e o vero no falso. Daí também resulta que eles não sejam mais verdadeiramente racionais, embora para eles pareça que o sejam (n. 1014, 1944). Daí vem que esses homens sejam chamados mortos, apesar de crerem que têm mais vida do que os outros (n. 81, 290 no fim); e essas coisas por esta causa, porque o portão do céu lhes foi fechado. Que ele lhes foi fechado, descobre-se e apercebe-se de modo claro na outra vida, então também vice-versa, que o portão do céu foi aberto aos que estão no bem e vero.
[4] Quanto ao que diz respeito especificamente ao ‘portão dos inimigos’ de que se trata neste versículo, ele está no homem em sua mente natural. Quando o homem é inteiramente natural, ou não regenerado, os males e falsos ocupam [esse portão], ou, o que é mesmo, os maus gênios e espíritos influem nele com as cobiças do mal e as persuasões do falso (n. 687, 697, 1692); mas quando o homem se torna espiritual, ou é regenerado, então os males e falsos, ou o que é o mesmo, os maus gênios e espíritos, são expulsos desse portão, ou dessa mente, e quando foram expulsos sucedem os bens e veros, ou a caridade e fé, é o que é significado por “a tua semente herdará o portão dos teus inimigos”; isso se faz em particular com todo homem quando ele é regenerado, e igualmente na outra vida para os que vêm para o Reino do Senhor, e também isso se faz no geral, ou na igreja, que é composta de muitos.
[5] É o que foi representado pelo fato de os filhos de Israel terem expulsado as nações da terra de Canaã. No sentido literal isso se entende por ‘a tua semente herdará o portão dos inimigos’, mas no sentido interno é o que acaba de ser dito que é significado. Daí vem que, nos tempos antigos, era um ato habitual se exprimir assim quando se abençoava os que se casavam, como se vê também pela bênção de Labão à Rebeca, a irmã, quando depois de ter sido desposada se dirigia para Isaque:
“Nossa irmã, sejas tu em milhares de miríades, e a tua semente herde o portão dos teus inimigos” (Gn. 24:60).
[6] Que tais coisas sejam significadas na Palavra pelo ‘portão dos inimigos’, ou dos que odeiam, pode-se ver pelas passagens seguintes: Em Isaías:
“Destruirei pela fome a tua raiz, e matarei os teus remanescentes; uiva, ó portão, clama, ó cidade, tu derreteste, Filisteia, tu inteira, porque do norte vem a fumaça” (Is. 14:30, 31);
‘Destruir [interimere] pela fome a raiz e matar os remanescentes’ é arrebatar os bens e veros que estavam inteiramente escondidos pelo Senhor; que os ‘remanescentes’ [reliquiae] sejam esses bens e esses veros, foi visto (n. 458, 530, 560, 561, 562, 661, 798, 1050, 1738, 1906, 2284); o ‘portão’ está no lugar da entrada [aditu] que conduz aos interiores ou à mente racional; a ‘cidade’ designa essa mente, ou, o que é a mesma coisa, os bens e os veros que nela estão (n. 402, 2268, 2450, 2451, 2712); a ‘Filisteia’ designa o conhecimento das cognições da fé, ou, o que é mesmo, os que estão no conhecimento dessas cognições e não nos bens da fé (n. 1197, 1198); a ‘fumaça que vem do norte’ é o falso que provém do inferno; que a ‘fumaça’ seja o falso proveniente do mal, vê-se no n. 1861.
[7] No mesmo:
“Será fraturada a cidade de inanidade, será fechada toda casa para [ninguém] entrar; [haverá] clamor sobre o vinho nas praças, se desolará toda alegria, exilado será o regozijo da terra, o que resta na cidade [será] desolação, e pela devastação será ferido o portão, pois assim será no meio da terra, no meio dos povos” (Is. 24:10, 11, 12, 13);
a ‘cidade de inanidade’ [ou de vacuidade] que será fraturada está no lugar da mente humana que será privada do vero; ‘toda casa que será fechada’ designa o que está sem o bem (que a ‘casa’ seja o bem, n. 2233, 3334); o ‘clamor sobre o vinho nas praças’ está pelo estado do falso. Que o clamor seja predicado dos falsos, n. 2240; que o vinho seja o vero a respeito do qual há clamor porque não existe, n. 1071, 1798; que as ‘praças’ sejam o que conduz aos veros, n. 2336; a ‘alegria’ que está desolada se diz do vero, o ‘regozijo da terra’ que está exilada se diz do bem; daí se vê o que significa “o que resta na cidade será uma desolação” e que “o portão será ferido pela devastação”. Diz-se que o portão está devastado quando não há senão os males e falsos, que reinam.
[8] Em Jeremias:
“Os caminhos de Sião pranteiam que não se venha à festa fixada; todos os portões dela [foram] desolados; os seus sacerdotes gemem, as suas virgens [estão] ansiosas, e ela na amargura, tornaram-se os adversários dela em cabeça, os seus inimigos [estão] seguros, porque JEHOVAH acometeu-a de ansiedade, sobre a multidão das prevaricações dela, as suas crianças se foram em cativeiro diante do inimigo” (Lm. 1:4, 5);
‘os caminhos de Sião pranteiam’ designa que não há mais veros provenientes do bem. (Que os caminhos sejam os veros, n. 189, 627, 2333). ‘Todos os portões desolados’ designa que todas as entradas foram ocupadas pelos falsos; ‘os inimigos em cabeça’ está no lugar dos males que reinam.
[9] No mesmo:
“JEHOVAH fez prantear o antemuro, e muralha da filha de Sião, juntamente definham, foram afundados na terra os seus portões, destruiu e quebrou os seus ferrolhos; o seu rei e os seus príncipes [estão] entre as nações; não [há] Lei, também os profetas não acharam a visão por JEHOVAH, abriram sobre ti a sua boca todos os teus inimigos, assobiaram e rangeram com o dente; disseram: Engoliremos; certamente é este o dia que esperávamos, encontramos, vimos” (Lm. 2:8, 9, 16).
os ‘portões afundados na terra’ designam que a mente natural foi ocupada pelos males e falsos; ‘seu rei e seus príncipes entre as nações’, que os veros foram imersos nos males. Que o ‘rei’ seja o vero no geral, n. 1672, 1728, 2015, 2069; que os príncipes sejam os veros primários, n. 1482, 2089; que as nações sejam os males, n. 1259, 1260, 1849, 1868, 2588.
[10] Em Moisés:
“Uma nação de longe, da extremidade da terra, te angustiará em todos os seus portões, [até que sejam derrubados os teus muros altos e munidos nos quais confias, em toda a tua terra; e te angustiará em todos os teus portões,] em toda a tua terra, assim te angustiará o teu inimigo” (Dt. 28:(49), 52, 53);
está entre as maldições que Moisés predisse ao povo, se não perseverassem nos preceitos e nos estatutos; a ‘nação de longe, da extremidade da terra’, no sentido interno, está no lugar dos males e falsos, ou daqueles que estão no mal e falso; ‘angustiar em todos os portões’ está por fechar todo acesso ao bem e vero.
[11] Em Naum:
“Eis o teu povo [é] como mulheres no meio de ti; aos inimigos abrindo foram abertos os portões da tua terra, destruiu o fogo os teus ferrolhos; águas do sítio haure para si, fortifica os teus baluartes, entra na lama e pisa o betume, fortifica a fornalha de tijolos” (3:13, 14);
os ‘portões da terra abertos aos inimigos’ designam que os males ocupam o lugar onde estarão os bens. No Livro dos Juízes:
“Cessaram os caminhos, e iam por veredas, iam por caminhos tortuosos, cessaram as vilas em Israel, [se] se escolheu deuses novos, então eram sitiados os portões; via-se escudo ou lança entre quarenta mil em Israel” (5:6, 7, 8);
é uma profecia de Deborah e de Barak; os ‘portões sitiados’ designam que [isso se fez com] os bens e veros.
[12] Em Davi:
“Inventam contra mim os habitantes do portão; compõem os que bebem sícera” (Sl. 69:13[Em JFA, 69:12]);
os ‘habitantes do portão’ estão pelos males e os falsos, então, no lugar das coisas infernais. Em Ezequiel:
“Nas visões de Deus fui conduzido à entrada do portão interior que olha para o norte; ali vi as grandes abominações da casa de Israel; também fui conduzido à entrada do portão da casa de JEHOVAH que olha para o norte, ali também [vi] abominações” (8:3, 6, 14, 15);
a ‘entrada do portão interior que olha para o lado do norte’ é o lugar em que estão os falsos interiores; a ‘entrada do portão da casa de JEHOVAH, do lado do norte’ é onde estão os males interiores; que existam falsos e males interiores e que exista uma esfera interior em que estão tais espíritos e tais gênios, foi visto (n. 2121, 2122, 2123, 2124).
[13] Em Davi:
“Eis a posse de JEHOVAH [são] os filhos; a recompensa [é] o fruto do ventre; como flechas na mão de um poderoso, assim [são] os filhos das primícias; bem-aventurado o varão que encheu a sua aljava por eles! Não serão confundidos, porque falarão com os inimigos ao portão” (127:3, 4 [Em JFA, 127:3, 4, 5]);
‘falar com os inimigos ao portão’ é não temer por nada os males e falsos, assim, nem o inferno. Em Isaías:
“Nesse dia será JEHOVAH Zebaoth em espírito de juízo para o que está assentado para o juízo e por fortaleza para os que repelem o combate até o portão, e também estes com o vinho se tornam insensatos, e erram com a sícera” (28:5, 6, 7).
No mesmo:
“Serão cortados os que fazem pecar os homens pela palavra168, e que armam laço ao que repreende no portão, e fazem o justo declinar para a vaidade” (Is. 29:20, 21).
No mesmo:
“Elam tomou a aljava no carro do homem, dos cavaleiros, Kir descobriu o escudo, e aconteceu que a elite dos teus vales [ficou] cheia de carros e de cavaleiros, pondo-se puseram-se ao portão, e olhou naquele dia para o arsenal da casa da floresta” (Is. 22:6, 7, 8).
Em Jeremias:
“Chorou Judá, e os seus portões se enfraqueceram, andam de luto até a terra, e o clamor de Jerusalém subiu, os grandes enviaram os menores às águas, vieram às covas, não acharam águas” (14:1, 2, 3).
No mesmo:
“Os velhos ao portão cessaram, os jovens [cessaram] o seu canto” (Lm. 5:14).
[14] Pode-se ver por essas passagens o que significa o ‘portão dos inimigos’, isto é, que significa o inferno, ou os infernais, que atacam continuamente os bens e veros; a sede deles está no homem (como se disse), em sua mente natural; mas quando o homem é tal que admite os bens e veros, por conseguinte, os anjos, então os infernais são expulsos dessa sede pelo Senhor. Uma vez que eles foram expulsos, o portão do céu ou o céu se abre; esse portão também e lembrado aqui e ali na Palavra, como em Isaías:
“Cântico na terra de Judá; uma cidade forte temos, em salvação porá as muralhas e o antemuro. Abri os portões, e entrará a nação justa, que guarda as fidelidades” (26:1, 2).
No mesmo:
“Assim disse JEHOVAH ao seu ungido, Ciro, cuja direita tomei para fazer descer diante [das faces] dele as nações, e os lombos dos reis abrirei, a fim de abrir diante dele os batentes, e os portões não se fecharão. Eu irei diante de ti, e retificarei as coisas tortuosas; os batentes de bronze romperei, e as barras de ferro quebrarei” (Is. 45:1, 2).
No mesmo:
“Os filhos do estrangeiro edificarão as tuas muralhas, e os reis deles servir-te-ão; abrem os teus portões continuamente, de dia e de noite não se fecharão. Não se ouvira mais falar de violência na tua terra, de devastação, e nem de fratura nos teus termos, e chamarão salvação às tuas muralhas, e aos teus portões, louvor” (Is. 60:10, 11, 18).
No mesmo:
“Passai, passai pelos portões, preparei o caminho ao povo, aplainai; aplainai a vereda, dizei à filha de Sião; eis, a tua salvação vem” (Is. 62:10, 11, 12).
Em Miqueias:
“Passarão pelo portão, e sairão por ele, e passará o Rei deles diante deles, e JEHOVAH [estará] no princípio deles” (2:13).
Em Davi:
“Levantai, portões, as vossas cabeças, e levantai-vos, estradas eternas, e entrará o Rei da glória. Quem [é] este Rei da glória? JEHOVAH, o forte e o herói. JEHOVAH, o herói de guerra; levantai, ó portões, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas!” (Sl. 24:7, 8, 9, 10).
No mesmo:
“Celebra, Jerusalém, a JEHOVAH; louva o teu Deus, Sião; porque fortalece os ferrolhos dos teus portões, abençoa os teus filhos no meio de ti” (Sl. 147:12, 13).
[15] Por essas passagens se vê que o ‘portão do céu’ é onde estão os anjos com o homem, isto é, onde está o influxo do bem e vero procedente do Senhor; assim, que existam dois portões, como se disse. O Senhor fala assim dos dois portões em Mateus:
“Entrai pelo portão169 apertado, porque largo é o portão e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele; porque apertado [é o portão] e estreito o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram” (7:12, 13, 14; Lucas, 13:23, 24).
Além disso, trata-se muitas vezes, em Ezequiel, e também em João, no Apocalipse, dos portões da Nova Jerusalém e dos portões do Novo Templo, pelos quais não se entende outra coisa senão a entrada para o céu (veja-se a respeito delas: Ez. 40:6–49, 43:1, 2, 4; 44:1, 2, 3; 46:1–9, 12; 48:31, 32, 33, 34; Ap. 21:12, 13, 21, 25; 22:14; Is. 54:11, 12). Daí vem que Jerusalém é chamada ‘o portão do povo’ (Mq. 1:9; Ob. 13).