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Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E água para lavar os seus pés’; que signifique a purificação ali, é o que se vê pela significação da ‘água para lavar’ ou ‘lavar com água’, que é purificar, do que se tratará na sequência; e pela significação dos ‘pés’, que são as coisas naturais, ou, o que é o mesmo, as coisas que estão no homem natural (n. 2162). Na Igreja Representativa foi coisa habitual lavar os pés com água e por meio disto significar que as sujidades do homem natural deviam ser purificadas; as sujidades do homem natural são todas essas coisas que pertencem ao amor de si e ao amor do mundo; sujidades que quando são purificadas, então os bens e veros influem, uma vez que são unicamente elas que impedem o influxo do bem e vero procedente do Senhor.
[2] Com efeito, o bem influi continuamente do Senhor, mas como ele vem por meio do homem interno (ou espiritual) ao homem externo (ou natural), esse bem é ali ou pervertido, ou desviado, ou sufocado. Mas, ao contrário, quando as coisas que pertencem ao amor de si e ao amor do mundo são removidas, então o bem ali é recebido e ali frutifica, pois então o homem exerce as obras da caridade. É o que se pode ver por muitos exemplos. Assim, quando essas coisas que pertencem ao homem externo (ou natural) estão apenas entorpecidas, como nos infortúnios, nas misérias e doenças, então o homem começa logo a pensar piamente e a querer o bem, e também a exercer, tanto quanto pode, obras de piedade; mas mudado o estado, também essas coisas são mudadas.
[3] São essas as coisas que eram significadas pelas lavações na Igreja Antiga, e as mesmas eram representadas na Igreja Judaica. Que elas, na Igreja Antiga, eram significadas, mas na Igreja Judaica eram representadas, era porque o homem da Igreja Antiga considerava esse rito como uma coisa externa no culto e não acreditava que pela lavação se era purificado, mas sim por meio da ablução das sujidades do homem natural, as quais, como foi dito, são as coisas que pertencem ao amor de si e ao amor do mundo. Porém, o homem da Igreja Judaica acreditava que pela lavação ele era purificado, não sabendo nem querendo saber que ela significava a purificação dos interiores.
[4] Que pela lavação seja significada a ablução das sujidades, é o que se vê em Isaías:
“Lavai-vos, purificai-vos, removei o mal das vossas obras de diante dos meus olhos, cessai de fazer o mal” (1:16);
onde se vê que ‘lavar-se’ é purificar-se e remover os males. No mesmo:
“Quando o Senhor tiver lavadoo excremento das filhas de Sião, e tiver abluído os sangues de Jerusalém do meio dela, por um espírito de juízo e por um espírito de expurgação” (Is. 4:4);
onde ‘lavar os excrementos das filhas de Sião’ e ‘abluir os sangues de Jerusalém’ estão por purificar dos males e falsos. Em Jeremias:
“Ablui da malícia o teu coração, ó Jerusalém, para que sejas salva; quanto tempo morarão no meio de ti os pensamentos da tua iniquidade? (4:14).
[5] Em Ezequiel:
“Lavei-te nas águas, e abluí os sangues de sobre ti, e te ungi com azeite” (16:9);
aí se trata de Jerusalém, pela qual se entende a Igreja Antiga; ‘lavar nas águas’ está por purificar dos falsos, ‘abluir os sangues’ está no lugar de purgar dos males; ‘ungir com azeite’ por encher de bens então. Em Davi:
“Lava-me da minha iniquidade e limpa-me do meu pecado. [...] Expiar-me-ás com hissopo, e serei limpo, lavar-me-ás e, mais do que a neve, alvo serei” (Sl. 51:(4,) 9 [Em JFA, 51:2, 7]);
‘ser lavado’ está manifestamente no lugar de ser purificado dos males e dos falsos provenientes dos males.
[6] Essas eram as coisas que eram significadas, na Igreja Representativa, por ‘lavar’; ali, por causa da representação, mandava-se [aos homens dessa igreja] que lavassem a pele, as mãos, os pés e também as suas vestimentas, quando se tornavam imundas, e se limpassem, por todas essas coisas eram significadas as coisas que pertencem ao homem natural. Havia também lavatórios que eram de cobre, postos fora do Templo, a saber, o Mar de bronze, e as dez bacias de bronze (1Rs. 7:23-37, 38, 39); e a bacia de bronze, em que se lavavam Aharão e seus filhos, estava posta entre a Tenda da convenção e o Altar, assim, fora da Tenda (Êx. 30:18, 19, 21); pelo que também é significado que somente os externos ou os naturais deveriam ser purificados; estes, a não ser que sejam purificados, isto é, a não ser que sejam daí removidos o amor de si e o amor do mundo, nunca os internos, que pertencem ao amor ao Senhor e para com o próximo, podem influir, como foi dito acima.
[7] Para que se saiba melhor como estas coisas acontecem, seja para exemplo e para ilustração as boas obras, ou que é o mesmo, os bens da caridade, que são hoje chamados frutos da fé; estes são externos porque são exercícios. As boas obras são más obras exceto se forem removidas as coisas que pertencem ao amor de si e ao amor do mundo, pois as obras, quando são feitas antes que essas coisas sejam removidas parecem boas por fora, mas por dentro elas são más, porquanto elas são feitas ou por causa da fama, ou por causa do ganho, ou por causa da honra de si mesmo, ou por causa da retribuição, assim, elas são ou meritórias ou hipócritas, pois essas coisas que pertencem ao amor de si e do mundo tornam tais essas obras. Porém, quando esses males são de fato removidos, então as obras se tornam boas e são bens da caridade, a saber, nelas não se pensa a respeito de si, do mundo, da fama, da retribuição, portanto, elas não são meritórias nem hipócritas, pois então o amor celeste e o amor espiritual influi do Senhor nas obras, e fazem que elas sejam o amor e a caridade em ato; e então o Senhor, por meio delas, também purifica o homem natural (ou externo), e o dispõe em ordem, para que receba correspondentemente as coisas celestes e espirituais que influem.
[8] Pode-se claramente ver isso pelas coisas que o Senhor ensinou, em João, quando lavou os pés dos discípulos:
“[...] Veio a Simão Pedro, que Lhe disse: Senhor, Tu a meus pés lavas? Respondeu Jesus e disse-lhe: O que Eu faço, tu não sabes ainda, saberás, porém, depois dessas coisas. Disse a Ele Pedro: Não lavarás meus pés pela eternidade . Respondeu-lhe Jesus: Se a ti não tiver lavado, não terás parte comigo. Diz-Lhe Simão Pedro: Senhor, não meus pés somente, mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que foi lavado não tem necessidade senão de ser lavado quando aos pés, mas está todo limpo; vós já estais limpos, todavia, não todos” (João, 13:4-17);
‘aquele que foi lavado não necessita ser lavado senão quanto aos pés’ significa que aquele que é reformado necessita ser purificado somente quanto aos naturais, isto é, que dos naturais sejam removidos os males e os falsos, todas as coisas são então dispostas em ordem por meio do influxo das coisas espirituais procedente do Senhor. Além disso, ‘lavar os pés’ pertencia à caridade, a saber, que não refletiam sobre os males de outrem; e pertencia também à humilhação, a saber, que se limpasse o outro dos males da mesma maneira que das sujidades, como também se pode ver pelas palavras do Senhor ali (vers. 12 ao 17), e também em Lucas (7:37, 38, 44, 46; João, 11:2. 1Sm. 25:41).
[9] Qualquer um pode ver que lavar-se não purifica ninguém dos males e dos falsos, mas somente das sujidades que se lhe aderem; mas porque estava entre os ritos ordenados, segue-se que envolve alguma coisa peculiar, a saber, a lavação espiritual, isto é, a purificação dessas sujeiras que aderem por dentro do homem. Aqueles, portanto, que dentre eles conheceram essas [significações], e pensaram a respeito da purificação do coração, ou seja, a respeito da remoção dos males do amor de si e do mundo do homem natural, e com toda dedicação se esforçavam para fazê-lo, esses encarregaram-se do rito da lavação como culto externo por mando. Porém, os que não o conhecem, nem quiseram conhecer, mas pensaram que somente o rito de lavar as vestimentas, a pele, as mãos, os pés, os purificavam, e faziam somente tais coisas, era-lhes permitido viver na avareza, nos ódios, nas vinganças, na falta de compaixão, nas desumanidades, que são as imundícies espirituais, esses cultuavam esses ritos como uma idolatria. Contudo, ainda assim, por esse rito, puderam representar e, por meio dessa representação, mostrar alguma coisa da igreja, por meio do que, antes de o Senhor vir, havia alguma conjunção do céu com o homem, mas uma conjunção tal que o homem dessa igreja pouco ou nada se afetava.
[10] Os judeus e os israelitas eram de uma tal natureza, que não pensavam absolutamente nada a respeito do homem interno nem queriam saber coisa alguma a respeito dele; assim, nada pensavam absolutamente a respeito das coisas celestes e espirituais que pertencem à vida após a morte; contudo, para que não perecesse toda comunicação com o céu e, assim, com o Senhor, eles eram obrigados a observar os ritos externos pelos quais eram significados os internos. Todos os seus cativeiros e todas as suas pragas tinham em geral por fim que os externos fossem regularmente observados para a representação. Daí vem que
Moisés lavou pelas águas à entrada da tenda a Aharão e seus filhos, para que fossem santificados (Êx. 29:4; 40:12; Lv. 8:6);
Que Aharão e seus filhos lavaram as mãos e os pés antes de entrarem na tenda da convenção e de se aproximarem para o altar para ali desempenharem o seu ministério para que não morressem, e que isso era para eles um estatuto de século (Êx. 30:18-21; 40:30, 31);
Que Aharão, antes de vestir a vestimenta do ministério, lavava a sua carne” (Lv. 16:4, 24);
Que os Levitas eram purificados, pelo que receberam a aspersão da água de expiação, e que faziam passar a navalha sobre a sua carne, e lavavam as suas vestimentas, e assim se tornava purificadas (Nm. 8:6, 7);
Que aqueles que comiam do cadáver de uma besta limpa, ou dilacerada, que lavasse as suas vestimentas e se abluísse nas águas; e se não se lavasse e a sua carne não abluísse, carregaria sua iniquidade (Lv. 17:15, 16);
Que aquele que tocasse a cama [de uma pessoa] afetada de fluxo, ou que se sentasse sobre um móvel sobre o qual aquele sentara, ou quem tivesse tocado sua carne, lavasse as vestimentas e se abluísse nas águas, e estaria imundo até a tarde (Lv. 15:5, 6, 7, 10, 11, 12 e seguintes);
Que aquele que conduzia o bode para Azazel, lavasse a sua carne (Lv. 16:26);
O leproso, quando ficava limpo, que lavasse as suas vestimentas, raspasse todo o seu pelo e se lavasse nas águas, e seria limpo (Lv. 14:8, 9);
e mesmo
Que os próprios vasos, que se tornaram impuros pelo contato das coisas imundas, eram passados pelas águas, e seriam impuros até a tarde (Lv. 11:32).
A partir do que foi exposto, pode se ver claramente que pelo rito da lavação ninguém se tornaria limpo ou puro quanto aos internos, mas que esse rito somente representava o que é puro ou espiritualmente limpo, por causa das coisas a respeito das quais acima se tratou; que assim seja, o Senhor ensina manifestamente em Mt. 15:1, 2, 20; Mc. 7:1-23.

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